Romancista Patrick Modiano leva Nobel de Literatura

O francês venceu o Prêmio Nobel de Literatura, com romances que se concentram em temas como a culpa, a memória e o sofrimento de um país sob a ocupação nazista

Estocolmo – O francês Patrick Modiano, autor de romances que se concentram em temas como a culpa, a memória e o sofrimento de um país sob a ocupação nazista, venceu nesta quinta-feira o Prêmio Nobel de Literatura.

O prêmio foi concedido a este autor “pela arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inatingíveis e revelou o mundo da ocupação” nazista da França (1940-1944), anunciou a Academia Sueca em um comunicado.

Modiano, de 69 anos, situou toda a sua obra na Paris da Segunda Guerra Mundial, descrevendo os acontecimentos daquela época através de personagens comuns. Seu estilo sóbrio e claro fez dele um escritor acessível apreciado pelo grande público e também pelos círculos literários.

O secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund, disse que Mondiano – o décimo quinto escritor francês premiado com o Nobel – é um autor “que escreveu muitos livros que fazem eco uns aos outros”.

“É conhecido principalmente por seus romances, que são muito específicos. São livros pequenos (…) e sempre variações sobre o mesmo tema: a memória, a perda, a identidade, a busca”, acrescentou o secretário permanente.

Modiano, que não conseguiu ser contactado antes do anúncio da Academia, declarou que parecia um pouco irreal ter recebido o Nobel de Literatura, disse que gostaria de saber as razões pelas quais ganhou o prêmio e o dedicou ao seu pequeno neto sueco.

“Parece-me um pouco irreal estar diante de gente que admirei”, disse Modiano, em referência a outros grandes escritores franceses que receberam o prêmio, como Albert Camus.

“Foi como uma espécie de desdobramento com alguém que tinha o mesmo nome que eu… tudo isso foi um pouco abstrato”, comentou o premiado, falando à imprensa com o estilo hesitante que o caracteriza na expressão oral. “Vi que estava (na lista de candidatos), mas não esperava”, disse.

“Gostaria de saber como explicaram sua escolha, queria saber quais são as razões pelas quais me escolheram”, declarou.

“Meu neto é sueco, dedico a ele este prêmio porque é seu país”, acrescentou.

Mais cedo, a editora do escritor afirmou que ele havia se declarado muito feliz com a distinção.

“Telefonei para Modiano. Eu o parabenizei e ele, com sua habitual modéstia, disse: ‘é estranho’. Mas estava muito feliz”, contou Antoine Gallimard, presidente da editora Gallimard.

Já o presidente francês, François Hollande, felicitou o escritor através do Twitter.

“Felicitações a Patrick Modiano, este prêmio Nobel consagra uma obra que explora as sutilezas da memória e a complexidade da identidade”, afirmou o chefe de Estado.

Protegido de Raymond Queneau, publicou em 1967, com 22 anos, seu primeiro romance, “La Place de l’étoile”, cujo título se refere à estrela amarela que os judeus precisavam utilizar durante a ocupação.

Desde então escreveu trinta romances, todos publicados em francês pela editora Gallimard.

Cinco anos depois ganhou o Grande Prêmio de romance da Academia Francesa por “Les Boulevards de Ceinture” e em 1978 o prestigiado Goncourt por “Rue des boutiques obscures”.

Em 1974 escreveu, com o cineasta Louis Malle, o roteiro de um filme que fez muito sucesso em todo o mundo: “Lacombe Lucien”, a história de um adolescente com tentações de herói que começa a colaborar com os nazistas, na França de 1944.

Em 1996 levou na França o Grande Prêmio Nacional das letras pelo conjunto de sua obra, traduzida a 36 idiomas.

“É uma espécie de Marcel Proust de nosso tempo, que olha para trás. Pertence à tradição” do autor de “Em busca do tempo perdido”, disse Englund.

Modiano nasceu em 1945, após o fim da guerra na Europa, e dedicou sua obra a uma das grandes obsessões de seu país: a colaboração com o ocupante nazista.

Seu pai, Alberto Modiano, era um judeu italiano vinculado à Gestapo. Conheceu sua mãe, a atriz flamenca Louisa Colpeyn, em 1942 na capital francesa.

Três anos mais tarde, em 30 de julho de 1945, tiveram seu primeiro filho, Patrick, nascido em Boulogne, um município a oeste de Paris. O menino viveria uma infância solitária, com longas estadias em internatos.

Aos 17 anos, Modiano decidiu romper completamente com seu pai, que faleceu quinze anos mais tarde e aparece em vários livros seus.

“Se não tivesse a literatura, não sei o que faria”, disse uma vez Modiano.

O último francês a vencer o Nobel de Literatura foi Jean-Marie Gustave Le Clézio, em 2008.

Patrick Modiano, que sucede no prêmio a canadense anglófona Alice Munro, receberá um prêmio de oito milhões de coroas suecas (878,000 euros, 1,1 milhão de dólares). A cerimônia será realizada no dia 10 de dezembro em Estocolmo.

*Atualizada às 13h19 do dia 09/10/2014