Prometeu, tem que descumprir

Um pouco de virtude é algo muito bom. Por que não fazer promessas mais modestas para o ano novo?

VIP 345 COLUNAS (3) meninos

O mês de dezembro é a parte do ano mais cheia de magia. Não estou falando do clima de festas e dos filmes de Natal (nem do CD da Simone tocando em todo lugar, pelo amor de Deus), mas do que acontece em nossas cabeças. Como mágica, olhamos os 11 meses que se passaram e descobrimos, como que por um milagre, que, p*** que o pariu, fizemos tudo errado.

As economias? Seu 13º é abatido por contas atrasadas antes de aterrissar na conta. Saúde? O verão chegou e você sabe que vai atravessar o ano primeiro com a barriga, a parte mais protuberante do seu corpo. Tenso que só, transformou aquele cigarrinho eventual num vício chato. Está bebendo mais que o Garrincha no intervalo dos jogos. Se está solteiro, lança aos amigos casados um olhar do cachorro que cai da mudança bem em frente à máquina de frango assado. Se está num relacionamento, só consegue pensar com o que tem dentro da cueca e acha que cada amigo solteiro vai transar, só na noite de Réveillon, mais do que você no ano inteiro.

E é aqui que entram as promessas: dieta, exercício, hábitos saudáveis. Começa com a famigerada pauta da “dieta detox” pós-Ano Novo (sério, colegas? Vocês não vão cansar dessa pauta nunca?). Daí você anota também na listinha: um amor de verdade. Claro! E quem não quer, né? Quem sabe no Facebook você não acha (risos)!

Você promete sair mais de casa, promete perder a vergonha de falar com as mulheres e se envolver mais com elas; ótimo! Já pensa até em comprar umas roupas novas e aposentar aquela “camiseta da sorte” com a qual você pegava “muita” mulher aos 19 anos. Promete também arranjar um emprego que não lhe faça chorar no banho no domingo à noite nem querer se matar engolindo o sabonete ou virando o vidro de xampu na garganta. Quer também gastar menos com bobagem, visitar mais os pais, ver menos programas idiotas na TV e ler o primeiro livro que não seja sobre trabalho desde o vestibular. Fácil, não?

Agora, vamos lá: quem é esse cara que a gente planeja ser no ano seguinte? Sério: pense aqui comigo. Vocês já viram os caras que têm a vida toda no lugar?

Eles são muito chatos.

Eu acho que essas promessas não se realizam por uma razão muito simples: quem tem a “vida perfeita” ou não existe ou é um bicho muito, muito insuportável. Primeiro, porque afasta as pessoas ao redor. Se você se torna esse super-herói bem-sucedido, do que você vai reclamar na fila do banco? E que emoções você vai ter? Vai sentir o quê, quando tocar aquela música de corno no rádio? Dar gargalhadas? Como vai aconselhar aquele amigo que no mesmo dia descobriu que o pai é gay, perdeu o emprego, a mulher e o cachorro? Consolá-lo falando das reuniões que tem nos andares mais altos dos prédios comerciais da cidade?

O tipo de pessoa que leva a sério as promessas de ano novo (de novo: se é que essas pessoas existem), na minha humilde opinião, eram aquelas crianças que ganhavam um presente e, antes de brincar, liam de cabo a rabo, duas vezes, todo o manual de instruções. Enfim: acho que são pessoas que não aceitam a aleatoriedade da vida, tampouco têm interesse em se divertir.

Não me entendam mal. Um pouco de virtude é algo muito bom. Por que não fazer promessas mais modestas? Como parar de palitar os dentes na mesa de trabalho, por exemplo. Um ótimo começo. Trocar de meias pelo menos três vezes por semana. Deixar de beber água no bico quando não tem ninguém vendo. Parar de fantasiar com a cunhada de shortinho no almoço de domingo. Ok, esta última nós podemos colocar na lista de promessas impossíveis.

Vamos aprender a tomar cuidado com as coisas, claro. Mas tem que saber espalhar essa atenção sem criar tanta ex­­­­­pectativa e sem perder o senso de hu­­­­­­mor. Faça o que precisa ser feito mas sem neuroses. Comece pequeno e não se cobre tanto baseado nas expectativas dos outros. Uma hora você vai estar vivendo a vida que sempre quis: a sua.

Marcelo Zorzanelli* é jornalista e roteirista.