Os acontecimentos mais bizarros das corridas de Fórmula 1

Improvisos, trapalhadas e outros fatos estão praticamente descartados. Mas aconteciam – e muito! – na velha (ou nem tanto) F1

Vendo hoje a principal categoria do automobilismo mundial correndo em circuitos de cenário futurista, com equipes de orçamentos milionários (na casa de 350 milhões de euros), é até difícil imaginar que, apenas algumas décadas atrás, histórias que nem mesmo o campeonato de kart indoor de seus amigos da firma poderia protagonizar.

VIP resgatou algumas boas ocorridas até os anos 1990 para você relembrar ou até mesmo se surpreender em saber que, sim, isso aconteceu na F1.

Emerson, Piquet e Senna na mesma corrida DE F1: mito ou verdade?

(Imagem: Czarek Sokolowski)

Os três maiores nomes do automobilismo brasileiro jamais disputaram a mesma largada em competições oficiais de F1, mas Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna estiveram, sim, juntos na mesma pista em um treino no circuito de Jacarepaguá.

O ano era 1984, justamente o da estreia de Senna, pela Toleman. Piquet era o detentor do título, após o bicampeonato conquistado com a Brabham (1981 e 1983). E Emerson fazia uma participação especial pela equipe britânica Spirit, que tinha um insólito patrocínio da Disney (com direito a Mickey Mouse estampado no carro).

O veterano bicampeão tinha deixado as pistas em 1980 para se dedicar à direção de sua equipe Fittipaldi (como você leu nessa reportagem). Mas a escuderia brasileira encerrou as atividades após o Mundial de 1982.

Ainda com vontade de correr, Emerson buscava novas chances. Mas o projeto da Spirit (que já tinha participado de alguns GPs em 1983) não era bastante para alguém como Emerson e ele preferiu não fechar com a equipe.

Acabou direcionando a carreira para a Indy, onde conquistou vitórias, um título e venceu a famosa 500 Milhas de Indianápolis em 1989 e 1993.  Porém, por alguns dias daquele verão carioca, nossos três campeões mundiais dividiram a pista.

O câmbio que sai na mão do piloto

Quando se fala em histórias bizarras da F1, a equipe italiana Andrea Moda é certamente a campeã em folclores.

A estrutura era tão precária que classificar-se para um GP seria considerado um verdadeiro milagre – naquela época, as equipes novatas disputavam uma vaga no grid no treino de pré-classificação, já que o número de inscritos variava entre 30 e 40 pilotos contra os 26 lugares num grid de largada.

Quando analisarem daqui a algumas décadas ou séculos, o santo que fez o milagre certamente vai conseguir a canonização imediata no Vaticano automobilístico: o piloto Roberto Moreno.

No GP de Mônaco de 1992, num circuito onde o fraco motor do carro poderia ser compensado pela vasta experiência do brasileiro, ele conseguiu um histórico 17º lugar no grid. Inacreditável, certo? Bom, depois de 11 voltas, a história voltou ao normal – o carro quebrou e deixou Moreno a pé.

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(Imagem: Marco De Bari) (/)

Vamos combinar que essa era uma cena comum. A pior foi quando a alavanca de câmbio se soltou e saiu na mão (!) do piloto brasileiro em plena troca de marcha em velocidade plena (mais de 200 km/h). Talvez nunca a expressão “cadeira elétrica” tenha sido usada tão bem para descrever um cockpit na F1.     

O acúmulo de trapalhadas foi tanto que a Andrea Moda foi banida do esporte pela FIA, que acreditava que a má reputação de seus dirigentes prejudicava a imagem da categoria – seu dono, um playboy italiano, foi preso em pleno GP da Bélgica acusado de fraudes fiscais.

“Uma vez, no Canadá, a Andrea Moda estava sem motor. Pediu emprestado para treinar (de um time concorrente, a Brabham). Eram outros tempos, inimagináveis hoje”, recorda o jornalista Flavio Gomes, que cobria F1 naquele ano.

Lola-pra-loser

O desempenho da Andrea Moda faz qualquer time atual parecer sério (até a recente Hispania, talvez). Mas a Lola chegou perto. Em 1997, a equipe conseguiu entrar para a história pela incrível marca de ficar 15 segundos acima do tempo da pole position na disputa por um lugar no grid do GP da Austrália.

Há quem diga que o projeto do carro era completamente equivocado. Outros diziam que era simplesmente um carro de Fórmula Indy adaptado às regras da F1. O fato é que já na prova seguinte, no GP do Brasil, a Lola nem se inscreveu – deixando o brasileiro Ricardo Rosset a pé em plena corrida em casa.

Olha esta fera aí…

Parece descrição de videocassetada, mas aconteceu no “Domingão da F1”: em 1983, o francês René Arnoux teve problema com sua Ferrari e parou na pista. Desceu do carro e pediu ajuda dos fiscais para empurrar o carro para um lugar seguro.

Só que, sem o peso do piloto, o carro começou a andar e passou em cima do pé do piloto francês. Arnoux foi parar no hospital, mas sem fraturas no pé.

