Rio de vinho

Quer escolher um destino para impressionar sua mulher? Esqueça os preços altos de França e Itália e parta para a região do Douro, no norte de Portugal. Indicamos aqui um dos melhores roteiros de enoturismo do mundo, sobretudo se a ideia é ir a dois

Se você é um cara romântico, imagine a se­­guinte cena: o barco desliza suavemente na cor­­­rente serena do rio. A brisa quente do fim da manhã traz os perfumes das margens. O bar­­­­co é inglês, anos 1920, de madeira com ferragens de bronze e acabamento de couro, confortável, chique e seguro.

A tranquilidade da manhã é embalada pela música que você mesmo escolheu, e o horizonte se faz de recortes sinuosos que cercam aquele rio encantado. E é então que chega às suas mãos o brinde que vai eternizar aquele momento de comunhão, tornando-o inesquecível: tim-tim, dizem as taças cintilantes e frescas, contendo um sensacional vinho branco, vindo dali mesmo, daquelas margens que tornam o passeio sob medida para embalar a sua paixão.

O passeio de barco pelas águas plácidas do Rio Douro, no norte de Portugal, é o ponto alto de um dos melhores roteiros enoturísticos do planeta, principalmente se a ideia é a viagem a dois em busca de romantismo e motivos para celebrar a vida com a mais nobre das bebidas.

E isso vale tanto para os entendidos em vinho, que vão se fartar com a variedade e a qualidade de tipos e safras, quanto para os marinheiros (e vinheiros…) de primeira viagem, que terão a oportunidade de se envolver com um mundo de sensações únicas.

A cidade do Porto, suas vielas e construções históricas, cafés e praças; Vila Nova de Gaia e seu eterno aroma de vinho do Porto; a paisagem de carro ou de trem até onde o Douro começa a refletir o colorido intenso das vinhas; a generosidade das pessoas e o acolhimento de uma natureza encantadora: eis aqui uma jornada que vai ser difícil de esquecer.

O roteiro sugerido para essa aventura começa em São Paulo, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, de onde partem diariamente voos diretos para o Porto, a capital do norte de Portugal e a porta de entrada para o Douro, nome da região e do rio que corta o país na horizontal, da foz no Oceano Atlântico à fronteira com a Espanha.

Não é preciso mais que cinco a sete dias para que a diversão seja garantida; mas, se a ideia for ficar um pouco mais, ótimo, opções do que fazer no país é que não faltam, seja no Porto mesmo ou, dirigindo-se ao sul a caminho de Lisboa, na não menos famosa região vinícola do Alentejo, sobretudo na simpática cidade de Évora.

A viagem que realizei no final de setembro, temperatura ainda na casa dos 27 a 30 graus, um pouco mais fresco de manhãzinha e à noite, teve início justamente no Porto e em suas ladeiras de tantas histórias e referências que nos fazem sentir como se estivéssemos num Brasil de sonho, antigo e que não existe mais, ou que guarda resquícios em algumas das travessas do velho centro do Rio de Janeiro ou no Pelourinho de Salvador. São provavelmente as raízes de muitos de nós e certamente os inícios de nossa cultura em estado original – seja na azulejaria das incontáveis fachadas, na arquitetura da tradicional Livraria Lello ou da estação central, seja na magnífica catedral, na gastronomia farta de bacalhaus e outros pescados, ou, finalmente, até mesmo na imponente estátua do rei dom Pedro IV, que vem a ser ninguém menos que o nosso bom e velho dom Pedro I – que saiu do Brasil e retornou a seu país natal para tornar-se rei e imortalizar-se numa praça central do Porto.

Na verdade, o que se chama de Porto, cidade patrimônio da humanidade pela Unesco, são duas cidades divididas pelo Rio Douro e unidas por uma série de pontes, uma mais bonita que a outra, a principal delas erigida em ferro e projetada pelo escritório de Gustave Eiffel, sim, o próprio, o responsável pela torre-símbolo de Paris.

De um lado do rio fica portanto a cidade do Porto propriamente dita, e de outro, onde se chega facilmente caminhando pela ponte férrea ou por meio dos modernos bondes elétricos que a cruzam, está Vila Nova de Gaia. Ou apenas Gaia, onde começa o nosso aprendizado sobre o principal produto de exportação daquela região: o vinho. Especificamente o vinho do Porto, cuja fabricação consome 80% de toda a uva produzida no Douro.

