O pouso final do 747: memórias de um piloto

Último 747 comercial das companhias aéreas americanas será aposentado este ano. É a despedida de uma das construções mais icônicas do século 20

O quanto eu, que sou piloto, amo o avião que piloto? A resposta é difícil e talvez um pouco embaraçosa, mas agora que a aposentadoria do Boeing 747 está próxima, certamente não sou o único fã da icônica aeronave que voa pelos céus da memória.

Poderia contar quase tudo sobre meu primeiro voo de passageiros em um 747, da KLM Royal Dutch Airlines para Amsterdã, em 25 de junho de 1988 (na 33A – assento da janela, claro). E certamente poderia descrever a maravilhosa noite de 12 de dezembro de 2007, quando pilotei um 747 pela primeira vez – o da British Airways, companhia aérea para a qual trabalho agora, de Londres para Hong Kong. Naquela noite, a majestade do 747 fez da experiência da decolagem uma coisa nova, tão feliz quanto tinha sido na minha primeira aula de voo, anos antes, quando o instrutor e eu entramos em um Cessna, taxiamos pela pista de aeroporto da minha cidade natal, Pittsfield, em Massachusetts, e decolamos rumo ao céu azul do outono de Berkshire.

Notícias recentes dizem que o último 747 comercial das companhias aéreas americanas será aposentado este ano. É interessante notar que outros, incluindo as versões de carga remodeladas, mais recentes, continuarão voando por muitos anos. Novos 747s levantaram voo recentemente, em meados deste ano, e os cargueiros continuam a sair da linha de montagem. No entanto, no momento em que muitos pilotos dessas aeronaves começarem a pensar em qual modelo voarão em seguida, seria bom refletir sobre a importância do avião conhecido como a “Rainha dos Céus”, não apenas para seus pilotos mais apaixonados e fanáticos, mas para milhões de passageiros e para o mundo que ele ajudou a mudar.

Para quem cresceu na era em que o 747 cruzava os céus, deve ser difícil entender o quanto as dimensões do avião eram revolucionárias (e inacreditáveis, para alguns observadores) quando foi lançado, em 1969. O modelo inaugural, o 747-100, foi a primeira aeronave de fuselagem larga do mundo. Pesava dezenas de milhares de quilos a mais do que seus antecessores (o Boeing 707, por exemplo) e transportava mais do que o dobro de passageiros. Construído em uma fábrica tão grande que uma vez chegou a ser invadida por nuvens, o 747-100 tinha quase duas vezes o comprimento da primeira nave dos irmãos Wright.

O historiador de aviação Martin Bowman escreveu que, durante a primeira decolagem do 747, em fevereiro de 1969, no Paine Field, em Everett, Washington, a força de seus motores derrubou um fotógrafo. De fato, as proporções gigantescas do jato eram ao mesmo tempo uma dádiva e um desafio para a indústria de viagens. Peter Walter, que se aposentou em 2011 depois de 47 anos trabalhando para companhias aéreas em terra, compartilhou comigo as memórias do dia em que o 747 chegou ao aeroporto de Freeport, nas Bahamas. “O avião não parecia tão grande na pista, mas, quando chegava até a rampa, era enorme”, escreveu ele. As escadas móveis que haviam atendido uma geração anterior de aviões eram demasiado baixas, por isso a tripulação precisava empilhar uma sobre a outra para alcançar a imponente porta do novo Leviatã.

As esperanças e os medos da época que nos deu o 747 podem parecer distantes. E também não é fácil, na era da internet, sentir a mesma admiração pela capacidade do 747 de reduzir e conectar o mundo. Em retrospectiva, talvez baste se maravilhar com os bilhões de reuniões, migrações, trocas e colaborações de todos os tipos que foram possíveis, ou que pelo menos ficaram mais acessíveis, graças a essa aeronave. Hoje, o equivalente a cerca de metade da população do planeta já voou em um 747. Os jatos serviram também no combate a incêndios, além de desempenharem funções militares e humanitárias. Em 1991, como parte da Operação Solomon, cerca de 1.100 judeus etíopes embarcaram em um 747 que os levaria para Israel. Nunca antes uma aeronave havia carregado tantos passageiros – incluindo, quando o avião aterrissou, vários bebês nascidos a bordo.