Nigel Mansell, sempre propenso a alguma façanha patética, rivalizou com essa em 1987. Após vencer o GP da Áustria, ficou tão entusiasmado em sua comemoração sobre o caminhão que leva os pilotos ao pódio que não viu a chegada de uma passarela de concreto. Bateu a cabeça em cheio.

Nenhum ferimento grave, mas o Leão foi para o pódio com um belo galo na testa – para alegria do rival Nelson Piquet, o segundo colocado naquela corrida, mas que ficou com  o título no fim da temporada.

Vida curta para Life

A equipe Life é outra séria candidata na eleição das piores equipes da F1. O problema principal era seu motor em W, com 12 cilindros, mas cujos 12 nunca funcionavam plenamente. Com isso, estimava-se a potência de seus carros em 350 cavalos. Nada mau num carro de rua, mas pífio se comparado aos cerca de mil cavalos dos F1 da época.

Nem era só a performance que era ruim: a durabilidade chegava a ser patética. “O recorde foi cinco voltas seguidas, e só. Mais que isso era impossível”, lembra Paulo Carcasci, que após bom desempenho na F-300 sonhava com um lugar na F1.

Mas, para a Life, a vida foi curta. Até um rechonchudo Bruno Giacomelli, aos 37 anos, foi chamado para tentar salvar o projeto, após quase uma década sem competir.

Mas não adiantou. O mais perto que conseguiu foi ser 19 segundos mais lento que a pole na pré-classificação no GP de Silverstone em 1990. Detalhe: a F3 fez a corrida preliminar e seus carros conseguiam ser 16 segundos mais rápidos que o da Life.

Já em Portugal, a carenagem do carro se soltou na primeira volta.

O pior piloto da história da Fórmula 1?

Foi com este singelo título que o pessoal do Top Gear se referiu ao japonês Taki Inoue. E ele não apenas concorda, como faz piada a respeito! Disputou 18 corridas entre 1994 e 1995 pelas nanicas Simtek e Footwork, marcando zero pontos.

Seu grande momento ocorreu no GP da Hungria de 1995. O motor Hart de sua Footwork pegou fogo no meio da corrida. Inoue parou o carro e, sem paciência para esperar os comissários, correu para pegar um extintor.

O problema foi que ele não viu o Safety Car vindo em sua direção – faltou um retrovisor. Atingido nas pernas, Taki ainda fez um pouso perfeito, de pé, mas logo depois caiu no chão, gemendo de dores.

E ainda teve que esperar no autódromo por 1 hora antes de ir para o hospital – a organização preferiu não acionar o helicóptero de resgate antes de a corrida acabar. Isso é que é prestígio!

O recorde da Eurobrun… e a fita adesiva

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(Imagem: Getty Images) (Thinkstock/)

A Eurobrun, que estreou no Brasil em 1988 e encerrou as atividades no GP da Espanha de 1990, proporcionou ao italiano Claudio Langes um recorde na F1: o de piloto que mais vezes tentou e não conseguiu se classificar em um GP. Foram 14 tentativas, todas sem sucesso.

Uma marca que segue como legado da equipe que certa vez mandou Roberto Moreno (sempre ele, um guerreiro!) para a pista com o chassi remendado com fita adesiva para baratear o conserto.

Mais incrível ainda é pensar que Moreno chegou em 13º com a Eurobrun no GP de Phoenix de 1990. Após pagar tantos pecados, Moreno foi chamado para preencher uma vaga na Benetton ao lado de seu velho amigo Nelson Piquet. E os dois fizeram a dobradinha no GP do Japão de 1990. Aquele segundo lugar foi o único pódio do sofrido Moreno.

Inusitados – algumas figuras fora do padrão que passaram pela elite do automobilismo

  • Músico pop: O sueco Slim Borgudd era baterista e gravou com o ABBA nos anos 1970. Mas sua paixão era pilotar e, em 1981, chegou à F1 pela pequena ATS, colocando o logotipo de seus amigos do ABBA no carro. Esforçado, Slim até fez um ponto no GP da Inglaterra. E foi para a ex-grande Tyrrell em 1982. Após meras três corridas, ele foi dispensado: seu dinheiro para manter a vaga acabou.
  • Superlento: Por três anos, o canadense Al Pease alugou um Eagle velho para disputar os GPs de seu país. Em 1967, teve média de velocidade de 70 km/h (a do vencedor: 133 km/h). Em 1968, não se classificou. Em 1969, recebeu bandeira preta por estar muito lento.
  • 18 metros: Foi tudo que o inglês Perry McCarthy andou em sua estreia na F1, no treino para o GP da Espanha de 1992. O motor de sua Andrea Moda morreu na saída dos boxes e não houve conserto. “Até o Dick Vigarista tinha mais sorte que eu”, disse McCarthy ao jornal inglês The Times, anos depois.
  • 33ºe último lugar: Foi a colocação da italiana Giovanna Amati (última mulher da F1) em suas três participações em 1992. Com uma Brabham, ela fracassou nos treinos e não conseguiu vaga nos grids dos GPs de África do Sul, México e Brasil.