Rum de luxo para beber puro, sem coqueteleira nem enfeite

Os fabricantes dessa bebida estão entrando cada vez mais no setor de luxo

Na primeira vez que experimentei o rum Facundo Paraíso XA da Bacardi, que custa US$ 250, na biblioteca do hotel New York Palace, ele tinha cheiro de bolo de especiarias e deixou um frisson de açúcar mascavo e caramelo, profundo e defumado. Fiquei impressionada. Era tão sedutor quanto um uísque puro malte, mas tão suave e doce quanto um bourbon artesanal.

A imagem do rum continua ligada a coquetéis de bares de praia e a versões condimentadas com um pirata ou com coqueiros na etiqueta, mas os fabricantes dessa bebida estão entrando cada vez mais no setor de luxo.

De acordo com o Conselho de Bebidas Alcoólicas Destiladas dos EUA, o volume de vendas de rum superpremium (mais de US$ 45 a garrafa) aumentou 414 por cento nos EUA de 2003 a 2014 – dez vezes mais do que a taxa de crescimento do rum comum.

Seguindo o exemplo de outros tipos de destilarias, os fabricantes de rum estão produzindo edições limitadas de misturas raras e envelhecidas, como Paraíso, e engarrafando pequenos lotes de um único barril.

Exuberantes, complexos e deliciosos, todos eles passam longe das coqueteleiras baratas.

A Bacardi utilizou reservas familiares privadas para a linha Paraíso e para três outras misturas que estrearam em Nova York no fim de 2013 e que chegarão a Paris e Londres neste outono europeu.

A Brugal, da República Dominicana, fabricou sua edição do Papá Andrés Alegría para 2015 com os 36 barris familiares que lhe restam, guardados a sete chaves no depósito da companhia.

As temperaturas tropicais aceleram o processo de envelhecimento, de modo que um rum de 10 anos é como um uísque escocês de 30 anos. Os mais velhos são mais caros por causa da evaporação ocorrida durante o envelhecimento; 190 litros se reduzem a aproximadamente 19 litros ao longo de 23 anos (a idade dos runs mais velhos da linha Paraíso).

Até agora existem poucos runs antigos, a maioria da Martinica, mas varejistas como K&L Wine Merchants, na região da Baía de São Francisco, EUA, e Samaroli, em Roma, estão caçando e selecionando barris exclusivos para engarrafar.

Para os exemplares mais caros, os decantadores de cristal feitos sob medida são imprescindíveis. O Legacy, da Angostura, que custa US$ 25.000, vem em um decantador de cristal estilo Art Decó, criado pela Asprey, com uma tampa de prata de lei; apenas 20 foram produzidos.

Será que o lugar específico onde a cana-de-açúcar é cultivada altera o sabor do rum? Eu tenho as minhas dúvidas, mas a ideia evoca a mesma tendência das bebidas alcoólicas de luxo que nos trouxe os mescais de um único povoado.

No início deste ano, a Rémy Cointreau comprou a histórica plantação Mount Gay, de 134 hectares, em Barbados, para sua marca do mesmo nome e planeja criar – o que mais poderia ser? – um rum de terroir.

NOTAS DE DEGUSTAÇÃO

Ron Abuelo Centuria (US$ 140). Lançado em 2011 para comemorar os 100 anos da família Varela como fabricante de rum, ele é exuberante e condimentado, com notas de café e de bolo de gengibre.

El Dorado de 21 anos, da Demerara (US$ 100). Fabricado em históricos alambiques de madeira de 200 anos, esse rum tem aroma a moca e a tabaco e uma textura aveludada.

Facundo Paraíso XA (US$ 250). Espesso, concentrado e sutil, esse rum é finalizado em barris de conhaque extravelhos. O complexo e inebriante Exquisito (US$ 90) é quase tão bom quanto este.

Papá Andrés Alegría (2015), da Brugal (US$ 1.500). Criado por um membro da quinta geração da família Brugal a partir de runs envelhecidos em diversos tipos de barris, ele é leve, sedoso e sutil, com aromas a frutas secas e caramelo.

Orígenes Reserva Don Pancho 30 anos (US$ 250). O célebre destilador cubano Francisco “Don Pancho” Fernández fabricou este rum de sabor sensual no Panamá. Apenas 600 garrafas foram produzidas.