Fuja dos enoidiotas e beba seu vinho em paz!

Enoidiota não é sinônimo de enochato. O termo define quem entende pouco de vinho e usa as informações que tem para conseguir status -- de maneira arrogante

casal tomando vinho piquenique

 (Pixabay/Reprodução)

Munido de uma taça de vinho, age como se fosse um professor da escola de enologia da Universidade de Bordeaux. Só ele sabe, só ele fala.

Quem não conhece um sujeito assim? Muitos o chamariam de enochato. Eu prefiro chamá-lo de enoidiota.

Enoidiota não é sinônimo de enochato. O termo define alguém que entende um pouco (algumas vezes bem pouco) de vinho e usa as parcas informações que tem como forma de conseguir status, sempre de  maneira arrogante.

Já a palavra enochato pode se referir também a alguém que realmente entende de vinho e apenas faz questão de beber bem.  Por sinal, já vem sendo usada à exaustão. Virou clichê!

Enoidiota define melhor o comportamento de certas pessoas de capacidade intelectual limitada que se apoiam em frases feitas para parecerem superiores.

Não é difícil reconhecê-los, mesmo se você não entende de vinhos. Ele gosta de dizer que toma vinhos caros. “Meu preferido é o Brunello di Montalcino”, “Bom mesmo é o Almaviva” ou “Outro dia tomei um Vega Sicilia maravilhoso” são frases que se encaixam à perfeição em sua boca.

Quem de fato estuda vinhos percebe que ele prefere citar marcas, como é o caso do Almaviva (Chile) e do Vega Sicilia Unico (Ribera del Duero, Espanha), a tratar de regiões.

Quando cita denominações de origem, escolhe as pouco subdivididas, que produzem poucas variações, como é o caso da DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) Brunello di Montalcino.

Não é raro o tonto se apegar a uma uva como a uma muleta. A cabernet sauvignon foi por muito tempo a  preferida dos enoidiotas, que tinham ouvido falar que ela era a uva dos grandes bordeaux.

Depois veio a malbec e seus vinhos redondos. A bola da vez é a primitivo, da Puglia, na Itália. Nove entre 10 enoidiotas hoje citam os vinhos Primitivo como seus preferidos.

Se você também gosta dessas uvas, não se sinta ofendido. Eu também gosto. Elas realmente entregam um bom resultado na média.

Essa não é a questão. A questão é que o enoidiota não entende sutilezas. Gosta apenas de potência. E a cabernet sauvignon, a malbec argentina e  a primitivo italiana costumam produzir vinhos potentes.

Conheci um sujeito que dizia não tomar vinhos com menos de 14 graus de álcool. Faz sentido. Álcool dá sensação de dulçor, deixa o vinho redondo, mais fácil para paladares menos elaborados.

Vinho

 (iStock/GettyImages/Reprodução)

Os vinhos Primitivo, aliás, fazem tanto sucesso, com enoidiotas e com o público comum, porque, apesar de encorpados, têm taninos macios. Produzidos sob o sol do Mediterrâneo, mostram aromas de frutas escuras, como ameixa preta e amora, maduras ou até em compota.

Enoidiotas também amam aromas como baunilha, coco e chocolate, que tornam evidente a passagem por barris de carvalho. Acham nobre.

Não têm a menor ideia de que, quando usada em vinhos que não têm estrutura para incorporá-la, a madeira acaba com a complexidade e o equilíbrio de um vinho, se sobressai demais e esconde todos os outros aromas.

Para o enoidiota, isso não faz diferença. Ele é péssimo na degustação mesmo! Cita aromas que não existem, faz a descrição de um vinho que não tem nada a ver com aquele que está na sua taça.

Para manter a pompa, ele se apega a marca, a denominação ou a uva que conhece melhor, com unhas e dentes. Torce o nariz quando alguém fala de algo que ele não entende. Faz cara de desprezo.

Não deixa quem sabe mais do que ele falar. Se for preciso, rosna. Usa o vinho como um instrumento para ser o alfa da matilha.

Vinho é um assunto complexo, cheio de detalhes, e ninguém sabe tudo. Só o tonto não percebe que não é demerito algum admitir desconhecimento.

