O que esperar de Hollywood na era Trump

Sem depender do dinheiro público, cinema americano deve continuar com autonomia em relação ao que se passa em Washington

Reportagem publicada originalmente em EXAME Hoje, app disponível na App Store e no Google PlayPara ler reportagens antecipadamente, assine EXAME Hoje.

LOS ANGELES — O que vai acontecer com Hollywood após estes primeiros 30 dias de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos? Fora as mútuas hostilidades de costume, provavelmente veremos o que sempre existiu nas relações entre a indústria do cinema e o mundo da política: a maioria progressista e democrata da indústria vai continuar sendo progressista e democrata, doando tempo e recursos para o partido da oposição e para todas as causas que a nova administração hostiliza, do meio ambiente à paridade LGBT. Os programas de comédia e comentário continuarão ridicularizando o novo presidente e seu gabinete. Celebridades como Meryl Streep – cujo discurso anti-Trump, durante a cerimônia de entrega dos Globos de Ouro foi o ponto alto da noite —, George Clooney, Susan Sarandon e Robert de Niro vão continuar dizendo o que pensam. E Trump vai continuar desfechando tweets contra todos eles, possivelmente em paroxismos cada vez mais intensos.

Porque esta é a essência da relação entre Hollywood e Washington: a indústria audio-visual do sul da Califórnia não depende em nada do que se passa na capital da república. A relação entre esses dois poderes é longa e tensa, e, depois de muitas crises e embates, resume-se no seguinte: Hollywood, que emprega 1.9 milhão de pessoas anualmente e gera 20 bilhões de dólares em impostos locais, estaduais e federais, é uma entidade em si mesma; se Washington quer um naco desse filé, que fique bem longe. (Aqui é bom acrescentar: a indústria do entretenimento é a terceira maior atividade econômica da Califórnia, depois da agricultura e da tecnologia. E a Califórnia é a sexta maior economia do mundo, e um dos estados que menos recebe recursos do governo federal norte-americano.)

Essa independência foi conquistada aos poucos, e nem sempre vigorou plenamente. Washington demorou a levar a sério a novidade do cinema, que parecia mais um passatempo ocasional, sem maiores consequências. Na década de 1920, contudo (justo na administração do republicano Warren G. Harding, considerado um dos piores presidents dos Estados Unidos), Washington chegou à conclusão de que todos os problemas da família norte-americana eram culpa da licenciosidade das fitas onde moças mostravam as coxas, casais se beijavam na boca e todo mundo bebia à vontade.

A pressão para o que, claramente, seria a criação de uma entidade de censura controlada pelo governo federal só foi dissipada quando a primeira organização patronal da indústria, a Motion Picture Producers and Distributors of America (MPPDA – que mais tarde se tornaria a Motion Picture Association of America, MPAA), ofereceu uma contrapartida: a auto-regulamentação.

Liderados pelo presidente da MPPDA – um presbiteriano devoto, William Hays – três pioneiros de Hollywood – Irving Thalberg, Sol Wurtzel e E. H. Allen, respectivamente presidentes da Metro, da Fox e da Paramount- criaram, em 1927 um “Código Para a Governança de Fitas de Cinema”, uma longa lista de elementos “perniciosos” que deveriam ser banidas dos filmes. Entre eles: uso de palavrões e das palavras “Deus” e “Jesus Cristo”; nudez e “a sugestão de nudez”; menção de doenças sexualmente transmissíveis; e qualquer zombaria envolvendo religiosos. (Curiosamente, na lista de elementos que deviam ser

“empregados com extrema cautela, após discussão” estavam “crimes violentos”, “assassinatos” e “uso de armas de fogo”, sem os quais praticamente não haveria a Hollywood como a conhecemos hoje.)

Conhecido como Código Hays, o sistema de autocensura vigorou até 1967, quando foi ultrapassado por novas gerações de público, de realizadores e de executivos – e se transformou no sistema de classificação etária que vigora até hoje e que, como seu antepassado, é administrado pela própria organização de classe, a MPAA.

Em três outras ocasiões, fatores externos levaram a uma aproximação entre Washington e Hollywood. Primeiro, a Segunda Guerra Mundial, possivelmente o único momento em que, voluntariamente, os estúdios colocaram seu talento a serviço da propaganda federal, com filmes promovendo os Aliados, o alistamento e a aproximação com a América Latina, ponto estratégico na campanha do Atlântico.

A Guerra Fria trouxe o clima de histeria anti-comunista que, nos anos 1940-50, levou ao festival de delações diante da Comitê de Atividades Anti-Americanas do Congresso e à criação da tristemente famosa Lista Negra, que condenou ao exílio e ao desemprego alguns dos maiores talentos da indústria. Era um eco do Código Hays – um sistema de auto –expurgo voluntário para evitar maiores interesses e intervenções por parte de Washington – mas também algo ainda mais tipicamente hollywoodiano: um gesto para não alienar uma boa parte da platéia, que acreditava piamente que os soviéticos estavam prestes a invadir os Estados Unidos a qualquer momento.

Esse mesmo gesto explica a safra de filmes patriótico-militares que se seguiu ao ataque às Torres Gêmeas no dia 11 de setembro de 2001. George W. Bush continuava sendo um dos presidentes mais detestados pela indústria, mas o temor de não parecer (para o público) suficientemente alinhado com a defesa da pátria abriu clareiras para todos os projetos nos quais soldados norte-americanos ou morriam bravamente ou salvavam o mundo graças à sua coragem e armamento pesado.

A situação atual é nenhuma das anteriores, mas apresenta novas peculiaridades. A força econômica de Hollywood, o fato de ser de fato uma indústria auto-suficiente, de alcance internacional, movida por investimento e lucro, garante sua autonomia de Washington. As decisões sobre o que é ou não produzido e lançado, dentro dos grandes estúdios, não tem a ver com o clima na Casa Branca, mas com o que está funcionando nas bilheterias, nas TVs e nas plataformas digitais. 

Haverá investidor para projetos endossando as ideias trumpistas? Sim – o produtor/roteirista/propagandista Dinesh D’Souza sempre encontrará quem banque seus documentários, e quem os distribua (no caso, a independente Lionsgate, que também distribui uma vasta gama de títulos de todas as inclinações políticas, sociais e sexuais). Mas Michael Moore também sempre encontrará investidores e distribuidores. E os grandes estúdios estão mais inclinados a por seu dinheiro em super-heróis, franquias e projetos baseados em games. Onde os Do Bem sempre vencem.

Será interessante ver, na verdade, como o antagonismo à extrema-direita trumpista vai se expressar dentro da comunidade criativa. Traumas sócio-políticos anteriores levaram a safras brilhantes de ficção científica distópica – de A Bolha Assassina a Invasores de Corpos e A Noite dos Mortos Vivos-, violência estetizada – Bonnie & Clyde, tudo de Sam Peckinpah – e toda a geração da Nova Hollywood e seus descendentes, o cinema indie dos anos 1990.

Neste momento há uma série na Amazon, baseada num livro de Philip K. Dick, que parece altamente profética: The Man in The High Castle, sobre uma linha do tempo alternativa, na qual os nazistas venceram a Segunda Guerra Mundial e invadiram os Estados Unidos.