Não confio em livros sem humor porque a vida é absurda, diz Sheila Heti

Autora de "Maternidade", um dos livros mais comentados do ano, a escritora canadense passou pela FLIP e deu uma entrevista exclusiva para EXAME

São Paulo – Ter ou não ter um filho? Ao se aproximar dos 40 anos, a escritora canadense Sheila Heti não podia mais escapar da pergunta e deu sua resposta com o livro “Maternidade”, lançado recentemente no Brasil.

Em uma mistura de ensaio e ficção, Heti usa técnicas do misticismo e ilumina territórios inexplorados da experiência feminina para chegar a conclusões desconcertantes.

“Não confio em livros que não têm humor porque a vida é absurda”, diz Heti, demonstrando no diálogo pessoal a mesma entrega emocional e curiosidade intelectual que marcam a sua obra.

Autora de oito livros traduzidos para 21 línguas, além de contos e entrevistas, Heti entrou na lista do The New York Times das quinze autoras que estão “moldando a maneira como lemos e escrevemos ficção no século 21”.

Apesar da sensibilidade pop, ainda mais marcante em seu trabalho anterior, “How Should a Person Be” (ainda sem tradução para o Brasil), ela afirma sorrindo que o mais excitante para ela seria nem existir online.

Heti participou da última edição da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) e em uma breve passagem por São Paulo, teve a seguinte conversa com EXAME:

Você escreve ficção, mas de uma perspectiva muito pessoal. As pessoas te procuram para tentar saber o que é “real” no que você escreve? Isso já fez você se censurar?

É a questão mais comum, mas eu nunca respondo. Não faz com que eu me censure, porque ninguém sabe além de mim. E é assim que deve ser, porque não é da conta de ninguém, é só bisbilhotice. Eu, como leitora, também quero saber o que é real – mas lá no fundo, você não quer saber.

Isso estaria relacionado com a noção de que quando uma mulher escreve sobre questões femininas é sempre “confessional”, mas quando é um homem faz o mesmo, é apenas literatura?

Tem isso, mas muitos que me perguntam isso são mulheres. Queremos saber se algo é verdadeiro porque queremos saber as possibilidades para uma vida humana; talvez algo tenha acontecido na vida dessas mulheres, e elas querem companhia.

E com os meus livros as pessoas sentem que me conhecem, talvez queiram ser minhas amigas, e esta é uma forma de criar intimidade. Não é só ruim, vem de uma intenção doce.

Você sentiu uma diferença entre as gerações na reação ao livro?

Não tanto. O que eu percebi é que pessoas de 20 e poucos anos se dizem aliviadas de ainda não terem a pressão para decidir, e pessoas que já criaram seus filhos conseguem ler com certo distanciamento.

Não costumam ser bons leitores quem está para ter um filho ou acabou de ter, porque é um período que você precisa atravessar com foco total. Alguns se frustram porque não querem se perguntar quando já é tarde demais, ou talvez pensem: “por que ela tem o privilégio de fazer essa pergunta?”. Houve uma reação negativa entre aqueles que tiveram filhos simplesmente porque é algo que se costuma fazer.

E talvez os homens gays sejam os que mais gostam (risos), por conseguirem olhar de fora o convencional. Eles não podem atravessar para esse mainstream da experiência, que é como uma mulher que não quer ter filhos também se sente.

E isso também mudou. Quando eu estava com 20 e poucos anos, não havia nem a possibilidade do casamento gay, e havia algo limitante naquilo…

Mas glorioso também! Agora as pessoas gays também têm a expectativa de ter famílias, da mesma forma que os heterossexuais. Ninguém mais está isento (risos).

Você disse que com “How Should a Person Be” seu objetivo era se introduzir na cultura pop. É um mundo que te interessa?

Nem um pouco! Foi sociológico. Eu estava pensando em Andy Warhol e em como ele fez de tudo para ser popular. Ele arriscou parecer estúpido para ser acessível. Na época riram, mas hoje ele é considerado um dos maiores artistas do século XX. Era isso de dizer: “vou tentar fazer a coisa mais deliciosa possível”. Queria que o livro fosse simples, doce e fácil de absorver.

Isso foi em 2005, antes de Twitter e Instagram. Eu estava observando mulheres como Paris Hilton e a sensação nascente de que no futuro todo mundo iria querer ser uma celebridade e de que não haveria arte, apenas artistas. Queria que a personagem fosse errada, estúpida, obcecada com sexo e com preocupações frívolas.

