Robson Conceição estreia amanhã no boxe profissional!

Ele chegou ao ápice da carreira no boxe olímpico e decidiu profissionalizar-se. Saiba mais sobre a trajetória do nosso menino de ouro

Cinquenta segundos. Apenas isso. E Robson Donato Conceição já sabia, antes de qualquer outra pessoa, que faria história naquele combate. Pouco antes de o cronômetro mostrar que restavam dois minutos para o fim do 1º round, o soteropolitano ousou baixar a guarda contra o francês Sofiane Oumiha. Estava confiante.

 

 

Seguiu o resto do assalto com esquivas provocativas, golpes certeiros, movimentos rápidos de corpo, muito jogo de pé. Tudo sob o coro da torcida, que o ensurdecia com gritos de “Uh, vai morrer” e “Um, dois, três, porrada no francês”. Quando, na tarde de 16 de agosto, soou o gongo no Pavilhão 6 do Riocentro anunciando o fim do primeiro round, Robson seguiu para o canto do ringue com tranquilidade. “Senti que ia ganhar. Estava bem consciente de que estava melhor do que o francês. Pensava: ele só vence se me nocautear, preciso continuar fazendo o mesmo trabalho”, contou ele, oito dias depois, sentado em uma poltrona de um prédio comercial em São Paulo, com um copo de café com açúcar em uma mão e a medalha de ouro, inédita no boxe brasileiro, na outra.

No lugar mais alto do pódio, enquanto ouvia o Hino Nacional e bufava para controlar a emoção, um filme, tal qual aqueles que dizem que passam por nossa cabeça em momentos cruciais da vida, enchia a de Robson. Ele pensava na infância pobre na periferia de Salvador. No tempo em que acordava às 3 da manhã para ajudar a avó na feira. Nas brincadeiras no quintal em que o amigo Luiz Alberto, que fazia boxe, o ensinava golpes usando chinelos no lugar das manoplas. “Fiquei lembrando de tudo o que passei para chegar até lá”, disse o atleta. “Não estava acreditando naquele momento. É muito, muito difícil viver do esporte no Brasil.”

Raiz fraca

“O fato de Robson Conceição ter ganhado uma medalha de ouro pode fazer as pessoas pensarem que tudo anda bem com o open boxe [antigo boxe amador] no Brasil, o que não é verdade”, diz Ivan de Oliveira, o Pitu, sentado na lanchonete da academia Vila da Luta, na zona oeste de São Paulo, onde é treinador. Pitu é filho de Servílio de Oliveira, o primeiro medalhista olímpico brasileiro (bronze em 1968, na Cidade do México), já treinou os irmãos também medalhistas Yamaguchi e Esquiva Falcão e é líder da equipe Oliveira Brothers, constituída na maioria por atletas de base, de 14 a 18 anos – em que lutam seus dois filhos.

Em cima do pódio, lembrei de tudo que passei para chegar até lá. Não estava acreditando

Robson Conceição

Para ele, o principal problema é a falta de investimento na base. “O boxe amador anda mal das pernas porque no Brasil a gente tem uma árvore que está dando frutos, como a medalha do Robson, mas cuja raiz não está forte”, afirma. “O Robson é um campeão hoje, mas quem o ajudou no primeiro campeonato brasileiro de cadete, aos 15 anos? Quem ajuda os meninos para pegar um avião de São Paulo para Cuiabá? Falta muito pra gente ser uma potência no nosso esporte. A medalha de ouro foi linda, mas aquém do que poderíamos fazer porque não existe trabalho de renovação.” Pitu cita o exemplo do americano Shakur Stevenson, prata olímpica no peso-galo (até 56 quilos). “O menino tem 19 anos e uma baita experiência internacional. Foi campeão mundial cadete com 15 anos, depois juvenil com 17. No mesmo mundial que ele venceu em 2013, o brasileiro Cassio Oliveira ficou com o bronze. Pergunta onde está o Cassio hoje? Lá em Sergipe com o pai, treinando no quintal. “

O especialista em boxe Daniel Fucs, comentarista da SporTV, concorda. Para ele, não houve nenhuma melhora no open boxe nos últimos anos. “O que vimos na Olimpíada é exatamente o que existia há dez anos. Grande parte dos atletas são os mesmos. E o único medalhista foi um pugilista treinado por Luiz Dórea, não pela confederação”, diz .

