Han Solo: o cinema como pura aventura

O diretor Ron Howard e os atores do filme falam sobre o desafio de criação de um personagem icônico criado por Harrison Ford para a saga Star Wars

LOS ANGELES – Em 1972, depois do fiasco de bilheteria de seu primeiro filme, o sci-fi cabeça THX 1138, George Lucas resolveu aceitar o desafio de seu amigo e mentor Francis Ford Coppola, e fazer “um filme pessoal, mas que agradasse às plateias.” Lucas prontamente escreveu o que viria a ser American Graffiti – um tributo à sua adolescência numa pequena cidade do interior da Califórnia, onde passear de carro e apostar corridas eram as principais ocupações da garotada. Porque o orçamento do projeto – bancado por Coppola – era minúsculo, o elenco não podia ter estrelas. Depois de semanas de testes, um grupo de desconhecidos foi escalado. Entre eles, Richard Dreyfuss, Harrison Ford e Ron Howard.

“Não é incrível?”, Ron Howard diz, 46 anos depois. “Quis fazer American Graffiti para provar que eu não era só um ator infantil. E acabei amigo para a vida toda de George Lucas e Harrison Ford.” O que explica aquele momento, em junho de 2017, quando, depois de seis meses de filmagens do que viria a ser Han Solo: A Star Wars Story, Kathleen Kennedy, presidente da LucasFilm, e os executivos da Disney, decidiram que os diretores Phil Lord e Christopher Miller não estavam fazendo um bom trabalho e precisavam ser substituídos urgentemente.

“Foi sorte”, Howard diz. “Eu estava em Londres (o filme estava sendo rodado nos estúdios Pinewood, na capital inglesa) por conta de outros assuntos da Imagine (produtora de Howard e Brian Grazer) quando Kathy me ligou contando o que tinha acontecido. Nos encontramos para um café da manhã. Eu fiquei muito relutante. Kathy queria que eu entrasse no projeto e Larry (Kasdan, roteirista de Han Solo e de O Império Contra-Ataca) tinha me recomendado desde o começo. Mas eu nunca tinha participado de um projeto que eu não tivesse desenvolvido desde o primeiro momento. E tinha  – e tenho – o maior respeito pelo trabalho de Phil e Chris. Eles são brilhantes, muito talentosos.”

E foi assim que, depois de mais algumas conversas, Ron Howard se viu de volta ao mundo do amigo George Lucas (para quem ele havia dirigido Willow, em 1988), pilotando um projeto cujo personagem central havia sido criado pelo seu colega de elenco em American Graffiti, Harrison Ford.

Não por acaso, ainda mais considerando as presenças de Howard e Kasdan, Han Solo:A Star Wars Story começa com uma sequência que pode ser descrita como um racha de carros num planeta distante.

“O roteiro de Larry foi o que me convenceu a pegar o projeto”, diz Howard. “Cheguei ao set com um certo distanciamento, mas ao mesmo tempo pensando em qual era o melhor modo de oferecer minha experiência e orientação. Mas não demorou para que eu me apaixonasse pelo roteiro, pelo elenco e pela equipe. E de repente eu vi que o filme estava se tornando muito pessoal, muito próximo de mim.”

O problema que Howard foi chamado para resolver tinha vários aspectos. Um era o fato de Phil Lord e Christopher Miller, cujos filmes anteriores eram essencialmente cômicos (21 Jump Street, The Lego Movie, 22 Jump Street, Cloudy With a Chance of Meatballs), e a visão de Kathleen Kennedy e da Disney para Han Solo era a de “um filme de ação, dentro dos moldes do universo Star Wars, com elementos divertidos.”

Donald Glover faz o papel de Lando Calrissian, parte integral do cânon Star Wars

O outro era o jovem Han Solo em pessoa – Alden Ehrenreich, escolhido entre dezenas de atores – entre eles  Miles Teller, Ansel Elgort, Dave Franco, Jack Reynor, Scott Eastwood, Logan Lerman, Emory Cohen e  Blake Jenner. Ainda na administração Lord & Miller um coach de atuação foi chamado para trabalhar com Ehrenreich. E, quando Howard tomou as rédeas, muitas cenas já filmadas foram postas de lado.

