Por que a lista de espera deste tatuador dura mais de 2 anos

O trabalho de Victor Montaghini é a definição do luxo alinhado à arte, com uma lista de espera que dura mais de dois anos

São Paulo – O estúdio de tatuagem do artista plástico Victor Montaghini é diferente de tudo aquilo que conhecemos. Esqueça os desenhos de tatuagem pendurados nas paredes, as salas de espera improvisadas e o estilo padronizado dos estúdios clássicos.

Aqui, os esboços de quadros estão espalhados pelo salão, dezenas de pincéis estão desalinhados dentro de um pote sobre uma mesinha repleta de tintas e cores; pranchetas cheias de desenhos e sketchs contrastam com a arrumação de uma pequena sala de atendimento equipada com um sofá largo, onde repousa ao lado a última edição da Rolling Stones em uma mesinha.

O trabalho de Montaghini é a definição do luxo alinhado à arte. Por ele, há uma lista de espera que, segundo o artista, dura mais de dois anos (o cliente atendido na última sexta-feira — quando o visitamos para um bate-papo , entrou na lista em maio de 2015). O preço pelo trabalho pode chegar a 30 000 reais.

Localizado em Moema, bairro nobre de São Paulo, o ateliê consegue uma mistura equilibrada entre arte, comércio e até espiritualidade através de um espaço budista, fazendo jus ao segmento de luxo proposto pelo tatuador.

Peças decorativas como a mesinha de centro em madeira e cheia de detalhes ao estilo clássico dividem espaço com a modernidade dos equipamentos em aço e os tons neutros da mobília ao redor. E essa mistura é um reflexo do estilo eclético do dono.

Há 18 anos no ramo, Victor traz consigo lembranças de seu início de carreira como artista plástico, através de suas tatuagens pelo corpo que se misturam aos anéis grossos nas duas mãos, ao colete clássico, à bota de couro e ao dente dourado na boca. Em entrevista para o site EXAME, ele conta que trata a tatuagem como arte e que sempre busca imprimir a exclusividade em cada desenho.

Essa exclusividade começa com uma lista de espera respeitada criteriosamente que, contrariando expectativas, é aberta para qualquer pessoa. Segundo ele, a fila conta hoje com cerca de 6 mil pessoas. Anualmente, Victor reúne de 500 a 600 clientes dessa lista para uma conversa individual rápida, momento em que aborda o seu método de trabalho e a proposta do visitante.

Desses encontros privados, sai uma agenda de trabalho de cerca de um ano, com um cliente e uma tatuagem por dia. Para ele, o fator espera para ser tatuado transcende preços. “Se você tem dinheiro, você compra hoje uma Ferrari e sai por aí dirigindo. Mas, no caso do meu trabalho, você vai ter que esperar”.

Victor conta que grande parte de sua fama no segmento de luxo vem de sua metodologia. Ele desenvolveu ações sistemáticas para chegar a desenhos que representam aquilo que o cliente deseja tatuar. O processo, que pode durar dias, mistura psicanálise e materiais excêntricos (de café a pano para limpeza), todos combinados ao estilo do artista.

Uma vez pronto o desenho, Victor busca a empatia do cliente com seus traços e suas propostas para a tatuagem. “Eu mostro a arte para o cliente e no mesmo momento, pela reação dele, eu procuro saber se ele se identificou mesmo com o que eu desenhei. Se a resposta de sensações for negativa, eu volto todo o processo e começo do zero”.

Cada um desses detalhes do processo afastam o trabalho dele das tatuagens convencionais. Muito além dos materiais de qualidade, as tatuagens assinadas por Montaghini trazem traços únicos e ideias intimistas, em um reflexo do que as artes plásticas têm a contribuir para o segmento comercial. (Você confere os principais trabalhos do artista aqui).

EXAME – Como você descobriu a tatuagem?

Victor Montaghini – Tudo isso começou de forma muito inesperada. Eu sou formado como artista plástico e dei aulas de pintura e desenho durante 6 anos. Até então, eu tinha minhas tatuagens, mas nunca pensei em usar esse espaço como vitrine para a minha arte. Através de incentivos de amigos, comecei a tatuar aos poucos e descobri que esse ramo era um tipo de mídia com muito potencial e que não era muito explorado no ramo das artes plásticas.

O começo foi difícil? Onde você atendia?

Comecei atendendo em um estúdio pequeno no interior. Depois fui tatuar no exterior, na Espanha e Argentina, e voltei para o Brasil, onde trabalhei em muitos estúdios. Tudo isso foi um processo para que eu conhecesse as bases da tatuagem, a questão comercial e o desenvolvimento da minha base como artista-tatuador.

