Por que os jovens da geração Y estão alugando até seus sofás

Essa geração tem tendência menor a comprar uma casa, um carro ou a ficar em um único emprego

Todos sabemos que os millennials, se comparados às gerações anteriores, têm uma tendência menor a comprar uma casa, um carro ou a ficar em um único emprego.

Aparentemente, eles também evitam se comprometer com a mobília doméstica. Pelo menos esse é o pensamento por trás de várias startups na web que querem lhes alugar de tudo, desde sofás até almofadas.

Esses novos serviços por assinatura, que incluem a Feather, baseada em Nova York, e a Fernish, em Los Angeles, diferem das empresas de aluguel de móveis conhecidas. Como seus nomes com um toque ecológico sugerem, as novas empresas apresentam o aluguel como uma virtude ambiental – em vez de comprar móveis baratos e descartáveis que acabam no lixão, você pode alugar peças de melhor qualidade, que outros poderão usar quando você se cansar delas. Essas empresas visam pessoas de nível universitário, mas que ainda não se estabeleceram, e que podem apreciar coisas finas, mas que não necessariamente as querem adquirir de imediato.

Juliet Schor, economista que leciona no departamento de sociologia do Boston College, disse que essas empresas são parte da chamada economia de acesso, fazendo pela indústria de móveis o que a Zipcar e as plataformas de moda Rent the Runway e Bag Borrow ou Steal fazem pela mobilidade e pelo vestuário.

“Elas permitem que as pessoas melhorem um pouco sua mobília sem ter grandes gastos”, disse ela.

A Feather, que começou há dois anos com o apoio de capital de risco, aborda o negócio do ponto de vista da sustentabilidade. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental, cerca de nove milhões de toneladas de móveis acabaram em lixões em 2015. Isso não é bom, de acordo com o fundador da Feather, Jay Reno, de 31 anos, que tem mestrado em clima e sociedade pela Universidade Columbia.

“Estamos tentando acabar com a ideia de móveis descartáveis”, disse ele em uma entrevista no escritório todo branco da empresa, em um edifício de ferro fundido no SoHo, anteriormente ocupado pelo criador do site Squarespace.

Em geral, a Feather oferece móveis próprios e resistentes – alguns inspirados em clássicos modernos, como o banco da George Nelson e a cadeira wishbone de Hans Wegner –, além de artigos das lojas favoritas da classe média, como a West Elm e a Pottery Barn.

Há uma despesa mensal mínima de US$ 99, por isso os clientes precisam alugar alguns artigos por vez para que o serviço faça sentido. (A empresa disse recentemente que estava refazendo sua lista de preços; alguns deles, exibidos aqui, podem mudar.) Móveis grandes, que podem ser um incômodo quando você ainda está experimentando empregos e cidades, são os mais alugados, disse Reno. Entre os sofás, há um modelo robusto e modernista da West Elm que custa US$ 899 e é alugado por US$ 52 mensais, caso você opte por uma assinatura anual (os preços são mais elevados para períodos mais curtos). E as pessoas são loucas pelo sofá de veludo verde-esmeralda da Feather, com pés de nogueira (US$ 55 por mês na assinatura de um ano; o custo para a compra é de US$ 1.299). Se os jovens clientes ainda não definiram seu gosto em mobília, podem responder ao questionário de estilo no site da empresa e permitir que seus algoritmos ofereçam sugestões.

“As pessoas tendem a gostar dos estilos escandinavo/meados do século/japonês”, disse Reno. “Mas eles realmente gostam é de simplicidade.”

Isso é bom para a empresa, porque as peças mais simples têm uma saída maior que as muito elaboradas. No fim de um período de locação, o cliente pode comprar as peças – com os pagamentos mensais sendo descontados do custo – ou estender a assinatura, talvez as trocando por outras. Ou os itens podem ser recolhidos (por uma taxa de US$ 149), levados ao armazém da Feather no Brooklyn (ou, na área de San Francisco, no sul da cidade) e reformados para o cliente seguinte.

Mesas e estantes são lavadas. Artigos estofados – muitos deles com tecidos duráveis – são lavados a vapor. As capas de sofás são facilmente substituídas.

