Feira de moda masculina em Florença aponta a volta da alfaiataria

Pitti Uomo, feira voltada para compradores, em sua 97ª edição, aponta um retorno à moda mais tradicional

São Paulo — O primeiro esclarecimento necessário sobre a Pitti Uomo: trata-se de uma feira de moda masculina voltada essencialmente para o varejo. As semanas de moda tradicionais, em Londres, Milão, Paris e Nova York, são eventos de alta moda para formadores de opinião.

Jornalistas e clientes convidados das marcas comparecem aos desfiles nessas metrópoles para fazer carão e ver peças que estarão nas lojas meses depois. Na Pitti Uomo, as estrelas são os compradores, que viajam até a bucólica Florença a cada seis meses para fazer pedidos das roupas para serem revendidas mundo afora.

A Pitti Uomo acontece a cada seis meses na Fortezza da Basso, um forte do século XIV construído nas muralhas de Florença. Existe a temporada de verão e a temporada de inverno. No começo de janeiro aconteceu a 97ª edição, com exibição das peças das coleções outono/inverno. Os números totais serão divulgados na semana que vem, mas o balanço da edição passada dá uma ideia da dimensão do evento. Foram 36 mil visitantes nos quatro dias da feira, divididos em 24 mil retailers, 10 mil visitantes e 2 mil jornalistas e blogueiros.

Pelos corredores e salas montadas dentro do forte, as marcas se dividem como em uma loja de departamentos. Existe a seção de acessórios, a de calçados, a de perfumes, a de moda esportiva… Pejorativamente, os convidados são chamados de “peacocks”, ou pavões. Isso porque a maioria aproveita o evento como vitrine para desfilar toda sua extravagância. Lenço no pescoço, chapéu Fedora, sapato bicolor, meias coloridas, costume risca de giz, vale tudo. Às vezes ao mesmo tempo.

E aqui nota-se uma mudança gradual na moda masculina. Os pavões estão em extinção, pelo menos em Florença. Os excessos têm diminuído nas últimas edições da Pitti Uomo, assim como o chamado street style, a moda das ruas, vem arrefecendo. Nos últimos quatro ou cinco anos explodiu a venda de sneakers e camisões largos ao estilo rapper, e essa onda contaminou a moda formal.

Isso, somado ao estilo despojado do Vale do Silício, parecia decretar a morte da alfaiataria tradicional, aquela baseada essencialmente na tríade costume, gravata e sapato Oxford. Mas as duas últimas temporadas de semanas de moda apontaram, e a Pitti Uomo confirmou: a alfaiataria respira.

Evidência desse movimento foi o convite feito à Brioni, marca que é sinônimo da mais refinada moda masculina, para celebrar na Pitti Uomo seu aniversário de 75 anos. Florença tem um significado especial para a grife: em 1952, época em que o conceito de moda se aplicava exclusivamente ao universo feminino, a Brioni apresentou lá o primeiro desfile masculino da história. Dias depois da apresentação, a marca anunciou Brad Pitt como seu embaixador. Nas primeiras fotos divulgadas, lá estava o ator em um tradicionalíssimo black tie.

Desfile da Armani na Semana de Moda de Milão: alfaiataria clássica e predomínio do cinza

Desfile da Armani na Semana de Moda de Milão: alfaiataria clássica e predomínio do cinza (Giorgio Armani/Divulgação)

As semanas de moda europeia, que começaram na sequência da Pitti Uomo, confirmaram a tendência. Em Milão, a Dolce & Gabbana, que vinha de alguns anos de excesso de elementos de streetwear e cultura pop, como sneakers super chamativos e desenhos de quadrinhos, voltou a exibir o melhor da alfaiataria clássica, com casacos grandes cobrindo ternos bem cortados. A Ferragamo desfilou costumes com calças amplas, como tantas outras grifes – ao que parece, a ditadura do slim está mais branda. A Prada também deu preferência ao conforto, em peças sofisticadas e destaque para os suéters. A Armani, como sempre, brilhou pela sofisticação com pequenos toques de irreverência e predomínio de cinzas e quadriculados.
Em Paris, a Valentino apresentou costumes amplos e confortáveis, com detalhes coloridos e inspirados nos esportes de ação, além de casacos e sobretudos compondo os looks de inverno. E até a Off-White, marca do irreverente Virgil Abloh, também diretor artístico da Louis Vuitton, se rendeu aos ternos, ainda que com um corte oversized e cores fortes. Longa vida à alfaiataria!