Agora que a onda mudou e tudo está saturado de mídias sociais, o que mudou para você?

Agora eu quero desaparecer o máximo possível. Eu passo muito tempo pedindo para tirarem vídeos meus no YouTube, eu quero todas as fotos e entrevistas fora do ar. Seria o meu sonho. Acho que isso me parece mais mágico e especial. Que excitante seria não existir online.

É cada vez mais difícil criar esse momento de introspecção e você disse que sua ideia era que os seus pensamentos virassem o do leitor. Você considera, ao escrever, como será lida?

Nunca pensei no momento que as pessoas leem o meu livro, ou se quero que leiam rápido ou devagar. Mas é uma ótima questão e vou me perguntar da próxima vez. Eu amo ler, mas parece que não há mais momentos no dia que favorecem a leitura.

Como escrever um livro que você receberia bem em qualquer momento? Hoje alguém postou no Instagram a capa do meu livro no telefone. E se as pessoas estiverem lendo no celular? Como eu escrevo um livro tão acessível quanto o Instagram? Tantas coisas divertidas para se pensar!

Outro aspecto do livro é o uso do I Ching e a ideia do acaso como uma ferramenta para decisões. É algo que você usa no seu dia a dia?

O tempo todo! Um produtor me sondou, e agora estou trabalhando em um programa de televisão. Tem esse aplicativo que se chama Either/Or, que também é um dos meus livros favoritos, do [filósofo dinamarquês] Kierkegaard. Você faz uma pergunta e ele te dá a resposta [mostra no telefone]. Eu uso o tempo todo.

Eu queria fazer uma colaboração para o programa, porque colaboração é o acaso. Fui perguntando se deveria escrever com meu irmão e com outros, o aplicativo disse não, até que disse sim para minha amiga Amy. E foi a pessoa perfeita! Se eu tivesse decidido sozinha, não sei se aceitaria tão facilmente.

Nunca tive uma colaboração tão boa, e – estou pensando nisso pela primeira vez – me pergunto se é porque é algo que me foi dado. Sabe como casamentos arranjados às vezes são mais felizes do que casamentos por amor? Porque você não se pergunta se escolheu certo. Muito do veneno de relacionamentos é que você sente que escolheu.

É um exercício constante do livro tentar isolar o ruído para entender o que você realmente quer. Te interessaria fazer o mesmo para investigar outras grandes questões, como o casamento?

Não sei. Eu quero escrever livros diferentes – não escreveria “Maternidade” sobre outra coisa, já foi o suficiente! (risos) Mas eu tenho essas questões o tempo todo.

Eu estou numa relação há dez anos, mas há sempre uma parte de mim que diz: e se você estivesse sozinha, seria mais feliz? Queria que esse telefone pudesse escolher por mim.

Você também disse que as escolhas que descartamos – como para você, ser atriz – não são uma perda de fato porque filtram novamente para dentro do trabalho. Você consegue identificar onde essas influências aparecem?

A atuação sim, facilmente. Em “Maternidade” dou para a personagem experiências que eu não tive, uma atitude que não é 100% a minha, e razões para não querer um filho que são diferentes das minhas. Assim como tenho razões para isso que não estão no livro.

Nos 5 anos em que escrevi “How Should a Person Be”, a Sheila do livro era ainda mais distante de mim, mas me tornei ela, como uma atriz do método [técnica do teatro]. Estava fazendo o papel dela na minha vida, e quando o livro acabou podia voltar a ser eu mesma. E eu tinha meus amigos lá toda hora e eu precisava deles, apesar de ser eu escrevendo. Então era como uma peça também.

Também há muito humor no seu trabalho e seu irmão é um comediante. É algo que acontece naturalmente para você?

Eu adoro fazer piada. Não confio em livros que não têm humor porque a vida é absurda. Está além de nós, não sabemos o que estamos fazendo aqui. Talvez o mundo esteja acabando e nós aqui fazendo uma entrevista.

Você falou do mundo acabando, mas no livro não há muito sobre o nosso contexto político. Você sentiu alguma pressão interna ou externa para incorporar isso?

Não, e eu acho que a maioria das pessoas que diz que não vai ter filhos por causa do meio ambiente não está dizendo a verdade. É só um jeito de fazer você parecer melhor do que os outros.

Você provavelmente não terá filhos porque não quer. Quem realmente quer um filho, tem – ainda que talvez o mundo esteja acabando.