Há 12 anos, o baiano Luiz Dórea treina Robson Conceição. Ele comanda a Champion, academia que funciona há 26 anos em Salvador e que é também um projeto social que atende, atualmente, a 300 jovens atletas – são 6 mil ao longo de sua história. Adriana Araújo, bronze em Londres-2012, é cria de Dórea, que mandou atletas seus para a seleção olímpica em 19 ocasiões (ele mesmo foi técnico em 2008).

Apesar de tantas conquistas, o trabalho de Dórea é todo bancado com recursos próprios. “Os professores são voluntários, os atletas não ganham nada. Nos viramos para dar cesta básica para um, transporte para outro. Já tirei muito dinheiro da poupança dos meus filhos para pagar passagem dos atletas quando eles iam lutar em outras cidades”, conta. O custo mensal estrutural do projeto é de 10 mil reais – dinheiro de pinga para qualquer governo ou empresa grande. Dórea, que também foi técnico do tetracampeão mundial Acelino Popó Freitas, conta que usa o dinheiro que ganha treinando grandes nomes do UFC – como Anderson Silva, Rodrigo Minotauro Nogueira e Junior Cigano dos Santos – para manter a Champion. Mas ele acredita que o ouro de seu pupilo pode mudar o cenário. “O governo do estado prometeu que toda base comunitária da Polícia Militar vai ter um projeto social de boxe, para eu e Robson coordenarmos.”

Estreia como profissional

Após o ouro olímpico, Robson encara o boxe profissional. A luta acontece nesse sábado (5) – em Las Vegas – contra o americana Clay Burns. A data é ainda mais especial para o pugilista que vai “abrir” o evento para Manny Pacquiao, multicampeão e um dos ídolos de Robson. A luta acontece as 21:55 hrs e terá transmissão do Sportv.

Basta uma rápida olhada por vários dos nomes de destaque do boxe olímpico para notar que, assim como Robson Conceição, muitos são oriundos de projetos sociais. Roberto Custódio, ouro no Pan de 2013, começou no Luta pela Paz, do Complexo da Maré, no Rio. Patrick Lourenço (quinto no ranking mosca-ligeiro, até 49 quilos) e Michel Borges (segundo no meio-pesado, até 81 quilos), duas promessas, vêm do Instituto Todos na Luta, do qual saiu também Esquiva. O projeto é mantido, desde os anos 1990, pelo professor Raff Giglio na favela do Vidigal, no Rio. Fabricar tantos nomes de peso não serviu para que o instituto conseguisse qualquer suporte público – ele só funciona no galpão onde está instalado hoje porque o ator Malvino Salvador paga seu aluguel. “Para quem está na seleção, como nós, é mais fácil. Mas para a base, para chegar aonde chegamos, falta tudo. Por isso perdemos muitos talentos”, conta Patrick.

Depois de chegar ao topo da carreira olímpica, o atleta resolveu virar profissional

“O grosso do dinheiro público aplicado nos últimos anos tinha apenas uma meta: conseguir medalhas na Olimpíada. O investimento foi voltado para quem estava no topo do esporte”, afirma o jornalista Eduardo Ohata, especialista em boxe e comentarista da ESPN. “A chave tem que ser virada para que haja um trabalho de renovação no esporte, para que novos talentos surjam. Mas também há um risco grande de, depois da Rio 2016, fecharem a torneira e acabar o dinheiro.”