“Se alguém derramar vinho tinto em uma almofada do encosto, podemos apenas substituir essa almofada”, disse Reno. Se o dano for maior que o normal, o cliente deverá pagar pelo artigo.

Reno preferiu não divulgar o número de clientes da Feather – disse apenas que “milhares” estão atualmente usando o serviço – nem revelar sua receita anual, mas disse que a empresa vai se expandir para novos mercados até o fim do ano.

A Fernish também está em modo de expansão, tendo chegado a Seattle em novembro, e com planos para a Costa Leste até o fim do ano. Além de mobília própria – incluindo imitações de peças de meados do século passado, como as da Feather –, ela tem uma seleção de artigos da Crate & Barrel e da CB2.

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Quando perguntados sobre o “nojinho” de usar móveis de segunda mão, os fundadores Michael Barlow, de 31 anos, e Lucas Dickey, de 36, disseram que cães beagles patrulham seus armazéns para garantir que a mobília devolvida não esteja infestada de percevejos.

Bill Ehrlich, cliente da Fernish de 31 anos, alugou um sofá modular quando se mudou para Los Angeles para assumir um emprego na indústria de veículos elétricos.

“Todo mundo tem reservas quando se trata de alugar um colchão usado, mas estantes, escrivaninhas, rack para a TV – não tenho problema com esse tipo de coisa”, afirmou ele.

A Fernish continua a aperfeiçoar suas ofertas, eliminando aos poucos os itens que não resistem após várias locações. A empresa disse que vai introduzir pacotes de decoração (arte, espelhos, xales e vasos) até meados do ano.

A West Elm também está entrando no setor de aluguel de acessórios. Recentemente, anunciou uma parceria com a Rent the Runway para fornecer aos assinantes “pacotes selecionados” de xales e almofadas para a sala de estar e cobertores, colchas e almofadas para o quarto. O serviço começará em meados deste ano.

Mesmo a Ikea – cujo mobiliário estiloso e barato certamente estimulou a mentalidade de usar e descartar que algumas companhias de aluguel dizem tentar combater – parece ter percebido a tendência.

Agora, com o objetivo de se tornar um negócio “ecologicamente consciente” até 2030, a Ikea vem testando um programa de assinatura de aluguel de móveis na Polônia e na Holanda. Ela planeja expandi-lo para 30 países, incluindo, no ano que vem, os Estados Unidos.

A Feather e a Fernish são pequenas operações, em comparação, e se concentram em cidades que atraem jovens profissionais bem remunerados que trabalham e se mudam muito – e para quem a conveniência pode ser mais importante que a lógica financeira da mobília alugada.

Os serviços de locação podem ser interessantes para outras fases da vida? Assim como a Rent the Runway oferece roupas para grávidas, a Feather tem opções de berços, uma versão modernista por US$ 19 mensais e um modelo no estilo Arts & Crafts por US$ 23. Por que os pais, especialmente aqueles que planejam ter apenas um filho, comprariam um item caro cuja vida útil – para eles – é limitada?

Os aparelhos de ar-condicionado são outra categoria da Feather que pode ser atraente, especialmente porque a equipe de entrega da empresa fará a instalação. Alugue-os durante os meses de verão e os devolva, eliminando o incômodo de armazená-los e limpá-los antes da reinstalação no próximo ano.

E será que as empresas de aluguel podem se tornar uma maneira de experimentar um novo visual? Sempre achei a mesa lateral de tronco de árvore da West Elm uma gracinha. Seria essa uma paixão passageira? Ou será que meu entusiasmo vai durar? Em vez de me angustiar com a ideia de comprá-la ou não (por US$ 299), eu poderia alugá-la pela Feather – por apenas US$ 15 por mês.

O problema é o mínimo mensal de US$ 99, para não mencionar a taxa de retirada de US$ 149 se eu quiser devolver o item.

E, quando os assinantes fazem as contas, podem perceber que, depois de um ano de aluguel, faz mais sentido financeiro adquirir os itens, com seus pagamentos mensais funcionando como prestações. Mesmo os millennials, no fim, podem acabar se tornando compradores.