Na Itália, mesma família cuida da taça da Copa do Mundo desde 1970

Além da taça original, que é de ouro, cada país que vence a Copa desde 1970 também ganha uma réplica, de outro material

Paderno Dugnano, Itália – “Quando eu era criança, contava na escola que meu pai fazia a taça da Copa do Mundo. Ninguém acreditava. Agora minha filha fala que a mãe dela faz a taça da Copa do Mundo. Ninguém acredita”. É com bom humor e muita cortesia que Valentina Losa, de 38 anos, recebeu a reportagem na manhã da última segunda-feira. Na ampla sala do piso superior da empresa GDE Bertoni, fundada por seu bisavô em 1907, estão expostos troféus e medalhas. Nenhum chama tanto a atenção como a Copa do Mundo, ao centro da mesa.

A taça foi criada pela empresa de sua família, a GDE Bertoni, em substituição à Jules Rimet, quando esta ficou em definitivo com o Brasil após o tricampeonato mundial conquistado no México em 1970 (e, mais tarde, foi roubada). A empresa é um orgulho de Paderno Dugnano, cidade da região metropolitana de Milão, onde funciona desde 1995.

Na oficina da família de Valentina Losa, sete artesãos produzem medalhas e taças para diversos esportes e campeonatos. Da Liga dos Campeões da Europa ao Campeonato Mundial de Beisebol, passando por torneios mundiais de natação, vôlei de praia, futebol feminino e outras modalidades.

A Copa do Mundo Fifa, com seus 5 quilos de ouro 18 quilates e suas duas camadas de malaquita – aquelas faixinhas verdes da base -, em um total de 6,17 quilos, retorna para Paderno Dugnano uma vez a cada quatro anos, sempre após o Mundial. “Aqui a polimos, fazemos pequenos reparos e substituímos a malaquita, que sempre se quebra no manuseio”, contou o artesão Pietro Brambilla, de 45 anos, que trabalha ali desde 1998. Seus pais, Luigi e Paola, trabalharam na mesma fábrica por, respectivamente, 40 e 37 anos.

Durante os reparos é também quando se grava o nome da última seleção campeã na base da taça. “Quando a Itália ganhou, em 2006, foi com muita festa que fizemos esse registro”, recordou-se o artesão.

Por segurança, a data exata em que a Copa está em Paderno nunca é revelada. “Tomamos mais cuidado ao entrar e sair da fábrica e eu praticamente durmo aqui dentro”, disse Valentina Losa. A estadia da taça varia conforme a necessidade dos reparos e até mesmo a disponibilidade do material. “Às vezes, a malaquita demora duas semanas para chegar”, exemplificou Pietro Brambilla.

Réplicas

Mas a taça original não é a única oficial. Pelas regras da Fifa, esta completamente de ouro é utilizada apenas na cerimônia de premiação e depois retorna para a sede da entidade, em Zurique, na Suíça. De modo que os países que venceram a Copa do Mundo após 1970 – Alemanha (três vezes em 1974, 1990 e 2014), Brasil (duas vezes em 1994 e 2002), Itália (duas vezes em 1982 e 2006), Argentina (duas vezes em 1978 e 1986), França (1998) e Espanha (2010) – ficam, em definitivo, com uma réplica autorizada, exatamente como a que a reportagem pôde conhecer na última segunda-feira.

De acordo com Pietro Brambilla, o modelo é visualmente idêntico ao original. Com uma pequena (e bastante valiosa) diferença: o material. Em vez de ouro 18 quilates, trata-se de uma liga de cobre e zinco, banhada a ouro. Também esta taça, em caso de necessidade de manutenção, retorna para a oficina da GDE Bertoni. “Houve uma vez que estávamos com sete ao mesmo tempo aqui. Foi uma festa”, contou o artesão.

Para o polimento, é preciso muito cuidado para não desgastar a taça. “Trata-se de um trabalho de olhos e cabeça”, afirmou Pietro Brambilla, mostrando os equipamentos utilizados no processo. Depois de limpa e restaurada, a taça recebe novamente um banho de ouro. Ou melhor: três. “São três demãos, entremeadas por uma limpeza feita com bicarbonato de sódio”, contou.

Desde que a taça Jules Rimet foi aposentada, esta é a primeira Copa que a Itália não disputa – das outras duas vezes em que a Azzurra ficou fora do Mundial, em 1930 e 1958, antes, portanto, de 1970. “Estamos tristes, mas pelo menos sabemos que a taça do mundo é nossa”, brincou o artesão Salvatore Iannetti, de 48 anos. “Quanto à nossa seleção, melhor ficar de fora do que passarmos vergonha. Precisamos renascer”.