Palmeiras: sucesso que fica?

Thiago Fadini*

O Palmeiras vive um momento esportivo iluminado. Na terça-feira, sua torcida invadiu o saguão do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, para apoiar o time em viagem a Belo Horizonte. Neste domingo, o time entra em campo em São Paulo para enfrentar o Botafogo, naquele que pode ser o jogo do primeiro título brasileiro em 22 anos. Como vem acontecendo ao longo do torneio, mais de 40.000 torcedores devem lotar o Allianz Parque.

O estádio foi inaugurado em 2014, ano do centenário do Palmeiras, e, desde então, a média de público cresceu de 19.755 para 31.545 este ano, a melhor média de 2016, com uma ocupação de 75% da arena. O time paulista faturou 23,2 milhões de reais em bilheteria no ano de 2014, número que subiu para 52,2 milhões de reais só com o Campeonato Brasileiro em 2016, sendo 1,7 milhão de reais em média por jogo.

Pelo acordo firmado com a construtora W Torre, dona da arena por 30 anos, a bilheteria nos dias de jogos cabe ao Palmeiras, e a receita de estacionamento, alimentos e boa parte do faturamento com os demais eventos fica para a construtora.

De quebra, o Palmeiras ainda tem o elenco mais valioso do país com 79 milhões de euros de valor de mercado, segundo o site alemão Transfermarkt. É uma combinação que, faz torcedores adversários morrerem de inveja.

O problema: nada disso é garantia de sucesso para os próximos anos. No futebol, gestão financeira e sucesso esportivo nem sempre caminham de mãos dadas. E as novas arenas brasileiras, ao contrário do que costuma acontecer em outros países, não têm se mostrado um passaporte carimbado para a saúde financeira. O Palmeiras não retornou até a publicação desta reportagem.

“O Palmeiras vai muito bem porque aumentou muito a folha salarial. O estádio é claro que ajudou, e a torcida está feliz. Mas o que acontece quando os resultados dentro de campo não forem os esperados?”, diz Amir Somoggi, consultor de gestão e marketing esportivo.

Um problema potencial desse modelo de gestão palmeirense, para o consultor, é que a receita com bilheteria não deve continuar crescendo no ritmo atual. “O Palmeiras vive de bilheteria e sócio torcedor. O volume é alto, mas não vai aumentar muito mais em cinco anos, não tem mais espaço físico no estádio. Tem que aumentar a gama de serviços, desenvolver negócios, fazer mais ações de marketing”, analisa o consultor, que prevê uma evolução neste ano de 3% a 5% nas receitas palmeirenses.

“Isso acontece por causa da própria estrutura societária dos clubes, porque são associações onde os sócios doam uma parte de seu tempo para a gestão, mas não colocam metas. São muito mal vistos em uma indústria bilionária”, diz César Grafietti, economista do banco Itaú BBA e coordenador do estudo econômico sobre as equipes da Série A do Campeonato Brasileiro de 2015.

Promessa de crescimento

O início dos anos 2010 trouxeram a promessa de que a modernização do futebol brasileiro teria como base a construção de novas arenas, mais modernas e de multiuso, como as feitas na Europa e nos Estados Unidos. A previsão era a de que o faturamento dos clubes cresceria com os novos estádios, empurrado pela fidelização e aumento no número de sócio torcedores, alavancagem de receitas publicitárias e fortalecimento da marca.

O dinheiro cresceu nos últimos anos, é bem verdade. A receita dos 20 maiores clubes brasileiros cresceu 23,75% em 2015 em comparação ao ano anterior, alcançando 3,7 bilhões de reais. Mas ainda faltam exemplos longevos de que uma arena moderna é capaz de finalmente levar os clubes brasileiros para o século 21.

O modelo a não ser seguido pelo Palmeiras está 20 quilômetros a leste de sua arena, em Itaquera. O Corinthians inaugurou seu estádio em 2014, às vésperas da Copa do Mundo. Em 2015, teve média de 33.480 torcedores e mais de 3 milhões de reais de bilheteria por jogo. Neste ano, com uma campanha mais irregular, a média de público caiu para 29.548. O faturamento com bilheteria, que somou 72 milhões de reais em 2015, deve ficar abaixo dos 60 milhões.

Para piorar, as previsões de que os custos aumentariam mais do que a receita se confirmaram. O estádio passou a consumir cerca de 5,7 milhões de reais por mês desde julho do ano passado para pagamento de dívidas — valor que deve subir a partir de 2018, quando a mensalidade pode atingir até 12 milhões de reais. Com mais dinheiro em caixa, as despesas também dispararam. Em 2013, o Corinthians fez a segunda contratação mais cara de sua história – o atacante Alexandre Pato, por 40,5 milhões de reais. Ele disputou 62 jogos pelo clube, marcando 17 gols. Depois foi vendido em julho ao Villarreal por 3 milhões de euros.