O gerente geral de performance esportiva do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Jorge Bichara, afirmou que a estimativa de repasse para a Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe) em 2016 é de 3,83 milhões de reais. Apenas no fim do ano é que o repasse de 2017 será definido. Bichara diz que o COB olha para a base, mas que esse é um trabalho feito em conjunto com a confederação. “Cabe à CBBoxe elaborar programas e projetos de desenvolvimento de novos talentos, de acordo com sua realidade estrutural e financeira. O COB realiza iniciativas que colaboram com o surgimento de novos valores. Um dos projetos é o Vivência Olímpica, que ajuda jovens atletas a passarem pela experiência olímpica. Na Rio 2016, com vistas para Tóquio 2020, levamos 20 atletas para conhecer de perto o clima da competição. Entre eles está Beatriz Iasmin Soares, do boxe, que também foi sparing da Adriana Araújo”, afirma.

“A CBBoxe é responsável pela seleção olímpica de boxe e ponto. Não tem vírgula”, diz Mauro Silva, presidente da entidade. “Por que as secretarias estaduais de esporte não apoiam as federações estaduais para que elas apoiem a base? Essa é a pergunta. Nós produzimos sete, oito torneios por ano e pagamos hotel e alimentação, inclusive para os técnicos. Já é uma tremenda ajuda.”

Dinheiro para poucos

Um atleta de open boxe no Brasil só começa a ganhar algum dinheiro se estiver bem ranqueado, já que não há bolsas por luta, como funciona no boxe profissional. Para isso, é preciso estar entre os três primeiros colocados no Campeonato Brasileiro ou ser top 3 no ranking nacional. Assim, o lutador encaixa-se nos requisitos do Bolsa Atleta, e passa a ganhar 925 reais mensais por ao menos um ano (no caso de adulto; para atletas mais jovens, o piso é de 370 reais). Em 2011, entrou em vigor o Bolsa Atleta Pódio, incentivo do Plano Brasil Medalhas que amplia o benefício para atletas que se destacam em campeonatos internacionais: ele premia, com valores a partir de 5 mil reais, até o vigésimo colocado ou ranqueado em mundiais e na Olimpíada. O salário chega a 15 mil.

Pró-amador

O dinheiro farto do boxe está no boxe profissional – basta lembrar que Floyd Mayweather levou 180 milhões de dólares por sua luta contra Manny Pacquiao, que, por sua vez, saiu do ringue 120 milhões de dólares mais rico. Claro que valores exorbitantes assim são raros e dependem da popularidade do boxeador, do empresário, do adversário, de sua colocação no ranking, enfim, de uma série de fatores. De uma forma geral, as bolsas dos atletas mais bem ranqueados e populares giram entre 700 mil e 5 milhões de dólares. Isso nos eventos internacionais. No Brasil, a história é totalmente outra. “Não temos eventos para lutar aqui. Eu já lutei embaixo de viaduto, em praça pública, já lutei de graça. Não temos estrutura para nada. Quando fiz minha primeira luta internacional e o adversário pegou o microfone para agradecer aos patrocinadores, quase fui procurar no dicionário o que significava aquela palavra”, brinca o pugilista profissional Natan Coutinho, 22 anos, um jovem desenvolto e articulado. Embora esteja entre os melhores de sua categoria (é o primeiro do ranking brasileiro supermosca), Natan, formado em educação física, tem de trabalhar até seis horas por dia dando aulas para poder manter-se no esporte. “Precisamos de bons eventos, trazer gente de fora para lutar com nossos atletas aqui. E boas bolsas, porque paga-se muito pouco – quando se paga. De 13 lutas que fiz, pelo menos dez fiz de graça.” Natan acaba de conseguir seu primeiro contrato de patrocínio, com a Everlast, que também patrocina Esquiva Falcão. O diretor de marketing da marca, Sérgio Moura, conta que a ideia é aumentar o apoio ao boxe nacional. Se em 2015 a Everlast trabalhava com dois atletas, a meta é terminar 2016 com oito, além de apoio a projetos sociais.

Poucos boxeadores olímpicos conseguem, portanto, viver dos salários.Estima-se que Robson Conceição estivesse ganhando em torno de 20 mil reais. Mas ele só começou a receber algum dinheiro há oito anos – o baiano treina boxe desde os 13. “Meu tio brigava muito na época e todo mundo falava dele no bairro. Eu pensava: `Quero ser igual. Brigar muito e ficar famoso¿”, lembra. “Pedi pra minha avó me botar no boxe de um projeto social, porque a gente não podia pagar mensalidade de academia. Ela no começo não quis, achava que era violento. Mas, quando eu conheci o boxe, nunca mais briguei na rua.”

