Padilha vê paralelos entre RoboCop e Tropa de Elite

Robocop, que chega na sexta-feira, 21, a 700 salas do Brasil depois de ter ficado em terceiro lugar entre as melhores bilheterias do EUA no último fim de semana

“O RoboCop é o BlackBope”, brinca o diretor José Padilha, em conversa com o jornal O Estado de S.Paulo sobre seu mais novo filme, RoboCop, que chega na sexta-feira, 21, a 700 salas do Brasil depois de ter ficado em terceiro lugar entre as melhores bilheterias do EUA no último fim de semana. Vinda de quem é estudioso atento das origens e consequências da violência, a frase não poderia ser mais acertada. 

“Tem tudo a ver com o Tropa. Há o apresentador manipulador, a família, o policial… Este universo em que o homem se insere no contexto violento”, diz a atriz Maria Ribeiro, que em Tropa de Elite vive a mulher do Capitão Nascimento, ao sair da sessão para convidados na terça à noite, no Rio. Exageros comparativos à parte, há de fato muito de Tropa em RoboCop. Na verdade, há muito de José Padilha nesta atualização da história original, dirigida em 1987 pelo holandês Paul Verhoeven.

“Só aceitei fazer o filme porque José estaria nele. Além de ser um diretor que adoro, sabia que teria ideias fortes sobre o assunto e traria algo de novo, que não seria um remake sem identidade”, diz o ator Joel Kinnaman, que interpreta o papel-título. 

Ele e Michael Keaton, que no filme vive o vilão Raymond Sellars, estiveram no lançamento do filme no Brasil. “José é incapaz de fazer um filme comum. Até se ele dirigisse Débi & Lóide ele ia encontrar alguma coisa e a gente ia sair do cinema pensando que a estupidez até que é interessante”, brinca Keaton. 

Mas o que de tanto há do irônico e corrosivo Tropa de Elite neste blockbuster sobre o policial meio homem meio robô que ganhou o mundo há 27 anos, ganhou duas sequências, virou franquia, série de TV e até desenho animado? Talvez, o fato de que tanto o oficial Alex Murphy quanto Capitão Nascimento sejam dois homens atormentados pelo contexto de violência e questões éticas em que a polícia de seus países se inserem. Ou então a percepção de que ambos compartilham o dilema de enfrentar a desumanização da polícia em face do cumprimento e da justificativa de atitudes violentas extremas. “O filme tem um eixo político e um eixo existencial”, comenta Padilha. “Há um cara que um dia acorda sem saber o que aconteceu com ele, olha para um cientista e ouve: ‘Você é um robô’. Ele olha para si e se pergunta: ‘O que sobrou de mim?’ É a questão do ‘sou um homem ou uma máquina?’”, completa o diretor, 

“Se você parar para pensar, o conceito implícito no personagem do Robocop está presente no Tropa 1 e no 2. Há uma ideia filosófica que me interessa, de que a violência extrema acontece quando o agente da violência, o policial, perde a sua capacidade de crítica, de pensar sobre o que ele está fazendo”, analisa o diretor. “Verhoeven percebeu este conflito. E criou um personagem que já tem esta questão dentro de si. Este conflito entre automatização e o humano ocorre dentro do personagem. Esta sacada é genial”, continua. 

Interferência

Padilha conta que praticamente pediu para filmar Robocop. “Estava em uma reunião e o pessoal do estúdio queria que eu fizesse o Hércules. Não queria, mas vi um pôster do Robocop na parede e disse: este aí eu quero fazer.” Segundo ele, conseguiu fazer o filme que queria e ter a palavra final sobre o longa. “Posso dizer que 50% do tempo eu gastei argumentando e 50% fazendo o filme. Mas valeu a pena. A questão política, por exemplo, não abri mão dela, e os testes com o público atestaram que funcionava. A ideia de que a automatização da violência abre uma janela para o fascismo é uma ideia importante. O que aconteceu no Iraque? Os EUA saíram de lá porque soldados americanos estavam morrendo. Se trocarem os soldados humanos por robôs, o que vai acontecer? Eles vão sair do Iraque? Aí se despolitiza a guerra internamente.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.