O que faz com que alguns vinhos sejam tão mais caros que outros?

Além dos custos de produção, há fatores como marketing, impostos, discrepância entre oferta e procura que interferem no preço ao consumidor. Não a qualidade

Sempre duvidei que  vinhos muito caros fossem tão melhores que vinhos de cento e poucos reais — o que, para o meu bolso, já é dinheiro demais.

Até que, um dia, bem antes de estudar ou escrever sobre vinhos, tomei o Château Latour, um dos vinhos mais caros de Bordeaux (cerca de R$ 9 mil, a garrafa).

O primeiro gole acabou com qualquer dúvida:  aquilo que eu estava bebendo era um milhão de vezes melhor do que os vinhos do meu dia-a-dia.

Fazer um vinho de excelência custa caro, e isso se reflete no preço que pagamos por uma garrafa.

Então, quer dizer que um vinho de R$ 400 é sempre melhor do que um vinho de R$ 200, que é melhor que um de R$ 100? Não obrigatoriamente.

Além dos custos de produção, há uma série de outros fatores, como marketing, impostos, discrepância entre oferta e procura, que interferem no preço ao consumidor. E, não necessariamente, na qualidade.

Evite denominações de origem muito valorizadas

O preço da terra onde as uvas são plantadas, por exemplo, tem influência direta no preço de um vinho.

Enquanto um hectare plantado pode custar menos de 30 mil euros no Chile, em Paulliac (França), onde o Château Latour é produzido, ele custa mais de 2 milhões de euros. 

Essa diferença de custo, evidentemente, será repassada para o consumidor. Os vinhedos em Paulliac não são caros à toa. O terroir produz vinhos excepcionais. Mas existem terroirs menos bombados que também produzem grandes vinhos.

Países com mão-de-obra valorizada tendem ter vinhos mais caros

O custo com a contratação de pessoal tem um peso importante na precificação de um vinho. Um trabalhador argentino ou chileno não ganha tanto quanto um francês ou alemão. Esse custo extra não agrega qualidade.

Nos vinhos mais artesanais, onde vários processos são feitos por pessoas e não por máquinas, o peso da mão-de-obra no preço final é ainda maior.

Colheita manual custa, mas é bom sinal

Em qualquer lugar do mundo, um vinho feito a partir de uvas colhidas à mão costuma ser mais caro do que aquele cujas uvas foram colhidas por máquinas agrícolas.

Na colheita, o trabalhador já seleciona as uvas mais sadias e mais maduras, o que é fundamental para a qualidade do vinho. É comum produtores contarem sobre esse tipo de cuidado no contra-rótulo do vinho ou na sua ficha técnica que aparece no site da vinícola

Vinhedos de rendimentos baixos costumam produzir bons vinhos

Boa parte da qualidade do vinho depende da qualidade da uva. Para obter uvas com maior concentração de aromas, taninos, corantes, os produtores interessados em qualidade, e não quantidade, trabalham a vinha com podas para que ela dê poucos frutos.

Quanto menos frutos, mais bem nutridos eles serão. Essa informação também pode aparecer no contra-rótulo ou no site da vinícola.

A madeira não serve para todos

É comum encontrarmos nos rótulos e no site a informação sobre o tempo que um vinho passa descansando na madeira.

O carvalho, onde ele descansa, é uma madeira cara.  A procedência do carvalho, usado para construir tonéis e barricas, varia. Pode ser francês, americano ou do leste europeu. O primeiro é o mais caro.

O carvalho melhora o vinho? Depende.

Nem todo vinho ganha com uma longa passagem por madeira . Se não tiver estrutura para isso, o vinho desaparece. Fica só aquele  chá de carvalho.

Preço nem sempre é documento

Portugal, muita gente não sabe, produz ótimos espumantes por preços mais em conta que os dos franceses.

A região da Bairrada é responsável por alguns dos melhores. O Quinta das Bágeiras Bruto Reserva 2004, de um dos melhores produtores da região, é um vinho cheio de aromas de frutas secas, brioche.

Na última vez que o provei, preferi ele ao champanhe que fez parte da mesma degustação, um champanhe bem bacana que eu trouxe de Paris na mala. Custa R$ 105,74 na Premium Wines.

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 (Reprodução/Divulgação)

Uma dica para conseguir um bom custo-benefício é buscar um vinho feito por algum produtor conceituado fora da região onde ele primeiro se destacou.

É o caso do Marius Blanc 2015, um branco feito na região francesa do Languedoc-Roussillion por Michel Chapoutier, um dos maiores nomes do Vale do Rhône, também na França.

No Rhône, Chapoutier produz grandes vinhos que podem custar até perto de R$ 2 mil. O Marius custa R$ 82, uns R$ 30 menos do que o vinho mais barato da casa no Rhône, e tem a marca do produtor.

Fresco, mineral, com aromas delicados de frutas brancas. É importado pela Mistral.

Marius Blanc 2015

 (Reprodução/Divulgação)

Quando uma denominação de origem fica famosa, os preços de seus vinhos tendem a subir. A fama costuma se apoiar em um terroir que garante vinhos com características especiais.

Esse é o caso dos rosés da Provence, na França, que, de fato, são os melhores rosés do mundo.

Para ter o direito de escrever o nome de uma denominação no rótulo, no entanto, o produtor tem de seguir uma série de regras. Daí os nomes denominação de origem protegida (DOP) ou Denominação de Origem Controlada (DOC).

Por isso, muitas vezes encontramos vinhos da mesma região de determinada DOC, provenientes do mesmo terroir, mas que não usam a denominação. Costumam ser boas compras.

O Berne Esprit di Mediterranée 2016 , por exemplo, é muito parecido com os rosés da Provence.

É elegante, tem aromas de frutas vermelhas frescas, como morango e framboesa, tem um toque de lavanda. Mas ele é um IGP (indicação Geográfica Protegida) Mediterranée e, por isso, custa metade do preço, R$ 69 , na Grand Cru.

Berne Esprit di Mediterranée 2016

 (Reprodução/Divulgação)

Você não tem dinheiro para comprar um mito de Bordeaux, como o Château Angelus, por exemplo? Nem eu. Eles custam milhares de reais. Mas pode tomar um vinho tão bom quanto: o Chateau Reynon 2012, que custa R$ 145, na Casa Flora.

Na safra de 2010, a mais respeitada crítica inglesa de vinhos, Jancis Robinson, deu os mesmos 17.5 pontos (de 20) para o Château Reynon.

E afirmou categoricamente que a qualidade era equivalente. Já provei os dois. Realmente o Château Reynon não fica a dever.

Criação de Denis Dubourdieu, professor de enologia da Universidade de Bordeaux que morreu no ano passado, esse vinho vem de vinhedos em Cadillac, na margem direita do Rio Garrone. Uma região bem menos valorizada do que  Saint Emilion, onde está o Angelus.

Chateau Reynon 2012

 (Reprodução/Divulgação)

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