Filmes de época dominam indicações para o Oscar

Neste ano, dois terços dessa lista são compostos por filmes ambientados no passado

São Paulo – Das nove obras que concorrem ao Oscar de melhor filme, apenas três são passadas na última década, aquecendo o debate sobre como os conturbados tempos atuais favorecem cada vez mais a nostalgia.

No ano passado, apenas dois dos dez indicados ao prêmio eram obras de época – incluindo o vencedor, “O Discurso do Rei” – mas, neste ano, dois terços dessa lista são compostos por filmes ambientados no passado.

Para alguns, a preponderância dos filmes de época é apenas uma coincidência, mas outros veem um significado de apenas três deles — “Tão Forte e Tão Perto” (“Extremely Loud, Incredibly Close”) , “Os Descendentes” e “Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo” – se passarem no século XXI.

Todos os outros estão firmemente ancorados no século passado, desde a Primeira Guerra Mundial (“Cavalo de Guerra”) a movimentos em defesa dos direitos civis dos anos 1960 (“Histórias Cruzadas”), passando pela era do cinema mudo (“O Artista”) e os anos 1920 (“Meia noite em Paris”).

“Os estúdios acham que o público vai recebê-los melhor se tiverem algum tipo de ligação nostálgica”, explica Brent Simon, presidente da Associação de Críticos de Filmes de Los Angeles.


“Uma das vantagens de contar uma história do passado é que você pode ter uma visão sobre a sociedade atual”, acrescentou o produtor de “Histórias Cruzadas”, Brunson Green.

“O peso da história é maior e toca o público de um jeito diferente de um filme com uma história de ficção atual”.

Em “Histórias Cruzadas”, uma empregada negra em uma cidade do Mississipi aceita descrever sua vida para uma escritora branca, que coleta histórias pessoais semelhantes em um livro, dando força aos movimentos de defesa dos direitos civis de 1960.

“A essência dessa história ressoa em cada espectador, já que todos temos dúvidas sobre qual o nosso papel no mundo”, afirmou Green.

O escritor e professor da Escola de Artes Cênicas da Universidade do Sul da Califórnia, Jason E. Squire, acha que o grande número de filmes de época no Oscar deste ano é apenas uma coincidência.

“É muito tentador filosofar sobre todas essas decisões e eu não sei se isso pode ter algum fundo de verdade”, comentou.

“Nós podíamos dizer ‘Ah! É uma visão atual da economia’, quando os países ainda estão lutando para encontrar uma base econômica adequada, de modo que desencadeia um sentimento de nostalgia. Mas não estou muito certo de que isso seja verdade”, acrescentou.

“Pode ser uma coincidência. Nunca houve um projeto para a escolha de filmes de época. Na verdade, você pode pesquisar entre os filmes feitos nos últimos dez anos – os de época são certamente a minoria”.

Mais estranho, diz Squire, é que dois dos indicados – “O Artista” e a nova obra de Martin Scorsese, “A Invenção de Hugo Cabret” – contam histórias sobre o cinema.

“Isso nunca aconteceu”, destacou.

“Eu realmente acho que é uma coincidência, embora um tanto estranha”, concorda Kathleen Kennedy, produtora de “Cavalo de Guerra” e de todos os filmes de Steven Spielberg desde de “E.T.”.

“Por mais marcantes que sejam, não acho que seja algo que estamos propensos a ver de novo por algum tempo”.

No entanto, Simon destaca a tendência hollywoodiana de evitar questionar assuntos da contemporaneidade, preferindo adaptar desenhos, produzir remakes, sequências e prequels de filmes que não fogem da zona de segurança.

“Façam sucesso ou não, “filmes como “Os Descendentes e “Moneyball”, além de, claro, “Tão Forte e Tão Perto” têm algo a dizer sobre os tempos atuais, sobre o que vivemos agora”.

“Eu gostaria que houvesse mais filmes como esses. Para mim, isso nada mais é que Hollywood se esquivando do que deveria ser uma importante e assumida responsabilidade”, declarou.