Michael J Fox, o homem mais importante do mundo agora

Quem não se emocionar com o vídeo em que o ator, vítima de Parkinson, toca guitarra como um profissional pode marcar um psiquiatra para amanhã cedo

São Paulo – Em 1985, o canadense Michael J. Fox virou namoradinho da América ao viver Marty McFly, um garoto de 17 anos que viaja no tempo. Ficção científica, filme de high school, comédia romântica, videoclipe — De Volta para o Futuro era tudo isso. No filme, Fox toca (ele é guitarrista desde a infância) Johnny B Goode, sucesso de Chuck Berry. No vídeo, 26 anos depois, Fox usa o mesmo figurino, a mesma guitarra, o mesmo rosto de traços pueris, para interpretar a mesma canção.

Mas há algo de diferente. Algo invisível. Em 1991, Fox foi diagnosticado com mal de Parkison, uma doença neurodegenerativa que leva à perda do controle sobre o corpo. Em 1998, no ponto em que não dava mais para disfarçar os espamos, abandonou a série de sucesso Spin City (deu o papel para Charlie Sheen, que viu sua carreira ser reacesa) para se cuidar.

Desde então, fez poucas aparições. Algumas pontas em seriados de humor e a eventual aparição num talk show. Trabalhou mesmo atrás das câmeras, na The Michael J Fox Foundation, uma ONG que acumula recursos para financiar grupos que buscam uma cura para o Parkinson.

Desde o início do ano, não se sabe se devido a alguma melhora, Fox faz aparições frequentes na mídia. Participou de um episódio da série Curb Your Enthusiasm, do co-criador de Seinfeld Larry David, interpretando a si mesmo. Com senso de humor afiadíssimo, fez piadas memoráveis usando como mote o próprio mal de Parkinson.

Ele também foi o mestre de cerimônias de um leilão feito em parceria com a Nike, que confeccionou o tênis usado por ele no filme De Volta Para o Futuro Parte II. Foram 1 500 tênis vendidos por inacreditáveis 4,7 milhões de dólares.

A última de Fox foi tocar num concerto beneficente a guitarra solo de Johnny B Goode. Algo impensável para alguém que há 20 anos tem Parkinson.

E digno de algumas lágrimas.

A canção tem um riff simples, quase primitivo, que Berry usou quase igual em Roll Over Beethoven — e que o George Harrison conseguiu tocar (muito) errado no cover desta música no álbum With the Beatles. O jeito como Fox empurra o braço da guitarra para o lado em que o corpo treme é ao mesmo tempo um testamento da dignidade com que ele convive com a doença e também um retrato da tragédia das doenças neurodegenerativas.