“Não existe sucesso sem surto”

André Akkari, o jogador de pôquer mais famoso do país e detentor de um título mundial, conta como as mesas fizeram sua vida melhor

AndrÈ Akkari

Sempre fui exageradamente proativo e fiquei ainda mais com o pôquer. Só acredito no sucesso derivado do surto. Quando digo surto, é esse de não conseguir dormir ou comer por querer determinada coisa. Isso não significa não ter vida. Significa aproveitá-la e tirar dela a motivação para continuar nesse surto.

Não existe livro de autoajuda ou aquela coisa de acreditar em si mesmo que funcione se você não estudar.

Se o que eu sei hoje dá para bater torneios de limite de apenas US$ 5 e para os de US$ 10 é necessário saber um pouco mais, minha busca precisa ser alcançar o novo limite. Quem é o melhor cara que faz aquilo? Eu vou atrás dele, disseco ele, vejo tudo o que ele faz. Até que con­­­­sigo entrar no de US$ 10. E assim por diante, até chegar no de US$ 15 mil.

Nunca tinha me ligado em jogos men­­­tais, eu nem sequer sei as regras do xadrez ou as do gamão. Só sabia jogar futebol e tocar samba. Não sabia que pôquer exigia ha­­­bi­­­­­­­lidade. Achava que a sorte falava mais alto, até que assisti pela TV a uma partida do World Series of Poker, que eu vim a ganhar depois de um tempo, e prestei atenção aos comentários. Percebi que tinha quase nada de sorte e um lado técnico muito forte.

Em sete meses estudando e treinando, já tinha uma renda com os jogos que era a mesma que eu tirava quando trabalhava com tecnologia. O mais importante é que era regular. Conseguia estipular uma meta e batê-la. Resolvi passar um ano vivendo de pôquer para ver no que dava.

Antes eu estudava e praticava durante três horas diárias. Quando passei a me dedicar dez horas por dia, os resultados foram diretamente proporcionais. Comecei a voar. No segundo mês, ganhava quatro, cinco vezes o que tirava antes.

Uma coisa que o pôquer me ensinou foi a planejar e executar. Eu era como a maioria das pessoas, que até planejam, mas depois acabam navegando conforme a maré. O pôquer me ensinou que você tem que ter um comprometimento de disciplina muito grande em relação ao seu caixa, ao seu limite.

O esporte ensina às pessoas a arte da manipulação. Manipular soa feio, mas não acho outra palavra. É a combinação de acumular informações e usá-las a seu favor. Na mesa, as pessoas sempre agem da mesma forma. Você tem que arquivar isso, criar uma biblioteca da atitude delas.

Quando estamos falando de sucesso empresarial, ter informações, mastigá-las e usá-las com planejamento estratégico é o caminho. E é exatamente desse mesmo jeito na mesa do pôquer.

Ter espírito empreendedor é aceitar o risco de perder pela chance de ganhar. Num jogo, você paga R$ 100 na entrada e recebe 100 mil fichas. E entende rápido que, daquelas 100 mil fichas, se não abrir mão de X mil, não tem como evoluir.

Um dos grandes benefícios do meu esporte é aprender a perder de uma forma mais light. Perder é parte de um processo. Quando perdemos, não é porque demos azar, é porque fizemos merda. Então, temos que procurar essa merda para entendê-la. É assim que se diminui a margem de erro e aumenta a de acerto.

Não acredito em sucesso por dinheiro. Gosto de dinheiro, não sou trouxa nem hipócrita. É legal ter dinheiro trabalhando, mas mais legal é você ser apaixonado pelo que faz. Se te pagam por isso então, aí vira um sonho.

Eu sempre fui explosivo, não sabia controlar minhas emoções. Com o pôquer, entendi uma parada que é básica, mas que é importante demais: ouvir. Se você ouve primeiro do que fala, tem uma vantagem absurda sobre seu adversário.

A mesa de pôquer me ensinou a tirar um pouco da impulsividade e ser mais arisco com as coisas, pensar antes de fazer. E ouvir e captar o máximo de informações possível para depois usá-las contra os meus adversários.