Se o lugar na história do 747 está assegurado, então, ao que parece, também está seu papel cultural. O jato continua a ser sinônimo da grandiosidade aérea, inclusive usado por um dos diretores de “Game of Thrones” recentemente para sugerir as dimensões de um dragão. Ele também permanece como um símbolo de velocidade, de fuga e, francamente, de sensualidade, que, juntamente com o agradável palíndromo de seu número/nome, foi um atrativo especial para cantores. Uma playlist pode incluir Prince (“você está voando a bordo da sedução 747”); Earth, Wind and Fire (“mova-se e paire como um 747”); e Joni Mitchell, que fez talvez minha homenagem favorita (“sobre fazendas geométricas”).

Certamente, o jato também será lembrado como um ícone do design moderno. “Este é um dos grandes”, disse Charles Lindbergh sobre o avião que muitos consideram ser excepcionalmente bonito. Certamente, não sou o primeiro a especular sobre a característica corcunda da aeronave (projetada para facilitar as operações de carga em um futuro que muitos esperavam ser dominado por aviões supersônicos), que remete à cabeça estilizada e graciosa de um pássaro. Frequentemente, da cabine, avistava vários passageiros no terminal fotografando o jato em que eu estava. Muitas vezes, vejo até pilotos veteranos desembarcando da aeronave onde passaram 11 horas voando para a Cidade do Cabo ou Los Angeles, fazendo uma pausa, virando-se e fotografando-a.

Na verdade, deve ser o preferido daqueles que têm a sorte de pilotá-lo. O primeiro a fazê-lo, o piloto de testes Jack Waddell, descreveu-o como “o sonho de um piloto” e um “avião de dois dedos” – que pode ser voado apenas com o indicador e o polegar sobre no manche. É difícil imaginar um elogio maior para uma aeronave enorme. Pessoalmente, acho-o suave e manobrável, uma delícia para pilotar e pousar.

Como todos os pilotos de 747 desde Waddell, ele também se interessou muito pelo aspecto do avião. E vale notar que sentiu isso no momento em que o pilotava pela primeira vez. “Qual o aspecto do avião aí de fora, Paul?”, perguntou ele por rádio para Paul Bennett, piloto na aeronave de perseguição que seguiu o 747 recém-nascido pelos céus do noroeste do Pacífico. A resposta de Bennett marcou a história da aviação: “É lindo, Jack. Fantástico!”.

Muitos de seus pilotos sentem o mesmo, e ficam satisfeitos, mas não surpresos, ao ouvir que o arquiteto britânico Norman Foster uma vez chamou a aeronave de “sua construção favorita do século 20”. Agora, no século 21, pedi uma atualização a Foster. “O 747 ainda me comove como antes. Talvez com o passar do tempo e em uma época cheia de ‘sósias’, até mais”, disse-me ele em um e-mail.

Foster não está sozinho. No início do meu primeiro livro, uma espécie de carta de amor a meu trabalho como piloto, pedi que os leitores me enviassem suas fotos favoritas da janelinha. Muitos também escreveram para compartilhar sua paixão pelo 747. Um leitor detalhou seu primeiro voo em um 747, pela Alitalia, com destino a Roma em 1971. “Desde então, virei um aficionado”, afirmou. Outro, Andrew Flowers, escritor sul-africano de 42 anos que vive em Helsinki, escreveu que os 747s que viu na infância na Cidade do Cabo, eram o que “mais queria no mundo: um caminho para a Europa, para a aventura, para a liberdade”.

Quando Foster me mandou o e-mail, anexou também uma transcrição das observações que fez sobre o avião em um documentário da BBC de 1991. “Acho que é a grandeza, a escala; é heroico, é escultura pura. Nem precisaria voar, podia ficar no chão, poderia estar em um museu.”

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