O dia em que comi um gol

No catalão El Celler de Can Roca, o melhor restaurante do mundo segundo a principal lista do momento, nada é o que parece

beterraba

Uma bola de futebol cortada ao meio, grama sintética, jogadores de suspiro, uma pelota de dulce de leche argentino. A trave? Açúcar. Quando a sobremesa mais pirotécnica do planeta chega à mesa, o garçom traz junto um iPod e fones. Enquanto “driblo” os suspiros (ou seja, como um por um), ouço uma narração empolgada: ainda Messi ainda Messi vai Messi gol gol gol. A torcida comemora, eu também.

Eleito no dia 29 de abril o melhor restaurante do mundo segundo a revista inglesa Restaurant, o El Celler de Can Roca, no subúrbio da adorável cidade de Girona, a uma hora de Barcelona, é hoje o grande representante da chamada vanguarda espanhola – movimento que tem como líder Ferran Adrià, do extinto El Bulli, quatro vezes melhor do mundo. Comandado por três irmãos, Joan (o chef), Josep (responsável pela incrível adega interativa) e Jordi (o dono das sobremesas), cada um mais amável que o outro, fazem uma cozinha que brinca com as texturas dos alimentos e que mistura comida com música, arte, esportes. O gol de Messi é o grand finale de um menu degustação de sete pratos mais outros tantos petiscos que custa € 135, fora os vinhos. Começou com azeitonas que chegam à mesa grudadas numa oliveira bonsai e seguiu com bombons de Campari e de foie gras, espinha de anchova frita, camarão servido com pó de cabeça de camarão, espumas várias, um exótico tendão de boi com ouriço e sobremesas como espuma de leite e um doce que emulava um perfume da Hermès.

Tudo muito diferente. É que, mais que eleger o melhor do mundo, o que a lista da Restaurant faz é apontar para a vanguarda da gastronomia. Depois de reiterar o poder de Adrià, foi ela quem colocou a Escandinávia no mapa foodie (o Noma, na Dinamarca, reinou nos últimos três anos). No Brasil, o D.O.M., de Alex Atala, que caiu de 40 para 6o lugar este ano, é o principal endereço. Helena Rizzo e Daniel Redondo, do Maní, estão em 46o (é a primeira vez entre os 50).
Além de lançar modismos, o Can Roca também formou grandes chefs. Em São Paulo, Helena e Daniel foram discípulos, assim como Bel Coelho, do Dui, e Ligia Karazawa, do Clos de Tapas. Se não dá para comprar uma passagem para a Espanha agora (até porque o Celler não aceita reservas para antes de novembro), comece com esses endereços, para ter ao menos um aperitivo do que vai encontrar no topo do mundo. É gol certo.