“Amores Inversos” faz boa adaptação de conto de Alice Munro

Assim como o conto "Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”, filme se revela aos poucos, em fogo brando

São Paulo – Baseado num conto da canadense Alice Munro, ganhadora do Nobel de Literatura no ano passado, Amores Inversos é um filme, como o texto original, que se revela aos poucos, em fogo brando.

O texto da escritora – como a maioria de suas histórias (ela só escreve narrativas curtas) – mostra apenas o necessário; descobrimos a vida interna das personagens por meio de suas ações e reações.

O longa, dirigido por Liza Johnson e adaptado por Mark Poirier (baseado no conto Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento), se mantém fiel a esse princípio, embora trate de trazer para o mundo contemporâneo a trama que, originalmente, se passa nos anos 1950.

Logo na primeira cena, vemos Johanna Perry (Kristen Wiig) em seu trabalho como cuidadora de uma idosa. Com a morte da mulher, a protagonista se revela uma alma de bom coração.

Em seu novo emprego, será uma espécie de babá de Sabitha (Hailee Steinfeld), uma adolescente que mora com o avô rico, Mr McCauley (Nick Nolte), no Iowa.

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Ela tem uma relação conturbada com o pai, Ken (Guy Pearce), que mora em Chicago, é viciado e cumpriu pena pela morte de sua mulher num acidente.

Johanna é uma personagem cuja vida parece acontecer mais dentro de si do que aquilo que vemos. Para alguns, seria apenas uma paspalha, mas ela é mais do que isso.

Pouco sabemos sobre o seu passado para que ilumine o seu comportamento presente, mas é fácil notar que uma simples carta de Ken, agradecendo por cuidar de sua filha, representa mais do que uma simples carta.

E a partir de então, um plano de Sabitha e sua melhor amiga, Edith (Sami Gayle), para humilhar a babá desencadeia uma série de confusões com consequências nas vidas de todos esses personagens.

Kristen Wiig, que é mais conhecida como comediante (Missão madrinha de casamento) aqui encontra todos os tons de nuance que cabem em Johanna.

Como já foi dito, essa é uma personagem que revela muito pouco, por isso qualquer ação, por menor que seja, tem uma reverberação gigantesca – seja um suspiro ou o esboço de um sorriso no canto da boca.

A atriz sabe disso e nenhum gesto é feito à toa. E é nessa personagem que Amores Inversos encontra sua força, uma vez que a diretora e o roteirista deixam de fora a tessitura das relações sociais que compõem o conto original.

Se a certa altura o filme fica indeciso sobre o que quer contar e como contar, a atriz e sua personagem nunca saem do trilho. Mesmo quando as opções narrativas não parecem ser as melhores, Johanna está ali para nos lembrar do porquê desse filme existir.