“Kingsman” é uma caricatura exageradamente violenta dos filmes de agentes secretos

Inspirado em uma HQ de Mark Millar, filme tem Colin Firth no papel de agente secreto, Taron Egerton como aspirante a espião e Samuel L. Jackson como vilão

Os filmes clássicos de James Bond definiram um estereótipo de espião que dificilmente será superado. O agente 007 é um legítimo cavalheiro, bem vestido e equipado e preparado para as piores situações possíveis. Mesmo Daniel Craig, que fez uma versão mais “rústica” do protagonista nos últimos filmes, segue essa linha de elegância – que é também uma das principais características trabalhadas por Colin Firth em seu personagem de Kingsman: Serviço Secreto (20th Century Fox, 2014), que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira.

Inspirada em uma HQ de Mark Millar e Dave Gibbons – mas sem segui-la à risca –, a obra coloca o ator do excelente O Discuro do Rei no papel do agente Harry Hart (ou Galahad), integrante de um seleto grupo de espiões chamado de Kingsman. A agência secreta liderada por Arthur (papel de Michael Caine) funciona de forma independente de todo e qualquer governo, e por isso age acima de qualquer outra similar, como CIA ou KGB.

Seus membros, que carregam como pseudônimos as identidades dos cavaleiros da Távola Redonda do Rei Arthur, são todos cavalheiros bem trajados e educados, que lembram muito em postura o Rei George VI do outro trabalho de Firth. Mas apenas na postura mesmo. Como bons agentes que são, os Kingsmen carregam apetrechos tecnológicos de todos os tipos – aos moldes de James Bond – e são mestres no manuseamento de armas e em artes marciais.

É nesse mundo secreto que cai o jovem desempregado Eggsy (Taron Egerton), filho de um agente morto em combate e candidato à vaga deixada por outro finado, Lancelot. O garoto é convidado por Hart – que conheceu seu pai – para participar dos testes para entrar no grupo. E é entre as provas e um potencial apocalipse provocado pelo bilionário do mundo da tecnologia Richmond Valentine que se desenrola toda a trama do filme de espionagem – que faz questão de dizer, ao menos duas vezes, que não é igual aos outros mais tradicionais.

Soa pretensioso, mas Kingsman realmente não guarda tantas semelhanças com alguns Bonds clássicos, por exemplo. Vemos o suficiente para fazer o filme soar como uma caricatura de algo que já é caricato por si só, mas é isso. Temos agentes com ternos sempre alinhados, alguns políticos, governantes e outras pessoas importante em perigo, missões de resgate, um vilão (ótimo, neste caso) com um plano bizarro e apocalíptico que vai afetar o mundo todo e sua assistente letal (Gazelle, uma versão da atriz Sofia Boutella com lâminas no lugar das pernas).

Os elementos clássicos de um filme de agente secreto, no entanto, ficam quase todos em segundo plano diante da violência exacerbada em toda a história. É algo que já vimos em Kick-Ass, por exemplo, que é adaptação de uma HQ do mesmo autor, Millar, dirigida pelo mesmo diretor, Matthew Vuaghan. Mas também é algo que, ainda assim, aproxima a fita mais de um Kill Bill do que de um Mercenários 2 ou um Duro de Matar 4, para ficar com dois exemplos.

Não vemos explosões megalomaníacas, e sim cenas de combate monumentais. Em uma delas, por exemplo, o agente Galahad mostra um outro lado de Colin Firth e destrói toda uma igreja fundamentalista (e seus adeptos) depois de perder o controle sobre si mesmo. Há tiros, golpes com machados e livradas regados pelo clássico “Free Bird”, do Lynyrd Skynyrd, em um momento ainda mais brutal (e ao mesmo tempo cômico e extravagante) do que a também excelente luta de Uma Thurman contra os 88 Loucos na fita de Tarantino. E pelo decorrer da história, também vemos cabeças explodindo e muito mais sangue.

A riqueza no roteiro e a qualidade da fotografia, porém, não são exatamente comparáveis entre os longas-metragens de Vaughan e Tarantino, e o próprio Kingsman reconhece essa primeira parte quando Galahad brinca com referências a outros filmes.

São vários clichês: Eggsy é um jovem pobre, criado em uma família problemática, que tem a chance de subir na vida, enquanto o agente de Firth serve como uma figura paterna. Os testes para entrar na organização Kingsman são os obstáculos entre o protagonista e um sonho realizado, enquanto o grupo de outros candidatos à vaga de agente traz seus rivais e seu aparente amor platônico. O vilão, por fim, parece ser só mais um maníaco.

Boa parte dessas obviedades, porém, acaba sendo jogada para o alto com o passar dos minutos. Para citar só dois exemplos [alerta de spoiler], a potencial parceira do protagonista, a outra aspirante Roxy (papel de Sophie Cookson), é substituída no final pela bela princesa escandinava Tilde, interpretada por Hanna Alström. Richmond Valentine, por sua vez, é um vilão perturbado, que quer acabar com quase toda a população mundial, mas que estranhamente não gosta de sangue e violência [fim do spoiler].

Esses desvios ainda assim fazem o filme culminar em um desfecho que, se não é óbvio, é ao menos o esperado. Não é ruim, mas também não é tão ousado, marcante ou mesmo elegante quanto vários outros aspectos do longa-metragem – que ainda assim diverte bem mais do que muitas outras obras tão ou mais violentas que ela. Isto é, desde que não seja levada a sério.