O primeiro item curioso a aprender, assim, é que o vinho do Porto não se faz no Porto, mas em Gaia, onde se encontram as sedes e os depósitos de dezenas de marcas, a maioria delas famosa mundo afora. As uvas (a principal é a touriga nacional) são cultivadas e colhidas nas centenas de quintas (fazendas) ao longo do rio, no Douro, e trazidas para ser processadas, envelhecidas e engarrafadas nos galpões de Gaia.

O vinho do Porto é um produto único, festejado, mítico e mitificado por tantos e que só pode ser produzido nessa região de Portugal, farta de uvas viníferas. Fartura essa que encantou os ingleses com os quais os portugueses, sobretudo no norte, sempre tiveram relações estreitas – e por quem foram governados no século 17. Mesmo antes disso, porém, comerciantes ingleses partiam do cais da cidade carregados de vinhos de mesa e azeites para abastecer seu reino, mas nem sempre chegavam felizes ao destino, posto que a movimentação das águas do turbulento Atlântico Norte muitas vezes punha a perder todo o carregamento da bebida, que avinagrava. Até que alguém teve a genial ideia de acrescentar aguardente vínica (cachaça de casca de uva, fortíssima, cerca de 70º de álcool), que, além de não deixar o vinho estragar, fez surgir magicamente uma outra bebida, fortificada, adocicada, muito aromática. Daí à produção se sofisticar e surgirem Portos do tipo Ruby (mais adocicado, vermelho e jovem) e Tawny (mais consistentes, de tom amarelado e que podem envelhecer com excelente qualidade por dez, 20 ou até 40 anos…) foi apenas uma questão de tempo.

Um exemplo dessa trajetória é a tradicionalíssima marca de Porto Taylor’s, surgida em 1642 e que hoje produz cerca de 6 milhões de garrafas por ano – 14% da produção regional. Com muito profissionalismo e sofisticação, a Taylor’s tornou-se referência não apenas por desenvolver produtos de excelente qualidade mas também por ser protagonista do crescente enoturismo da região.

A empresa, desde sempre nas mãos de uma família inglesa, investe para propagar a cultura do vinho do Porto: tem um acolhedor centro de atendimento ao turista, incluindo um ótimo restaurante, desenvolve programas de degustação para todos os níveis de apreciadores e propõe visitas aos seus incríveis depósitos – alguns deles com vinhos envelhecendo há 20/30 anos. No centro de hospitalidade, as degustações (cerca de ¤ 30 por pessoa) colocam o visitante em contato com todas essas maravilhas. E os mais animados podem adquirir um exemplar de Taylor’s Porto Reserva ano 1855, desde que estejam dispostos a desembolsar ¤ 2 500.

Por causa dessa afinidade histórica com o vinho e também para atender à crescente demanda do turismo focado na bebida, a Taylor’s derrubou alguns dos galpões que compunham seu complexo vinícola e destinou 2,5 hectares para construir, em 2010, o hotel mais elegante da região e que atrai turistas de toda a Europa, da Ásia e, claro, do Brasil. Trata-se do The Yeatman, cinco estrelas afiliado à sofisticada rede Relais & Chateau. Para fazer jus à qualidade dos vinhos locais, criou, em seu restaurante, gastronomia de altíssimo nível, contemplada por uma cobiçada estrela do Guia Michelin.

Tudo no hotel tem como referência o vinho: do nome dado a cada uma das suítes (82 ao todo) à decoração dos diversos salões, à biblioteca, aos bares, salões e eventos que promove. Isso sem falar, claro, em sua adega, a maior de vinhos portugueses do mundo, com nada menos que 25 mil garrafas, 2 200 rótulos e uma excelente particularidade para a festa dos enófilos: 82 dos melhores vinhos da casa podem ser pedidos em taça. Esses diferenciais aliados ao luxo dos quartos – todos com jardim de 12 m2 voltado para o Rio Douro e com camas cujos colchões foram escolhidos após “test-drive” com as 15 melhores marcas do mundo – fazem com que o programa do casal em busca de sabores e sensações seja perfeito.

Vinhos

Navegar é preciso

Dependendo da hora do dia, o rio pode ser dourado, prateado ou até meio azul, quando reflete o céu sem nuvem. Ao redor, a paisagem é perfeita: de moldura, encostas como que tatuadas pelas linhas sinuosas das videiras – que podem estar totalmente desfolhadas, verdejantes ou intercalando o verde e dourado das folhas com o rubi profundo das uvas maduras. Há quem diga que o Douro é a paisagem mais bonita de Portugal. Gosto é gosto, mas, a depender daquela curva do rio, da reentrância na qual se instala a Quinta do Crasto, fica difícil discordar.

