Recife, a nova Meca do cinema brasileiro

"Bacurau", "Divino Amor", "Boi Neon" e "Aquarius" são alguns exemplos de filmes que consolidaram o Recife como a 'nova Meca' do cinema brasileiro

Recife — As produções cinematográficas do nordeste transcenderam fronteiras nos últimos anos e conquistaram o público em diversos festivais internacionais. “Bacurau”, “Divino Amor”, “Boi Neon” e “Aquarius” são apenas alguns exemplos de filmes que consolidaram o Recife como a ‘nova Meca’ do cinema brasileiro.

Os longas-metragens mais bem-sucedidos do Brasil contemporâneo deixaram de se restringir aos favela movies ambientados no Rio de Janeiro, como “Cidade de Deus” (2002) e “Tropa de Elite” (2007).

Com cenários chamativos, estúdios de pós-produção e uma pujante geração de diretores, o Recife se tornou referência no mapa mundial do cinema independente.

Considerada a ‘Veneza brasileira’ pelos canais fluviais, a capital pernambucana desenvolveu uma série de incentivos governamentais para o cinema e criou o Porto Mídia, um moderno complexo de estúdios de edição operado pelo Porto Digital, o maior parque tecnológico do país.

Novas gerações

O Nordeste, que já se destacou com as comédias “O Auto da Compadecida” (2000) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), agora dá lugar ao suspense de “Bacurau”, às distopias de “Divino Amor”, à subversão de “Boi Neon” e à crítica social de “Aquarius”.

O caminho aberto por cineastas pernambucanos como Daniel Aragão e Claudio Assis, diretor de “Amarelo Manga” (2002), ganhador do Festival de Toulouse, e “A Febre do Rato” (2011), vencedor em Havana, propiciou o surgimento dos hoje consagrados Gabriel Mascaro, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, entre otros.

 

“É muito especial o que está acontecendo com os filmes de Pernambuco e outros do Nordeste que desempenham um grande papel no imaginário brasileiro, como ‘Bacurau’ (que ganhou prêmios em Munique, Lima, Sydney, Málaga e Cannes)”, disse Mascaro, diretor de “Divino Amor” e “Boi Neon”.

Kleber Mendonça Filho, junto a Juliano Dornelles, fizeram de “Bacurau” um ‘faroeste’ focado na violência e recheado de críticas sociais, explorando o descaso do poder público, a desigualdade e outros aspectos da realidade de muitos brasileiros.

“Aquarius”, também dirigido por Mendonça Filho, é outro representante na lista de sucessos ‘made in Nordeste’. Gravado no Recife, o filme e a protagonista, Sônia Braga, colecionaram prêmios mundo afora.

Incentivos

Pernambuco foi o primeiro estado brasileiro a promulgar uma lei de audiovisual própria, em 2014, como política cultural e complementar ao Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (FUNCULTURA), e o Recife, desde 2012, conta com o Sistema de Incentivo à Cultura (SIC).

“Esssa expressividade no cinema e nas artes plásticas é fruto de uma política cultural muito democrática que ajuda artistas e realizadores que produzem anualmente, como as novas gerações”, comentou à Agência Efe a diretora Renata Pinheiro, de “Amor, Plástico e Barulho” (2013) e “Açúcar” (2017).

Pinheiro, a primeira mulher a dirigir um filme de ficcção no Nordeste, também destacou o histórico de escritores da região, como Clarice Lispector, criada no Recife, e João Cabral de Melo Neto, nascido na capital pernambucana.

Segundo Mascaro, a “tradição cultural nordestina” impulsionou a “consolidação de uma política pública” que “se combinou e ecoou” para “evitar a dependência da pós-produção e da finalização em São Paulo e Rio de Janeiro”.