Por que você odeia seu comentarista de TV?

Toda transmissão de futebol é um exercício de traição. E é melhor que seja assim

Uma figura de traços tortos coloca as mãos nos ouvidos e berra. Não, não sou eu durante os jogos do meu time. É O Grito, quadro do norueguês Edvard Munch pintado no final do século 19. Lembro bem do dia em que o vi pela primeira vez. Era uma aula de educação artística. Eu tinha 12 anos e a professora mostrou a pintura em um projetor. Então ela disse que a tela simbolizava a angústia e a dor de uma pessoa diante de uma situação horrorosa e incontrolável. Bingo. Tinha sido feita para mim. Era exatamente como eu me sentia naquela manhã gelada. Conheci O Grito um dia depois da eliminação da minha equipe da Libertadores. Para mim, a tela será uma referência eterna de eliminações, juízes ladrões e comentaristas de TV.

Tenho vários amigos na última categoria. São inteligentes e gostam de futebol tanto quanto eu e você. Passam horas buscando informações sobre a revelação do Banfield. Atendem telefonemas de trabalho durante o jantar com a namorada. Trabalham 12 horas por dia aos sábados e domingos. Só o chefe vê o erro do analista contábil. Mas um nome trocado na transmissão tem 100 mil visualizações no YouTube.

Por um princípio herdado dos meus avôs, nunca ofendo quem está trabalhando. Mas, diante da TV, vendo meu time jogar, não resisto. Por duas horas, me transformo no hooligan que, em algum momento da adolescência, desisti de ser. Tenho vontade de estapear tanto o jornalista bem informado quanto o ex-jogador que mal sabe articular duas frases. Eu poderia encarnar o Anderson Silva e socar os sujeitos que, desinformados, viram personagens de uma comédia ruim: o mal-humorado, o playboy, o caipira, o sommelier de esquema tático. Meu ódio não conhece limites.

E, apesar disso, continuo ligando a TV para ver e ouvir essas pessoas. Porque o comentarista é a personagem mais complexa e magnética do futebol: é uma celebridade como o boleiro, desperta paixões contraditórias como o técnico, tem a vaidade de um dirigente e consegue ser detestado como um juiz.

Na lógica do jogo, ele nos aproxima da partida. Ele guia alguém que mal pode ver o que acontece em campo — o torcedor distante do campo. O fato de estar conosco nos bons e nos maus momentos o torna uma pessoa próxima. Muitos torcedores se referem às equipes de transmissão com a mesma familiaridade dedicada aos colegas de escritório. Mas, ao mesmo tempo, ele é um estranho que invade as nossas casas e fala mal do clube que amamos. É como se um conhecido, sentado no sofá, criticasse a comida ou a cerveja que você serve. Ou, pior: ele se dispõe a te levar para casa, entra no carro, diz que tem carta, mas você percebe que ele não sabe dirigir — ou não entende nada de futebol. Ver um jogo é dar o seu tempo a alguém que parece seu amigo, poderia ser seu amigo, mas que está sempre quebrando sua confiança. E é melhor, no final, que seja assim. Afinal, às vezes apenas alguém de fora pode ver que o técnico idolatrado só sabe ensaiar uma jogada. Claro, há os picaretas. A esses, nosso desprezo eterno (e o desejo de uma gastrite de vez em quando).

Por isso, eu, você e qualquer pessoa que ame futebol vamos parecer com O Grito durante uma transmissão. Toda partida de futebol, vista da TV ou ouvida pelo rádio, é um exercício de traição. E ninguém pode fazer nada sobre isso.

Matéria publicada na VIP de outubro de 2012