A folha salarial do Corinthians em 2015 chegou aos 10 milhões de reais mensais, entre salários e encargos. Sem dinheiro para manter o elenco, no início deste ano o clube precisou vender os principais protagonistas do título do ano passado – os meias Jadson, Elias e Renato Augusto.

Recentemente, o Corinthians rompeu relações com a Odebrecht, construtora do estádio, por conta de problemas em contratos com terceirizadas e nas estruturas do estádio. Uma vistoria revelou vazamentos no estádio que podem levar a deslizamentos e até colocar a estrutura sob risco. Na sexta-feira, a Odebrecht admitiu que deixou de executar 40 milhões em obras no local, principalmente por conta do aumento de custos em outras áreas da construção.

Números que podem enganar

Especialistas são unânimes em afirmar que o estádio do Palmeiras tem potencial de receita muito maior que o do Corinthians, e que o contrato feito com a construtora é mais vantajoso ao clube. Relatório do Itaú BBA mostrou que o Palmeiras foi o segundo time que mais lucrou com publicidade em 2015, ultrapassando o Corinthians e ficando atrás apenas do Flamengo. A pesquisa leva em conta os balanços anuais divulgados pelos clubes. Os palmeirenses recebem 15 milhões de reais anuais pelos naming rights do estádio.

As várias casas decimais podem fazer brilhar os olhos, mas encobertam a falta de visão e interesse dos dirigentes em trabalhar apenas para aumentar as cifras do ano seguinte, sem pensar mais à frente. “As empresas hoje enxergam o clube como um mero outdoor. As avaliações são feitas em cima da exposição da marca e não sobre o relacionamento da marca com o torcedor, justifica Grafietti.

E essa filosofia de ‘política de curto prazo’ vem da parte de cima da pirâmide de poder do clube. “O presidente é igual político em campanha. O cara quer ser campeão, quer criar nova arena, quer deixar um marca”, diz Somoggi. O presidente do Palmeiras, o empresário Paulo Nobre, emprestou mais de 100 milhões de reais ao clube.

Há outros exemplos Brasil afora. No Sul, a Arena do Grêmio arrecada 42 milhões de reais por ano, mas só 19,7 milhões são oriundos das bilheterias. Outros 15 milhões vêm de sócios, mas o valor é repassado ao estádio. O time e a construtora que administra a casa gremista, a OAS, entraram em conflito, o que diminuiu o potencial de arrecadação comercial. No Rio, os desvios na reforma do Maracanã levaram o ex-governador Sérgio Cabral à cadeia. Até hoje, dois anos após a reinauguração do estádio, o Flamengo, maior clube da cidade, está em disputa com o governo para mandar seus jogos no local.

Para agravar o cenário, as construtoras que trabalharam nos novos estádios estão envolvidas na operação Lava-Jato, o que tem causado um dano substancial às finanças das empresas. A situação deixa possíveis tratativas sobre a gestão da arena, como é o caso do Corinthians, que tenta uma renegociação, de lado.

“Essas arenas foram pensadas num momento de país diferente. Na prática, as arenas têm sido mais um problema do que solução para os clubes”, explica César Grafietti, economista do Itaú BBA.

Recentemente, o Santos apresentou o projeto de uma nova casa nos moldes das propostas realizadas por outros times brasileiros. O alvinegro praiano não arcaria com nenhuma parcela dos 450 milhões de reais inicialmente orçados para a construção do local, que teria espaço para 27.286 torcedores. O clube da baixada santista teria participação societária de 40% do empreendimento, mas só a partir do vigésimo ano. Não faz muito sentido, segundo especialistas ouvidos por EXAME Hoje.

Para os especialistas, a solução começa a ser costurada a partir de um planejamento mais cuidadoso e com a busca de parceiros idôneos e players qualificados.

“Eles precisam ter uma visão profissional do assunto. Deixarem de ser geridos pelo sócio, conselheiro, e serem geridos como estruturas independentes. A partir de uma cobrança de metas você tem um melhor desempenho”, aponta o economista César Grafietti.

Um dos modelos de sucesso é o do Arsenal, da Inglaterra. O clube londrino, que há dez anos jogava num estádio de 39 .000 lugares, tomou um empréstimo bancário para fazer uma nova arena (Emirates Stadium), com 50% a mais de capacidade. A receita dobrou. O problema é que o clube não ganha um título há 12 anos, apesar de ser o mais rentável do planeta. A torcida, obviamente, não está nada feliz. Já a do Palmeiras…

*Com reportagem de Thiago Lavado