Quem costuma frequentar as prateleiras de vinhos portugueses em lojas e supermercados brasileiros certamente já viu alguma garrafa com a marca Quinta do Crasto. Trata-se de tradicional exportador de rótulos para o Brasil, dos mais basiquinhos a alguns muito especiais, como o Vinha Maria Teresa. O que pouca gente sabe é que as selecionadas vinhas Maria Teresa, de onde se extrai o famoso vinho, e a Quinta do Crasto como um todo compõem um dos pedaços mais encantadores do Douro, junto à localidade de Pinhão, aonde pode-se chegar de carro (cerca de uma hora e 45 minutos desde o Porto, pela rodovia A4) ou de trem (duas horas e meia de trajeto, num passeio agradável, com trens limpos, ar condicionado e passagem a módicos ¤ 20).

Em formato de anfiteatro, o Crasto ostenta centenas de milhares de pés de uvas, muitos deles centenários, e re­­­­­­sume o que se espera de melhor do conceito do enoturismo romântico: hospedagem cinco estrelas em uma das oito suítes disponíveis para os visitantes (com todos os confortos da vida moderna), degustações em variados formatos, passeios pelas videiras e oliveiras da propriedade, visita técnica a todo o processo de fabricação dos vinhos (incluindo a pisa da uva, se for final de setembro, época da colheita) e culinária típica de primeira qualidade.

Nos dias quentes que costumam ocorrer entre abril e novembro, a belíssima piscina, capricho arquitetônico cuja borda se confunde com o horizonte do rio, apesar de ficar a quase 500 metros de altitude, é um encanto à parte.

Assim como são peculiares todos os produtos (locais, frescos, orgânicos) servidos às fartas mesas seja do café da manhã, do almoço ou do jantar, que incluem desde queijos especialíssimos até um bacalhau cujo fornecedor é exclusivo da casa.

A Quinta do Crasto pertence há décadas à família Roquette, que foi muito além do mero fornecimento de uvas para a produção dos Portos da região e desenvolveu toda uma linhagem de tintos de mesa de qualidade reconhecida, como o já citado Maria Teresa ou alguns reservas que deixam os conhecedores encantados. Manter o mesmo nível de qualidade dos vinhos na culinária e no atendimento aos turistas que o procuram é o desafio a que se impôs Tomás Roquette, que comanda com faro fino e olho vivo tudo o que acontece na propriedade, do tempo exato da colheita da uva à temperatura ideal com que seu vinho está sendo servido aos visitantes, sobretudo os brasileiros, a quem nunca deixa de re­­­­­­comendar o passeio de barco pelo rio, que pode ser feito em duas horas ou uma manhã inteira, em dupla ou gru­­­­­po, ser acompanhado de comidinhas variadas ou al­­­­­mo­­­­­ço completo, mas sempre regado a bons vinhos, se­­­­­jam os tintos clássicos da Quinta ou os leves e refrescantes bran­­­­cos que também aparecem por ali.

COQUETÉIS COM VINHO DO PORTO Há quem diga que é heresia, mas e daí? 

Coquetel

O vinho do porto Também É uma boa opção para a confecção de drinques, sobretudo em suas versões branco e rosé. Embora alguns portugueses torçam o nariz para coquetéis com o porto tradicional, tinto e adocicado, este cai bem numa mistura criativa. Aqui vai uma receita para cada um deles:

• Croft Riviera Misture numa coqueteleira 30 ml de vinho do Porto rosé (sugestão: Croft Pink), 30 ml de Aperol, 30 ml de chá. Despeje a mistura num copo médio com gelo a gosto e complete com espumante, que pode ser brut, se preferir mais seco, ou demi-sec, se quiser mais adocicado. Finalize com um raminho de hortelã.

• Portônica Num copo alto de coquetel com bastante gelo, coloque até a metade vinho do Porto branco seco (sugestão: Taylor’s Chip Dry, leve e frutado). Complete o copo com água tônica e finalize com uma rodela de limão-siciliano ou algumas folhinhas de hortelã. Ou mesmo com os dois juntos. Se você quiser um drinque mais leve, aumente a tônica e diminua o vinho.

• Creole punch Num copo baixo com 2/3 de gelo picado, despeje 60 ml de vinho do Porto tinto (sugestão: Taylor’s Fine Tawny), 15 ml de conhaque, 30 ml de suco de lima-da-pérsia, 10 ml de xarope (mistura aquecida e resfriada de água com açúcar). Mexa bem e finalize com uma cereja marasquino e uma fatia de laranja.