Patrick Modiano se diz chocado com o prêmio Nobel

"Parece irreal me ver confrontado com as pessoas que admirava quando era adolescente", disse o francês

Paris – Consagrado há décadas como um dos maiores escritores da literatura francesa contemporânea, Patrick Modiano, de 69 anos, foi consagrado nesta quinta-feira, 9, com o Prêmio Nobel de Literatura de 2014.

Autor de mais de 30 livros, entre os quais Rue des Boutiques Obscures, o autor foi escolhido pela Academia Sueca pela “arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e desvelou a vida e mundo sob a ocupação”. Questionado sobre sua obsessão temática, justificou: “Somos prisioneiros de nosso tempo”.

O anúncio do Nobel de Literatura foi feito às 13h desta quinta – 8h de Brasília – em Estocolmo, na Suécia, e mais uma vez preteriu autores como o ficcionista americano Philip Roth e o poeta libanês Adonis, sempre considerados favoritos pela crítica internacional. Desta vez, a escolha recaiu sobre uma das personalidades literárias que há décadas figura entre as mais importantes da Europa.

Desde o lançamento de seu primeiro título, La Place de l’Étoile, em 1968, a obra de Modiano foi laureada com algumas das maiores distinções do mundo das letras, entre as quais o prêmio de melhor romance da Academia Francesa de 1972, por Les Boulevards de Ceinture, e Rues de Boutiques Obscures, vencedor do Goncourt em 1978.

Em um breve comunicado, os críticos da Academia Sueca destacaram um dos temas centrais do autor: a vida ordinária sob a ocupação nazista. Nascido em 1945, um ano após a retirada alemã e a liberação de Paris, e ano do fim da 2ª Guerra Mundial e da revelação do holocausto, Modiano foi forjado por sua época.

Filho de Louisa Colpijn, atriz belga flamenga – “menina bonita de coração seco” -, e de um comerciante judeu, Albert Modiano, o escritor viveu uma infância difícil. Aos 12 anos, perdeu o irmão, Rudy, e passou parte de sua adolescência entre internatos, dos quais fugia, e as ruas de Paris.

Nelas, moldou o imaginário que transcreveria em sua literatura: uma vida cheia de fantasmas e de obscuridades, de lembranças entrecortadas e nebulosas, em um país que tentava se reerguer da humilhação da guerra e, ao mesmo tempo, esconder seus demônios, como a colaboração com o nazismo ou o expurgo de judeus.

Esses personagens pairam em sua obra desde La Place de l’Etoile até seus livros mais atuais. Em Pedigree, de 2005, ele expõe seus primeiros anos de vida com clareza avassaladora. Em Pour que tu ne Te Perdes pas dans le Quartier, lançado no mês passado, abre citando Stendhal: “Não pude dar a realidade dos fatos, só apresentar sua sombra”.

A respeito de seu tema central, a ocupação nazista, Modiano disse ao Estado não ver “uma mensagem política explícita”, mas reconheceu o cunho político inerente a sua obra.

“Não podemos escapar de nossa época. Ali está sua angústia. Nós respiramos o que está no ar. Somos prisioneiros de nosso tempo”, explicou. “Somos como um sismógrafo: traduzimos o clima de nossa época, mesmo que vivamos em torres de marfim.”

Modesto ao extremo, reservado e hesitante, Modiano parecia ainda não ter entendido a grandeza de seu feito ao encontrar jornalistas de todo o mundo na sede de seu editor, Gallimard, em Paris, ainda na tarde desta quinta-feira. “Nós somos sempre um pouco cegos sobre o que escrevemos. Gostaria de saber como eles explicam essa escolha”, disse, referindo-se à Academia Sueca e ao Prêmio Nobel.

Quase sem citar nomes de autores que o influenciaram, Modiano revelou admiração por outro laureado francês, Jean-Marie Gustave Le Clézio, vencedor do Nobel de Literatura em 2008, e, questionado sobre um concorrente, disse ter lido e apreciado Philip Roth.

Sobre o fato de ser o 15º autor francês a conquistar o Nobel e de se ver no mesmo rol de nomes como Albert Camus, mostrou-se chocado: “Parece irreal me ver confrontado com as pessoas que admirava quando era adolescente”.

O escritor também discorreu em vários momentos sobre sua percepção do tempo, do ambiente que cerca o autor e como as transformações sociais impactam na literatura. “O tempo é cada vez mais rápido para atividades que necessitam certa lentidão, distância”, disse ele. “É um tempo em certa desarmonia com a literatura.”

Esse é o desafio do autor, diz ele: traduzir a evolução por meio de seus livros. “A literatura também pode ser uma espécie de refúgio. E também é o que pode traduzir melhor a angústia contemporânea”, ressaltou à reportagem, recusando-se a crer na ideia do declínio da palavra escrita e da literatura. “Eu sou um otimista.”