Como você relaciona a sua arte com a questão comercial dentro da tatuagem?

Eu vejo o produto final como a parte menos importante da história. Eu trato esse processo como se eu não ganhasse dinheiro. Para mim o mais importante é a relação que eu estabeleço com meus clientes, a intimidade, e a forma como eu transformo esses momentos em arte e tatuagem. Eu faço uma tatuagem por dia, e eu desenvolvi um método próprio dentro da tatuagem para seguir desenhando de acordo com a minha demanda, o que me fez crescer como artista.

Quanto do seu tempo hoje é dedicado à tatuagem?

Eu tento dividir meu tempo entre todos os projetos que tenho, mas a tatuagem absorve cerca de 80% do meu dia. Eu procuro separar cada uma dessas funções para que consiga me dedicar a tudo. Faço uma tatuagem por dia no estúdio no período da tarde e começo da noite, na madrugada eu pinto, desenho e escrevo. Tudo isso para tentar buscar uma unidade, para que eu seja uma mesma pessoa em cada projeto.

Em que momento você acredita que entrou no segmento de luxo?

Passei muitos anos aprendendo de fato a tatuar, estudei em muitas escolas de tatuagem, cada uma com seu estilo. O momento dessa guinada foi quando eu tive coragem de fazer, de propor a ideia do desenho exclusivo, de uma peça de arte feita a partir de experiências. Isso acabou sendo inovador, muito diferente de tudo aquilo que era comercializado.

E como funciona o seu processo?

Eu trabalho com uma lista de espera surreal, com mais de 6 mil pessoas. O primeiro contato pode ser feito por qualquer pessoa e é sempre por e-mail. A ordem dessa fila é respeitada religiosamente, independente de quem seja e do que a pessoa faz. Eu sempre digo que se você tiver dinheiro, você consegue comprar uma Ferrari agora e sair dirigindo, mas para ter o meu trabalho você vai ter que esperar. Uma vez por ano, eu chamo entre 500 a 600 pessoas para o meu ateliê para conversar rapidamente com elas, saber as propostas e se estão dispostas a fechar com meu método e o tempo de espera.

Qual o tema dessas conversas?

Eu explico meus métodos, exponho as condições de prazo e preços. A pessoa também me conta da ideia dela, o que é importante porque muitos desenhos convencionais e fechados eu recuso, já que vão contra a minha proposta. Normalmente, dessas 600 pessoas, eu fecho com 300 pessoas que agendam um dia para fazer a tatuagem e fecho a agenda para cerca de um ano.

O atendimento tem quais etapas?

Eu reservo um dia para atender o cliente. Tudo começa com uma conversa bem longa, que pode durar horas ou dias. Nesse bate-papo, eu utilizo processos da psicanálise, com anotações, para descobrir os motivos que levam ele a querer aquele desenho em específico, e normalmente a pessoa chega em uma imagem completamente diferente. Depois dessa conversa, eu já tenho uma ideia prévia do que vai ser o desenho e tiro alguns momentos para colocar em prática. Quando termino, eu mostro para o cliente e já pela reação dele eu sei se era aquilo que ele queria ou não. No caso de uma reação negativa, eu volto para a mesa e começo do zero, até que o cliente crie uma identificação.

Para desenhar, quais métodos você utiliza?

Eu uso de tudo, desde café até pano de limpeza. Eu busco simular o sentimento que o cliente passou para mim naquela conversa. Os tipos de traço, de pintura e de técnica variam de acordo com o que o cliente sente e quer transmitir sobre aquela tatuagem. Cada detalhe, grossura de traço e cores, influencia no resultado final.

Alguma vez já aconteceu de um cliente querer esconder marcas, como cicatrizes por exemplo?

Já tive alguns casos sim. Mas, no caso de cicatrizes, normalmente as pessoas que buscam escondê-las acabam evidenciando a história por trás dessa marca. Basicamente acaba sendo uma cicatriz sobre outra cicatriz.

Você já se tatuou?

Surpreendentemente não. Eu cheguei a fazer alguns traços na perna quando estava aprendendo a tatuar, mas nunca finalizei um desenho em si.

Qual a sua tatuagem preferida?

Com certeza é a do meu filho de 5 anos. É um dinossauro que ele mesmo desenhou, escolheu as cores e tatuou. A arte dele conta uma história muito maior do que qualquer outra que eu trago.

Sobre o futuro, o que você espera da sua carreira como tatuador?

Acredito que minha carreira já está consolidada. Tenho meu público e consigo vender meu trabalho. De agora para frente eu vou buscar meios para promover a arte nas suas mais diversas faces. Quero montar um espaço que vai contra os espaços acadêmicos convencionais e que promova a troca de ideias como essência.