Municipal de SP terá programação mais simples e variada

A programação foi fechada, por enquanto, para o primeiro semestre e inclui duas óperas em versão de concerto

São Paulo – O Teatro Municipal de São Paulo abre sua primeira temporada sob o comando do diretor artístico Cleber Papa esta semana, com dois concertos sinfônicos, na sexta-feira e no sábado.

A programação foi fechada, por enquanto, para o primeiro semestre e inclui duas óperas em versão de concerto, sem cenários ou figurinos – a expectativa é de ter espetáculos completos apenas no segundo semestre. Ao todo, serão 108 apresentações até junho.

“Foi uma opção nossa. O orçamento de R$ 90 milhões está comprometido com pagamentos de salários. Para produzir óperas logo de cara, seria preciso fazer demissões e foi algo que evitamos”, diz Sturm, que, em entrevista recente, revelou planos de alteração no modelo de gestão do teatro.

Os concertos dos dias 18 e 19 serão comandados pelo novo regente titular Roberto Minczuk e terão obras de Villa-Lobos e Mendelssohn.

As duas óperas em concerto serão “Fidelio”, de Beethoven, e “A Danação de Fausto”, de Berlioz (os títulos do segundo semestre incluem Salvador Rosa, de Carlos Gomes).

Para Papa, o objetivo a partir de agora é fortalecer a imagem do Municipal como o “principal palco” da cidade.

“O teatro é um palco de concertos, balé e ópera, formas que podem e devem dialogar em todas as suas possibilidades. É preciso pensar o Municipal dentro das particularidades de cada conjunto, como um todo. E entendendo que a relação com a população tem que ser contínua.” diz.

Algumas novas séries foram criadas com esse objetivo. Nas segundas e terças-feiras, o teatro vai abrigar o Happy Hour, com apresentações curtas no fim da tarde. Recitais solo e de pequenos conjuntos serão a atração nas quartas-feiras.

O Balé da Cidade, agora dirigido por Ismael Ivo, deve começar a se apresentar também às tardes durante a semana. Aos sábados, haverá espetáculos pensados para o público infantil e adolescente. Nos domingos, voltam os concertos matinais.

“Esta linha de ação vai permitir alguns testes. Há um público entre 22 e 35 anos, que tem um perfil específico. São pessoas interessadas em cultura, que querem conhecer coisas novas, compram ingressos por impulso. O Municipal precisa estar no radar delas e fazer isso acontecer é responsabilidade nossa”, diz Papa.

Segundo o diretor, é importante também pensar o Municipal “fora da caixa cênica”.

Os corpos estáveis devem fazer apresentações em centros de cultura e teatros de bairro, em parceria com grupos locais. E já está em negociação uma parceria com a Fundação CASA para a criação de um projeto de formação musical para os internos.

“Precisamos ter em mente que o Municipal é um organismo vivo. Ninguém aplaude um prédio. Isso significa a valorização do artista da casa e sua inserção na comunidade de outra forma. O Municipal, assim, se revela para a cidade, cuja imagem acaba se fortalecendo.”

O objetivo é que a relação com as escolas municipais de música e bailado também se intensifique. Como exemplo, Papa cita o caso do Opera Studio.

“Queremos esses alunos participando da temporada, cada um dentro das suas possibilidades, fazendo figuração, atuando com o coro ou cantando pequenos papéis. É uma prática que com o tempo será estendida a todas as escolas e cursos.”

Papa tem sua trajetória ligada de maneira íntima à ópera. Criou o Festival Amazonas de Ópera, em Manaus, o Festival do Theatro da Paz, em Belém, nos últimos anos trabalhou no Ópera Curta, projeto de circulação de produções pelo interior do Estado. O gênero, ele diz, deve ser compreendido como “parte de nossa origem”.

“As primeiras políticas públicas de cultura no Brasil foram para a ópera, ainda no século 18. A convivência com essa linguagem faz parte de nossa gênese como povo. A ópera é uma linguagem contundente, fala com múltiplas formas de arte e dialoga com o dia a dia das pessoas.”

As últimas gestões, ainda que tenham produzido bons espetáculos, falharam na criação de um esquema sólido de produção. Papa acha possível, nos próximos anos, chegar a 12 ou 14 títulos por temporada, com produções novas e outras sendo repetidas.

“Para tanto, é preciso mudar uma chave. A central técnica de produção hoje armazena figurinos mas os cenários tornaram-se um amontoado de entulho. Para se fazer um teatro de repertório, é preciso ter isso em mente quando se trabalha. Temos, por exemplo, que, ao montar a temporada, pensar em alguns títulos que possam compor este repertório e encontrar soluções para que sejam reaproveitadas”, explica.

Nos planos está também a montagem de um corpo estável de solistas, sob responsabilidade do maestro Mário Zaccaro. Papa também levou de volta ao teatro o maestro Jamil Maluf, que reassume a Orquestra Experimental de Repertório.

“Há um tripé básico a ser observado em tudo o que fizermos. Primeiro, o gerenciamento harmonioso de pessoas. Em segundo, a compreensão que o belo é de ordem estética mas também deve estar na ética dos comportamentos. E, por fim, a visão da realidade, o reconhecimento das dificuldades do momento atual e da possibilidade de buscar alternativas”, diz Papa.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.