Museu Pelé completa um ano com prejuízo de R$ 290 mil

Com acervo de 2.545 peças, o museu ocupa o Casarão do Valongo, imóvel de aproximadamente 4.200m² na região central de Santos

São Paulo – A história de Pelé está ao alcance de todos em Santos, no litoral sul de São Paulo. Mas a visita ao Museu Pelé, que completa um ano de existência nesta segunda-feira e acumula prejuízo de R$ 290 mil, deve ser feita sem pressa, porque o espetáculo está no detalhe.

Para amantes do futebol e fãs do Rei, e até mesmo para quem não entende nada sobre o assunto, descobrir cada espaço, frase, vídeo e fotografia é fundamental para entender de que forma Edson Arantes do Nascimento se tornou Pelé, e sobre como o jogador virou referência internacional, ícone e personagem incontestável do esporte mundial.

Com acervo de 2.545 peças, que serão apresentadas aos poucos, em mostras temporárias, o museu ocupa o Casarão do Valongo, imóvel de aproximadamente 4.200m² na região central da cidade, próximo às docas do porto.

O prédio de estilo neoclássico erguido em 1865, onde funcionaram Prefeitura de Santos e Câmara Municipal, foi praticamente reconstruído. Fechado desde 1939, o casarão sobreviveu a dois incêndios e suas ruínas simbolizavam a degradação e a decadência da área, agora revitalizada.

“O Valongo é o centro cultural da cidade e, com os cruzeiros marítimos trazendo muitos visitantes brasileiros e estrangeiros, não tem lugar melhor do que esse para abrigar o museu”, afirmou Pelé à reportagem, por e-mail, durante pausa nos compromissos em Londres.

Ele disse acompanhar a evolução do projeto e aposta em uma coordenação de ações com os navios de turismo que atracam no Terminal Marítimo de Passageiros Giusfredo Santini – que recebeu mais de 700 mil pessoas entre 2013 e 2014 – para alavancar a frequência.

“Trabalhamos com operadoras e agências de turismo para criar produtos que envolvam o Museu Pelé e o Memorial das Conquistas (na Vila Belmiro). Os passageiros dos navios de cruzeiros já encontram um estande da secretaria de Turismo para divulgação dentro do terminal de passageiros”, diz José Eduardo Moura, diretor do Museu.

“Depois da Copa do Mundo, a frequência caiu um pouco, mas vai melhorar com a Olimpíada”, defendeu Pelé. E foi exatamente o Mundial de 2014 que serviu como primeiro teste, após a inauguração às pressas no dia 15 de junho do ano passado, com investimento de R$ 50 milhões (65% de patrocinadores e o restante dos governos federal, estadual e municipal) e obras aceleradas nos últimos dois meses antes da inauguração.

“Recebemos 1.700 pessoas por dia na época da Copa. Estava sempre cheio. Após o Mundial e a crise financeira, a expectativa foi revista e o número atual está dentro do crescimento planejado, que é de 120 mil pessoas no primeiro ano.

A frequência em dias mais fracos é de 100 pessoas. Desde a inauguração, já recebemos 80 mil visitantes”, destaca Moura.

Alegra Santos 

Segundo a Prefeitura de Santos, a construção do Museu Pelé está diretamente relacionada ao “Alegra Centro”, programa criado 2003 para revigorar o centro histórico da cidade, a partir da revitalização de casarões antigos e da ocupação da região, inclusive com a oferta de incentivos fiscais a empresas, como descontos no IPTU e outros.

Apesar do projeto, no entorno do museu ainda há muito para ser recuperado. E existe uma evidente preocupação da administração municipal com a segurança na região, que ainda abriga muitos moradores de rua e usuários de drogas.

Desde a inauguração, foram instaladas três câmeras de monitoramento na área externa do Museu Pelé e outras 62 em todo o Centro, totalizando 100 equipamentos de vigilância.

“Serão oferecidas ainda neste semestre visitas ao equipamento para grupos de vulnerabilidade social atendidos por associações filantrópicas”, explica o diretor do Museu.

A vida do Rei

Dentro do casarão a viagem é outra. E começa em uma área chamada de Linha do Tempo, que conta tudo sobre Pelé, desde o nascimento em Três Corações (MG), passando pela mudança para Bauru (SP) e o começo no futebol, até a cerimônia de entrega da Bola de Ouro em janeiro de 2014, na Suíça.

Neste espaço, uma sequência de eventos resgata cada situação importante, cada fato fundamental, com a apresentação de objetos como o rádio que João Ramos do Nascimento, o seu Dondinho, pai do Rei, usava para escutar jogos da Copa de 1950, a caixa de engraxate que Edson carregava ainda criança, além de muitas camisas, chuteiras, medalhas e fotos, com destaque especial para o troféu de Atleta do Século, homenagem do jornal francês L’Équipe, em 1980, e para os diversos filmes que podem ser acompanhados com fones de ouvido.

No centro do salão, uma mesa interativa permite ao visitante navegar pelos países onde Pelé jogou.

Três exposições temporárias estão em cartaz atualmente. A maior delas, batizada de “Quatro Copas e Um Rei”, ocupa vários andares.

São dezenas de peças, como uma réplica da Taça Jules Rimet, 13 filmes e muitas fotos sobre as Copas de 1958, 1962, 1966 e 1970, além do mundial de 1950, disputado no Brasil, aquele em que Pelé viu o pai chorando, ao ouvir a derrota brasileira (no mesmo rádio exposto na Linha do Tempo), e prometeu que um dia seria campeão do mundo.

Em outra mostra estão fotografias, até então inéditas, de José Dias Herrera, profissional que acompanhou a carreira de Pelé desde o começo, a partir do primeiro dia na Vila Belmiro.

Esta parte do museu pode ser considerada também uma homenagem ao fotógrafo, que faleceu em 2010, pouco antes de completar 90 anos.

No espaço interativo, os amantes do futebol esquecem da vida e passam horas assistindo ao documentário exibido em um auditório com 100 lugares, batendo pênaltis contra um goleiro digital – que comemora as bolas defendidas -, disputam provas de velocidade para tentar superar as marcas do Rei durante seu tempo de profissional, praticam dribles em um pequeno campo marcado por cones iluminados, acompanham projeções especiais que simulam um vestiário, e até desafiam um amigo, ou os próprios conhecimentos, durante um jogo de perguntas e respostas.

Há também um espaço para uma “foto com Pelé” (incluído digitalmente) e um telão no qual o visitante pode registrar sua passagem, publicando uma imagem no Instagram com a hashtag #museupele.

De acordo com a AMA Brasil, gestora do Museu Pelé, desde o começo havia a ideia de estabelecer parceria com o Santos e com os outros equipamentos públicos da cidade, para a criação de um circuito cultural único.

Foi essa meta que motivou o uso da marca do museu na camisa da equipe nas duas partidas da final do Campeonato Paulista deste ano. “Foi uma oportunidade de concretizar esta relação entre o Museu Pelé e o time que revelou o Rei do Futebol para o cenário mundial”, explica José Eduardo Moura.

“Também estamos criando, junto com o Santos, um ônibus que trará visitantes de São Paulo para um tour único entre as instalações da equipe e o Museu Pelé”, diz.

Prejuízo de R$ 290 mil 

Segundo Moura, o objetivo do projeto não é obter retorno financeiro do investimento, mas sociocultural. Estudantes da rede pública não pagam entrada.

Funcionários públicos, alunos de escolas particulares, idosos, pessoas com deficiência e seus acompanhantes pagam meia. O preço da entrada é de R$ 18. Em uma comparação direta, o Museu do Futebol, em São Paulo, cobra R$ 6 e inclui uma visitação ao Estádio do Pacaembu.

O projeto do Museu Pelé foi desenvolvido com apoio da Lei Rouanet (8.313/1991).

Entre novembro de 2014 e janeiro de 2015, o equipamento contabilizou despesas de R$ 456.782,52 e teve receita de R$ 166.424,00 com a bilheteria (um buraco de R$ 290.358,52). Atualmente, a diferença é totalmente bancada pela AMA Brasil.

A captação de R$ 11 milhões, por meio da Lei Rouanet, já foi aprovada, mas a fase ainda é de prospecção. Segundo José Eduardo Moura há uma dificuldade agravada pela crise econômica em obter os patrocínios necessários para dar início a projetos.

Acessibilidade

Apesar da pessoa com deficiência pagar metade do valor da entrada, o Museu Pelé tem poucos recursos de acessibilidade, limitados a rampas e elevadores no salão do acervo, placas com informações em braille (para pessoas com deficiência visual) nas rampas e nos elevadores, além de banheiros acessíveis.

Havia intérpretes em Libras (Língua Brasileira de Sinais), mas esses profissionais não atuam no momento.

Faltam recursos como audiodescrição em filmes e projeções, pisos táteis, alto-relevo em imagens, assim como versões em braile e Libras dos textos que acompanham quase todos os itens.

“Entregamos os recursos de acessibilidade presentes no acervo do museu por causa da antecipação da abertura no período da Copa. Há previsão de inclusão para quando as peças do acervo forem trocadas. Por enquanto, não há data definida”, afirma Moura.