EXCLUSIVO: Spielberg fala sobre novo filme e ameaça de fake news

Em drama de época, o diretor Steven Spielberg mostra briga entre jornal e o governo dos Estados Unidos nos anos 1970, um espelho da sociedade atual

Los Angeles — Em fevereiro de 2017, Steven Spielberg estava numa das mais desconfortáveis situações para um diretor de carreira: seu projeto mais recente, o drama de época The Kidnapping of Edgardo Mortara, estava se desintegrando.

As datas de disponibilidade do elenco que ele queria não conseguiam se encaixar com a disponibilidade de sua equipe técnica de ponta. Nenhum malabarismo do calendário de pré-produção dava certo. “A sorte”, ele diz, “é que Amy Pascal (produtora, amiga de Spielberg e ex-presidente da Sony) me mandou um roteiro de uma nova autora, uma mulher de 31 anos, que tinha chegado até ela. Amy tinha gostado muito e queria minha opinião.”

O roteiro se chamava The Post, e seguia passo a passo os acontecimentos que levaram, em ultima análise, ao fim da guerra do Vietnã: a publicação, nos jornais New York Times e Washington Post, de um conjunto de documentos conhecido como Os Papéis do Pentágono – o registro, produzido pelo Departamento de Estado, do envolvimento dos Estados Unidos no Sudeste Asiático de 1945 até 1967, suas causas, ambições e consequências, todas elas ocultas do conhecimento público. Até que em 1971, Daniel Ellsberg, funcionário de um dos responsáveis pelo documento, o think thank Rand Corporation, passou a papelada adiante para os dois jornais.

“Eu li o roteiro num fôlego só”, diz Spielberg, uma semana antes da estreia do filme nos Estados Unidos, em meados de dezembro, ao conversar com EXAME Hoje no pátio de um hotel de luxo em Los Angeles. “O timing não podia ser mais perfeito. Era um projeto que eu não podia esperar, tinha que ser realizado imediatamente. Uma história que tinha que ser contada agora, neste momento em que estamos vivendo nos Estados Unidos e no mundo.” Spielberg deu mais que sua opinião a Pascal – considerou a brecha em seu calendário uma benção e, rapidamente, levantou a produção do que viria a ser The Post — A Guerra Secreta.

Quase miraculosamente, os dois atores que Spielberg queria para os papéis principais – Ben Bradlee, editor-chefe do Washington Post, e Katharine “Kay” Graham, proprietária do jornal – estavam disponíveis e muito interessados: Tom Hanks e Meryl Streep. “É incrível que esses dois nunca tenham trabalhado juntos, e mais incrível ainda que eu tive a sorte de tê-los disponíveis para o meu projeto, ao mesmo tempo!”, Spielberg diz às gargalhadas. “Tom e eu já trabalhamos juntos várias vezes, mas eu nunca encontrava um papel que fosse o certo para Meryl. E agora lá estava um, perfeito: Kay Graham! E ela estava disponível!”

Spielberg no set the The Post — A Guerra Secreta com os atores Tom Hanks, no centro da foto, e Meryl Streep, à direita (Divulgação)

Spielberg tinha uma relação pessoal com Bradlee e Graham (Bradlee faleceu em 2014; Graham, em 2001). A poderosa dona do Washington Post ele conheceu em 1998, quando estava em Washington promovendo O Resgate do Soldado Ryan e seu amigo e sócio no estúdio DreamWorks, David Geffen, apresentou os dois. “Ficamos conversando quase duas horas no escritório dela”, Spielberg recorda. “Ela mandou vir um almoço, foi supertranquilo. Como boa jornalista, para cada pergunta que eu fazia ela tinha uma dúzia de perguntas para mim.”

Spielberg tinha uma relação mais antiga com Bradlee – ele foi seu vizinho durante 15 anos em East Hampton, Long Island, no estado de Nova York, onde as duas famílias têm casas de veraneio. “A casa deles era em frente da nossa, e todos os anos passávamos o verão lá”, Spielberg lembra. “Todo domingo ou ele ou eu organizávamos uns jantares superdivertidos e ele nos regalava com histórias maravilhosas sobre Nixon, Watergate e os bastidores da política.”

Mas não foi a amizade que levou Spielberg a aproveitar a rara brecha em sua agenda para fazer The Post — A Guerra Secreta em ritmo acelerado, entre maio e julho de 2017, ao mesmo tempo em que tocava Ready Player One, que estreia em março nos EUA (“ainda bem que aprendi o jeito de administrar projetos diferentes ao mesmo tempo”, diz Spielberg.) Foi a urgência do tema que o levou a tomar, rapidamente, as rédeas do projeto. “O filme era um espelho refletindo ao mesmo tempo passado e presente”, ele diz. “Olhando para o que está acontecendo hoje você vê o passado se repetindo. Você vê Nixon e outros presidentes como ele, que não honraram a posição elevada que obtiveram, que desdenharam da clareza e da verdade, que fizeram de tudo para cercear e desmoralizar a imprensa, e vê o que temos hoje. O paralelo é óbvio.”

Spielberg evita usar o nome de Donald Trump, mas é evidente que está se referindo ao atual presidente americano. Rapidamente ele acrescenta, antecipando-se à pergunta. “Não quis fazer um filme partidário. Não quis fazer um filme de propaganda. Não quis fazer um filme como membro do Partido Democrata. Fiz um filme como uma pessoa que acredita na liberdade de imprensa, nos direitos civis, na garantia da liberdade de expressão que está na constituição. Fiz este filme como alguém que acredita no jornalismo sério e ético como antídoto ao que estamos vendo, a esse termo monstruoso que é “fake news” que nos faz perder a noção do que é verdadeiro e do que é falso.”

Spielberg pede uma pausa para tomar fôlego e um assistente traz um copo com água mineral e limão. Ele bebe rapidamente, respira fundo e sorri: “É uma coisa quase absurda, mas espero que este filme faça com que as pessoas pensem sobre o que é verdade e o que é mentira. Tanta coisa mudou radicalmente nos últimos anos. Mas a verdade nunca vai ser uma relíquia de tempos passados.”

The Post — A Guerra Secreta tem estreia marcada para o dia 1º de fevereiro no Brasil. Assista ao trailer: