Por que um tijolo feito por uma marca de roupa custa US$ 1 mil?

A Supreme é hoje a queridinha do mundo da moda, associando-se a empresas de peso e gastando quase nada em publicidade

Alguns dos produtos bizarros com o logo da Supreme

Alguns dos produtos bizarros com o logo da Supreme (/)

Casacos, bonés, camisetas, cuecas, shapes de skate, pés de cabra, guitarra Fender e isqueiro Zippo. A lista de produtos da Supreme consegue ser tão diversa quanto a mais bizarra loja de R$ 1,99.

Curiosamente, os produtos mais fáceis de ser encontrados são aqueles considerados “normais”: as peças de roupas.

Já para ter um dos produtos excêntricos, é preciso revirar a internet e ter dinheiro. O célebre tijolo da Supreme, ícone da marca, foi vendido nas lojas oficiais por US$ 40. Mas hoje é possível encontrá-lo na web por US$ 1 mil.

Trabalhada no hype e no deboche, a Supreme hoje é a principal marca de streetstyle do mundo sem precisar gastar milhões em publicidade ou garotos propaganda.

Prova maior disso é a nova loja da marca no bairro do Brooklyn, em Nova York, região que também abriga a primeira loja da grife e que é intimamente ligada a sua cultura.

Nova loja da marca em Nova York: sem logos, ou painéis. É o famoso “quem sabe, sabe”

Nova loja da marca em Nova York: sem logos, ou painéis. É o famoso “quem sabe, sabe” (/)

Não se sabia a data de lançamento e nem o local da loja até dois dias atrás.

Foi só a marca anunciar oficialmente as informações que todos os sites correram para dar a notícia. Pronto: estava estabelecido o principal lançamento do ano, que deverá causar filas que dobram quarteirões formada pelos fiéis seguidores da marca.

Puro hype

Quando os modelos entraram na passarela do Le Palais Royal, em janeiro de 2017, vestindo peças que reuniam o clássico monograma da Louis Vuitton com o logobox vermelho da Supreme, foi como se a marca de streetwear vencesse uma batalha de 17 anos atrás.

Parceria com a Louis Vuitton: impensável há 10 anos

Parceria com a Louis Vuitton: impensável há 10 anos (/)

Em 2000, a Supreme, então com seis anos de existência, lançou shapes de skate que estampavam o monograma da Louis Vuitton. Foi o suficiente para receber da grife de luxo uma carta de notificação exigindo a queima de todas as peças com essa “falsificação”.

Ciente de que não tinha cacife para bancar uma guerra judicial, a Supreme prontamente tirou os shapes de circulação.

Por causa dessa rusga do início do milênio, é até surpreende que, atualmente, ambas formem uma parceria. É uma união oficial que nada tem a ver com o caso anterior, causado pelo choque de ideologias.

O shape de skate que causou a rusga entre a marca de streetstyle e a grife francesa

O shape de skate que causou a rusga entre a marca de streetstyle e a grife francesa (David Cannon/Getty Images/)

Mas a ação não impediu a marca de continuar cutucando as gigantes da moda. Afinal, um de seus principais commodities sempre foi seguir seus princípios.

A Supreme nasceu em 1994 no Brooklyn, em Nova York, com o intuito de atender a uma demanda que as marcas de skate da época deixavam para lá: vestir skatistas antigos, que não cooptavam com as roupas espalhafatosas de então. Mais que isso, nasceu da rua para vestir a rua.

Foi assim que mesclaram o estilo dogtown e hip-hop dos anos 80 com o militarismo hippie. Isso se somava a um caldeirão de influências que vão desde o jazzista John Coltrane (que, por sinal, gravou um disco chamado A Love Supreme) até artistas plásticos como Basquiat e Takashi Murakami. E assim a marca criou uma estética única.

A Supreme sempre se gabou por ser de nicho, procurando se manter dessa maneira mesmo depois de alcançar notoriedade global.

Até hoje, conta com apenas dez lojas (seis delas no Japão), nenhuma revendedora e uma política de tiragem reduzida — uma coleção se esgota em menos de alguns minutos nas lojas.

Peça da coleção outono-inverno 2017 da marca

Peça da coleção outono-inverno 2017 da marca (/)

Conta-se que, certa vez, o artista Nate Lowman viu um de seus shapes feitos para a marca exposto em uma galeria de Nova York, com preço de milhares de dólares.

Ligou na hora para James Jebbia, dono da Supreme, que praguejou contra o dono da galeria e disse: “Vou ligar para lá e mandá-los parar com isso”. Para os fundadores, os produtos da Supreme são para quem merece tê-los, e não para especulação.

Haute couture de rua

“Hoje a moda pede individualidade, precisa ter cara de ‘verdade’. A tendência atual é ser cafona, mas não no sentido de se vestir mal sem saber, e sim com um propósito, para ser diferente. A roupa da rua traz isso”, diz Mário Queiroz, estilista e professor de moda.

É na busca desse cafona-chique que a Supreme se destacou. Num ano, lança uma camiseta básica apenas com seu logotipo; em outro, revela uma camisa lotada com desenhos da embalagem da Budweiser.

A mística da marca fica ainda mais forte quando a experiência de comprar suas peças se assemelha à de comprar em uma butique de grife.

Peça da coleção outono-inverno 2017 da marca

Peça da coleção outono-inverno 2017 da marca (/)

Por só estar presente em quatro países (Estados Unidos, França, Inglaterra e Japão), ir a uma loja da Supreme é como uma peregrinação e isso também se assemelha à alta-costura: apenas uma sala com prateleiras nas duas paredes laterais e peças esparsas, quase todas sobras de coleções anteriores.

Para escolher o tamanho, é preciso pedir para um funcionário buscar no estoque. Só o necessário fica exposto.

As únicas excessões a essas regras são as lojas de Los Angeles e a recém aberta em Nova York, que contam com um bowl de skate na parte dos fundos, mas não se engane. Para andar nele, é preciso fazer parte da marca ou ser amigo de um dos donos.

Bowl de skate no fundo da nova loja do Brooklyn

Bowl de skate no fundo da nova loja do Brooklyn (/)

Com o mundo fashion bebendo cada vez mais na fonte do streetstyle, a Supreme é o epítome do movimento.

Em vez de massificar seu estilo, prefere se manter pequena em uma aula básica de oferta e demanda. Com isso, atrai a atenção de grifes que buscam se modernizar e atingir outro público, agregando valores novos a marcas antigas.

Desde 1998, a Supreme faz pelo menos uma colaboração por ano. Já teve parcerias com Levi’s, Lacoste, Nike, Commes des Garçons e The North Face.

É o tipo de ação que eleva o status das duas marcas envolvidas e gera o buzz na internet tão necessário atualmente. E a Louis Vuitton hoje corre atrás e se une a quem acusava de falsificação há 17 anos.