Foto: Luiz Maximiano

Foto: Luiz Maximiano (Luiz Maximiano/)

A vida era complicada. Ele acordava de madrugada para ajudar a avó a comprar verduras, legumes e frutas e a montar a barraca na feira de São Joaquim, em Salvador. Ia para a escola e voltava pra barraca mais tarde. “À noite, ia pra academia correndo, que ficava a 9 quilômetros de casa, porque não tinha dinheiro pra condução. Voltava andando à meia-noite.” Robson estreou em lutas aos 14 anos. “Meu treinador viu logo um talento em mim e disse que eu ia chegar na seleção. Tive certeza que teria algum futuro no boxe quando fui campeão brasileiro com apenas 16.”

Foi chamado para a seleção, para treinar em Santo André (SP) – sem receber nada, apenas hospedagem e comida. “Não tinha nem roupa pra me salvar do frio. Pegava sabonete e pasta de dente emprestados.” Depois de nove meses, voltou para Salvador e foi treinar na Champion de Luiz Dórea. Em 2008, participou de seu primeiro torneio internacional, na República Dominicana, em que enfrentou o cubano Guillermo Rigondeaux. “Era o melhor atleta da galáxia, bicampeão olímpico e mundial. Ganhava tudo por nocaute. E eu lutei os quatro rounds e perdi só por três pontos. De lá pra cá comecei a decolar.” A Olimpíada do Rio foi a terceira de Robson. Em Pequim 2008, aos 19 anos, perdeu na estreia. Em Londres 2012, caiu de novo na primeira luta. O ouro encerra um ciclo longo, com pódios em mundiais: prata em 2013, bronze em 2015 – além de uma prata no Pan de 2011 e os ouros no Campeonato Pan-Americano de 2013 e no Sul-Americano de 2014.

Em setembro, Robson anunciou que havia aceitado uma proposta da Top Rank para integrar seu time de pugilistas profissionais, que tem, entre outros nomes, Esquiva Falcão e Manny Pacquiao. O contrato é de cinco anos e prevê pelo menos seis lutas por ano. Sua estreia foi marcada para 5 de novembro, no mesmo evento em que o filipino encerra sua breve aposentadoria anunciada em abril e enfrenta o americano Jessie Vargas, campeão da OMB (Organização Mundial de Boxe), em Las Vegas. “Sabíamos do potencial dele, mas, com toda certeza, o sucesso e a popularidade, frutos do resultado nos Jogos, aumentaram nosso interesse”, conta Todd Duboef, CEO da Top Rank, sobre Robson Conceição. “Não teve como não ter interesse nele.”

Agora, o desafio de Robson é administrar bem seu futuro. Uma carreira profissional bem-sucedida deve ser pensada estrategicamente. O atleta tem que fazer um cartel eficiente e, para isso, pega em suas primeiras lutas adversários estreantes ou com cartel negativo (mais derrotas que vitórias). Conforme vai ganhando experiência, enfrenta gente mais forte pelo caminho. Caso perca em suas lutas iniciais, ele mesmo acaba virando escada para outro pugilista. O adversário de Robson ainda não foi anunciado. “Mas, por ele já ter 27 anos, acredito que sua carreira tenha que ser um pouco acelerada”, afirma Eduardo Ohata. “Um lutador só ganha dinheiro conquistando e defendendo por algum tempo o cinturão.” O CEO da Top Rank diz que só vai poder avaliar o futuro de Robson depois que ele estrear.

Robson Conceição credita seu sucesso à “vontade de vencer na vida, de ser alguém”. Diz que é apenas o retrato do material bruto humano que há nas comunidades, pronto para ser descoberto. E torce para que seu ouro mude alguma coisa. “Quem sabe ele não ajuda a divulgar mais o boxe, e faz governos e empresas investirem no esporte?”, pergunta, enquanto guarda a medalha. “Ela só sai da minha mão para ir parar num quadro, na parede da minha sala.”