Aos 29 anos Ehrenreich tem uma década de trabalho, começando com (outra coincidência) com Tetro, de Francis Ford Coppola, em 2009, e chamando a atenção em Hail, Caesar, dos irmãos Coen, em 2016. “O lance do coach de atuação foi exagerado”, Ehrenreich diz. “Ele é um profissional que trabalha regularmente em sets de filmagem, como um suporte para o elenco. Ele estava lá disponível para todos nós”.

Num outro tipo de apoio, Ehrenreich recebeu uma visita inesperada enquanto fazia entrevistas para televisão, no mesmo espaço cavernoso do Centro de Convenções de Pasadena, onde a Disney se aquartelou para a maratona promocional do filme: Harrison Ford, que interrompeu o jovem Han Solo com um abraço e, diz Ehrenreich, “uma longa conversa não necessariamente sobre Han Solo mas sobre a carreira dele, a vida dele. Ele sempre disse, em entrevistas, inclusive, que seja quem fosse que fizesse o papel não devia pensar nele, mas fazer um trabalho pessoal, criando o seu Han Solo. Foi o que eu quis fazer.”

Aliás, Ford – que Ron Howard descreve como “super calmo e super carismático, desde American Graffiti” – já viu o filme duas vezes e, segundo Ehrenreich, “adorou”.

“Meu Han Solo não sabe ainda que ele é Han Solo”, Ehrenreich diz. “Ele ainda está descobrindo

quem ele é. Ele tem certeza de apenas uma coisa: algo transcendental acontece com ele quando ele está pilotando. Algo no ato de voar faz com ele se defina, ache seu lugar no mundo.”

Dois nomes se destacam no elenco de apoio de Han Solo:A Star Wars Story: Emilia Clarke, mais conhecida como Daenerys Targaryen, da série Game of Thrones, e Donald Glover, criador e protagonista da premiada série Atlanta, e, no mundo da música, conhecido como Childish Gambino. Clarke é Qi’ra, namorada do jovem Solo, e Glover é Lando Calrissian, parte integral do cânon Star Wars como o primeiro dono e piloto da icônica Millenium Falcon – e a história de como a Millenium Falcon passa às mãos de Han Solo, citada e mencionada ao longo da saga, é finalmente contada em detalhes, neste filme.

“Trabalhar em Game of Thrones, a esta altura, é como revisitar uma família muito querida, que me viu crescer”, diz Clarke. “Neste filme eu me senti como alguém que está entrando num conto de fadas, um ambiente encantado, repleto de mitos e histórias que você ouviu a vida toda. Mas agora eu estava lá! Com Chewbacca! Na Millenium Falcon! Muitas vezes eu me sentia como se estivesse com seis anos de novo.”

“Meu pai é fanático por Star Wars”, Glover conta. “Cresci ouvindo mais histórias de Star Wars do que da Bíblia! Meus primeiros bonecos foram um Darth Vader e um Lando Calrissian que meu pai me deu. Eu imediatamente quebrei o sabre de luz do Darth Vader e tentei colar no Lando. Acho que me identifiquei com Lando imediatamente. Lando é um sedutor. E eu me considero meio um sedutor, também. Lando compreende que todo mundo quer ser amado. Han é meio um caubói que quer resolver as coisas já, imediatamente, na briga. Mas Lando sabe que doçura e sedução vão mais longe”

No fim da longa jornada pela galáxia distante, Ron Howard está mais que aliviado: está satisfeito. “No começo este projeto era, para mim, um desafio criativo, um exercício de realização de cinema”, ele diz. “Mas rapidamente ele se tornou o meu filme – e minha visão até que não está muito distante da minha experiência em American Graffiti: esta é a história de um grupo de jovens, ainda super emotivos, inseguros, buscando uma conexão entre si e com um mundo muito complicado à volta deles. Isso me deu uma nova energia – a alegria de redescobrir o cinema que fala direto com as plateias, o cinema como pura aventura.”