Para profissionais de Belém, fotografia é linguagem artística

Os profissionais do Pará estão acostumados a pesquisar e pensar a fotografia como linguagem artística. Como começou essa tradição?

São Paulo – “Quem é aquele fotógrafo cabeludo e ensandecido?” Miguel Chikaoka chamou a atenção quando, em 1980, pisou em Belém. A cidade fervilhava de manifestações políticas contra o regime militar e o paulista de Registro, formado em engenharia eletrotécnica, não pestanejava, enfiava-se no meio da multidão com uma câmera em punho, possuído por um espírito desbravador.

“Minha interação na cidade foi fulminante”, conta. “Passei a fotografar peças de teatro e espetáculos de música e me sustentava vendendo essas fotos para os artistas.” Era, na época, um amador, não tinha planos de se tornar um profissional. O que mais lhe interessava era trocar ideias sobre a sua arte. 

Não demorou para fazer do Bar do Parque, frequentado pela classe artística e por intelectuais, o seu QG e ser convidado a ministrar oficinas de iniciação à fotografia.

Depois vieram exposições e ações como os Fotovarais, em que as pessoas exibiam seus trabalhos em praças e galpões pela cidade, o que acontece até hoje. “É uma proposta para pensar a fotografia como algo que está aí e deve ser discutido”, diz Chikaoka.

O Pará já possuía uma forte tradição fotográfica, a novidade era que os fotógrafos passaram a encarar a atividade como uma prática artística. Luiz Braga, Ana Catarina Brito e Patrick Pardini engrossavam esse caldo e, em 1982, aconteceu a I Mostra Paraense de Fotografia – FOTOPARÁ.

Nesse momento, surgiram dois coletivos: o FotoAtiva, sob a direção de Chikaoka, em 1984, e o Grupo FotoPará, encabeçado por Luiz Braga, em 1985 – que incentivavam uma série de atividades, entre saídas fotográficas, jornadas e oficinas.


Também eram promovidas discussões sobre clássicos, como Henri Cartier-Bresson, Eugène Atget e Diane Arbus. “Chamávamos de estudo de autor. Uma ou duas pessoas ficavam encarregadas de estudar a obra desses fotógrafos e acontecia um bate-papo”, explica Ana Catarina.

“A tecnologia não era a principal área de interesse, fazíamos experimentos com pin hole, a fotografia sem câmera. A pesquisa com a linguagem nos abria caminhos para produzir trabalhos autorais. Estranho era fazer foto normalzinha, comportada”, revela.

A mobilização reverberava, o que culminou com a escolha de Belém pela Fundação Nacional de Artes, a Funarte, para sediar a IV Semana Nacional da Fotografia, em 1985. “Essas semanas foram fundamentais para os fotógrafos brasileiros tomarem conhecimento da existência de outros profissionais no país, fora do Rio ou de São Paulo, que faziam um trabalho interessante”, opina Luiz Braga.

“Eu conhecia a obra do Bresson, por exemplo, mas praticamente não sabia da obra do Mario Cravo Neto e de outros profissionais fabulosos que havia.” Dessa mesma forma, os autores paraenses começaram a se revelar para o Brasil.

Os salões de arte que aconteciam na capital também ajudaram nessa disseminação. “Muitos fotógrafos se tornaram conhecidos nacionalmente porque foram olhados por curadores e pesquisadores nas comissões de seleção do Arte Pará”, esclarece o fotógrafo Mariano Klautau Filho, que junto com Orlando Maneschy, Flavya Mutran e Cláudia Leão criou, no início dos anos 1990, o grupo Caixa de Pandora.

Eles pesquisavam – e pesquisam até hoje, pois se tornaram professores universitários – a fundo a linguagem e pretendiam expandir conceitos, fazendo a chamada “fotografia contaminada”. “Queríamos experimentar a imagem em todas as suas possibilidades e constituir, a partir dela, exercícios estéticos que se ampliavam para o espaço expositivo, com instalações, objetos, projeções, vídeos”, lembra Maneschy.


Ele conta que tais propostas eram encaradas com estranhamento pelos colegas, que não consideravam o trabalho como fotográfico. “Mesmo com o incômodo, fomos abrindo espaço, discussão, troca e foi um momento supercriativo que possibilitou a mistura de linguagens”, diz.

Imagens em movimento

Estimulados pela experimentação, novos profissionais despontaram, perto do novo milênio, com trabalhos inventivos, que exploram a combinação de linguagens e a pesquisa por poéticas.

Alguns deles são Walda Marques, Guy Veloso, Dirceu Maués e Alberto Bitar. Este último usa imagens para falar dos sentimentos em fotoinstalações e vídeos.

“A ideia surgiu quando percebi duas fotografias com o mesmo enquadramento, mas com velocidades diferentes, resultando em uma fixa e outra borrada. Veio a ideia de que poderíamos, se colocássemos as imagens em sequência no programa de edição, fazer acontecer o movimento”, explica Bitar sobre o início da produção audiovisual com base em fotografias estáticas.

A sua mais recente série, intitulada Sobre o Vazio, venceu o Prêmio Aquisição do Arte Pará 2011 e também foi selecionada para a 32a edição do Panorama da Arte Brasileira, do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

“Essa geração interfere com radicalismo no processo fotográfico. Não existe certo e errado, feio e bonito. Eles buscam seu próprio entendimento com a linguagem, com processos criativos distintos”, acredita o crítico Rubens Fernandes Junior, professor e diretor da Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado, de São Paulo.


Ele aponta que o debate de ideias, a convivência com a imagem e o engajamento organizacional foram fundamentais para a evolução da fotografia no Pará.

“É preciso voltar para o passado e ver como esse projeto de educação teve amplitude, como se dissessem ‘não’ ao procedimento clássico para produzir imagens mais instigantes. Essa desobediência às regras vem da escola, daí a importância da FotoAtiva e do Miguel, que provocou isso.”

Um salto de 30 anos no tempo e Miguel Chikaoka continua desenvolvendo metodologias para dar continuidade a essa “escola da desobediência”, mantida pelo profundo interesse na reflexão fotográfica.

Numa sexta-feira abafada de outubro passado, às 22 horas, ele poderia ser encontrado na sede da agora Associação FotoAtiva, que conta com cerca de 60 integrantes.

A única porta aberta entre os edifícios históricos da silenciosa – e àquela hora, escura – Praça das Mercês. A única que deixava escapar uma fresta generosa de luminosidade. Miguel já não tem cabelos compridos e revela, com a fala pausada, o seu atual foco de estudo: a luz. “É a matéria que nos alimenta”, defende.