A cara feia é para ninguém perceber sua ignorância. Mas fica difícil. Ele sozinho se entrega. Diz que ama Primitivo, mas erra na hora de localizar a Puglia no mapa da Itália.

É insegurança. Em geral, pega o vinho como trunfo o infeliz que não tem outra cultura para mostrar. Mas fuja dessa pessoa e tome seu vinho em paz!

Elegância é um conceito que não entra na cabeça do enoidiota

Vinhos mais gastronômicos, menos alcoólicos, menos encorpados, com a madeira menos evidente, não agradam os brucutus.

Se você quer se aproximar de fato do mundo do vinho, aprender com o principal objetivo de ter mais prazer, além dos blockbusters, procure conhecer também denominações tradicionais.

O Dão, em Portugal, é uma delas.

vinho Quinta de Saes tinto (Quinta da Pellada)

 (Reprodução/Divulgação)

Experimente os vinhos de Álvaro Castro, da Quinta da Pellada, um dos produtores que fazem vinhos de grande qualidade no Dão. Comece pelo tinto mais barato, o Quinta de Saes.

Um corte de touriga nacional, tinta roriz e alfrocheiro, tem aromas não tão exuberantes. Mas é complexo, ou seja, tem diversidade de aromas.

No nariz, aparecem frutas escuras, especiarias, um leve floral e muito mais. Na boca, tem corpo médio e taninos redondos. Custa R$ 134 na Mistral.

O mundo do vinho está sempre em movimento

Isso é difícil para o enoidiota assimilar, porque significa que terá de estudar de verdade ou aceitar a opinião de quem estuda.

Denominações de origem que nunca tiveram ou perderam prestígio podem crescer ou se recuperar. Podem investir em tecnologia de campo e vinificação e melhorar a qualidade média de seus rótulos.

É o caso do Chianti.

Região vitivinicola da Toscana, demarcada desde 1716, Chianti sempre teve um ótimo terroir. Até os anos 60, era conhecido pela qualidade de seus rótulos, mas decaiu quando optou por extrair quantidade em vez de qualidade.

O sucesso dos supertoscanos, no entanto, mexeu com os brios do Consórzio Vino Chianti (associação que reúne os produtores), que estabeleceu regras rígidas de produção no campo e na vinícola para garantir a qualidade, dando especial atenção a parcelas de terroir privilegiado.

Em 1996, foi criada a DOCG Chianti Classico, uma denominação que destacava a pequena região dentro de Chianti que rendia vinhos muito especiais.

De lá para cá, os Chiati Classicos só têm melhorado e hoje os seus melhores competem em pé de igualdade com Brunellos e supertoscanos.

Quer conferir? Experimente o Rocca delle Macie Chianti Classico Gran Selezione.

vinho Rocca delle Macie Chianti Classico Gran Selezione

 (Reprodução/Divulgação)

Um corte de 90% sangiovese e 10% colorino, com uma complexidade aromática incrível: frutas, especiarias, algo animal, algo terroso. Na boca é estruturado, com taninos rugosos, mas finos. Custa R$783 na Decanter.

As regras têm exceções, especialmente no mundo do vinho

Você já deve ter ouvido falar que os Beaujolais são todos vinhos muito simples, feitos da uva gammay, para serem bebidos geladinhos na beira da piscina.

Não é bem assim. Esse tinto levinho é o Beaujolais Noveau, um vinho que, por sinal, os enoidiotas dos anos 90 e começo dos 2000 amavam.

Nem todo Beaujolais, no entanto, é noveau. Há os simplesmente Beaujolais, os Beaujolais Villages, que já têm mais estrutura, e os Crus de Beaujolais, dez pequenas regiões demarcadas dentro da região de Beaujolais, que produzem vinhos excepcionais com a mesma uva gammay.

Cada cru gera vinhos com uma característica diferente. Gosto particularmente dos Morgon. São sérios, elegantes, com aromas de pimenta preta, alcaçuz, mineralidade.

Prove o Morgon do Domaine Lapierre, que custa R$ 228 na World Wine. É tido por muitos como o melhor.

 

vinho Morgon do Domaine Lapierre

 (Reprodução/Divulgação)

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