Hitler era paranoico, afirma análise britânica secreta

O relatório foi escrito em 1942, e não foi lido desde a guerra até sua descoberta recente

Londres – Adolf Hitler tinha um “complexo de Messias” e se tornou cada vez mais obcecado com o “inimigo interno” judeu enquanto a Segunda Guerra Mundial se voltava contra a Alemanha, de acordo com uma avaliação secreta de 1942 divulgada nesta sexta-feira.

O relatório da inteligência britânica, que aparentemente não foi lido desde a guerra até sua descoberta recente, afirma que o ditador nazista passou a ter “judeufobia” à medida que a possibilidade de uma derrota aumentava.

A análise do tempo de guerra, agora tornada pública pela Universidade de Cambridge, foi encomendada pelo cientista social Mark Abrams e escrita por seu colega Joseph MacCurdy, um acadêmico de Cambridge.

Abrams, um pioneiro da pesquisa de mercado e de opinião renomado internacionalmente, trabalhou com a Unidade de Análises de Propaganda da BBC e com o Conselho de Guerra Psicológica durante a Segunda Guerra Mundial.

“No momento em que isso foi escrito, a maré estava começando a se voltar contra a Alemanha”, afirmou o historiador de Cambridge Scott Anthony, que liderou a pesquisa sobre Abrams que resultou na descoberta do documento em uma coleção de família.

“Em resposta, Hitler começou a voltar suas atenções para o front interno da Alemanha”, disse.

“Este documento mostra que a inteligência britânica sentiu que isto acontecia”, explica.

“MacCurdy reconheceu que, diante do fracasso exterior, o líder nazista se concentrou em uma percepção de ‘inimigo interno’ – especificamente os judeus”.

“Dado que agora sabemos que a ‘solução final’ estava começando, isto torna uma leitura comovente”.


Abrams pensou que as transcrições dos discursos de Hitler poderiam ser percebidas como propósitos de propaganda e inteligência, revelando um “conteúdo latente” escondido e percepções subconscientes da mente do inimigo.

“Seu trabalho foi utilizado diretamente pela contra-propaganda dos aliados”, explicou.

A análise recém-exibida apresenta um discurso de rádio de Hitler do dia 26 de abril de 1942.

“Seu conteúdo presumivelmente reflete suas tendências mentais mórbidas, por um lado, e conhecimentos especiais disponíveis para ele, por outro”, afirmam as linhas iniciais.

Um relatório anterior encontrou três tendências deste tipo, chamadas de “xamanismo”, “epilepsia” e “paranoia”.

O “Xamanismo” se refere à histeria de Hitler e à compulsão de se alimentar de multidões, o que estava em declínio. O relatório de MacCurdy apontava para o “nivelamento maçante” das trasmissões de Hitler.

As outras duas eram características em desenvolvimento.

A “Epilepsia” se referia a sua camada fria e cruel, combinada com uma tendência de perder o ânimo quando suas ambições falhavam. A análise de MacCurdy aponta que o discurso de Hitler mostrou que ele era “um homem que está contemplando seriamente a possibilidade de derrota absoluta”.

A “Paranoia” foi a terceira e mais preocupante tendência, exposta por meio de um “complexo de Messias” do ditador, através do qual Hitler pensou que estava conduzindo um povo escolhido em uma cruzada contra o mal encarnado nos judeus, afirma o documento.

Ele observa uma extensão da “judeufobia” e afirma que Hitler passou a ver os judeus não apenas como uma ameaça para a Alemanha, mas como um “agente universal diabólico”.

Sabe-se agora que, semanas antes do discurso, autoridades nazistas colocaram em andamento planos para a “solução final”: a tentativa de extermínio de toda a população judaica.

“Hitler está envolvido em uma teia de delírios religiosos”, concluiu MacCurdy.

“Os judeus são a encarnação do diabo, enquanto ele é a encarnação do espírito do bem”.

“Ele é um deus e através de seu sacrifício a vitória sobre o mal pode ser alcançada”, explica.

O documento foi adicionado a um arquivo sobre o trabalho de Abrams na Universidade de Cambridge e agora está disponível para os pesquisadores.