Este é o terror que pode transformar o cinema brasileiro

Filme de Vicente Amorim é diferente de tudo aquilo que já foi produzido dentro do gênero terror no Brasil e pode marcar uma nova fase no cinema nacional

São Paulo – Em 20 anos de carreira como cineasta, Vicente Amorim ganhou fama com filmes dramáticos, como “Corações Sujos” (2011), e séries de ação, como “A Justiceira” (1997). Mas foi em meio à Serra da Canastra, na paisagem árida de Minas Gerais e que revela a cara de um Brasil pouco conhecido mundo afora, que o diretor conseguiu realizar um desejo pessoal, algo que mais tarde lhe renderia uma exposição no Festival de Toronto, no Canadá.

O longa “Motorrad” é diferente de tudo aquilo que já foi produzido dentro do gênero de terror no Brasil e pode iniciar uma nova fase do cinema nacional, atualmente marcado pelas comédias, dramas e ação com temática social.

O filme recheado de cenas de perseguição, que conta uma história de suspense no compasso das motocicletas, ganhou destaque ao ser a única produção brasileira a participar da edição de 2017 do Festival de Cinema de Toronto, um dos principais eventos cinematográficos do mundo e tão bem conceituado como a edição de Veneza, na Itália.

Inspirado nos quadrinhos de Danilo Beyruth, o longa lotou as salas de Toronto e fez história como o primeiro “thriller” do Brasil a ser exibido no festival, algo que até então parecia improvável.

Entre dificuldades técnicas, várias horas diárias de viagens para buscar o cenário ideal e diversos treinamentos com o elenco para pilotar motocicletas no meio das vegetações de Minas Gerais, “Motorrad” desafiou Amorim a ir além do óbvio e desvincular o formato de terror das clássicas produções norte-americanas.

O diretor do filme, em entrevista para o site EXAME, conta que precisou de muita coragem para enfrentar os desafios físicos e tecnológicos e muita criatividade para contar uma história que fosse original. Ele tenta emplacar projetos de gênero no cinema brasileiro há 20 anos.

Caminho oposto à crise

A exemplo da inovação em Motorrad ao lançar um “thriller” nacional, o cinema brasileiro passa por uma fase de modernização e ampliação dos seus horizontes.

Para Amorim, o audiovisual brasileiro é um dos poucos setores da economia nacional que cresce em plena crise econômica. O diretor acredita que nunca na história do cinema no Brasil tantas produções foram filmadas simultaneamente como nos dois últimos anos.

Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), as produções cinematográficas brasileiras passaram de um total de 29 em 2002 para 142 filmes em 2016.

Como todo sonhador, o cineasta agora espera que esse ritmo frenético de produção continue e que as equipes se sintam cada vez mais confiantes a saírem da caixa e explorarem novos gêneros.

“Motorrad” estreia no Brasil no dia 12 de outubro, durante o Festival de Cinema do Rio de Janeiro.

EXAME.com: Como aconteceu o primeiro contato com a HQ que inspirou “Motorrad”? 

Vicente Amorim: “Motorrad” seguiu o caminho inverso. Primeiro veio a história, depois os personagens. LG Tubaldini Jr, o produtor, criou uma história que foi desenvolvida por ele e LG Bayão, roteirista. Na sequência entramos eu e Danilo Beyruth. Danilo, famoso por desenhar pra Marvel, entre outros, o Motoqueiro Fantasma e o Deadpool, fez o que os americanos chamam de “character design”. A partir desses personagens, nós quatro trabalhamos mais de um ano em muitos tratamentos do roteiro até chegar no que filmamos. A contribuição de Danilo, portanto, foi muito além de simplesmente criar personagens. Ele nos ajudou a manter o filme num tom específico que buscávamos desde sempre: o de uma HQ moderna, pop e violenta: nosso gênero. Acho que no estágio seguinte, o da filmagem, conseguimos colocar isso na tela.

EXAME.com: “Motorrad” é seu primeiro trabalho de direção com o gênero de suspense/terror. Como foi esse processo de saída de gêneros como drama ou comédia, mais comuns no cinema brasileiro?

Vicente Amorim: Tento fazer gênero há 20 anos  desde antes de dirigir meu primeiro filme. Mas, há vinte anos, nenhum produtor queria saber de terror, então engavetei meu projeto e adiei essa vontade. Nos meus filmes anteriores, quase todos dramas sociais ou históricos, há flertes claros com gênero. Já na TV fiz pelo menos duas séries mais próximas do que chamamos “gênero”: A Justiceira, de ação, e Espinosa, um neo-noir. Mas gênero puro, terror e ação pra valer, só mesmo em “Motorrad”. Filmar terror com ação é difícil em qualquer lugar do mundo, é muito trabalhoso e, portanto, normalmente muito caro. Pra fazer esse filme precisamos, portanto, de muita garra pra enfrentar os desafios físicos e tecnológicos e muita criatividade pra contar uma história que fosse original, que não ficasse parecendo um primo pobre de filmes de gênero americanos. Acho que conseguimos. Uma coisa é certa: não há nada como “Motorrad” por aí.

EXAME.com: Fazer um filme na Serra da Canastra exigiu uma preparação especial? 

Vicente Amorim: O elenco fez quase dois meses seguidos de aulas de motociclismo somados a mais de um mês de ensaios nas locações, na própria serra. Já a equipe precisou de muita disposição: eram várias horas diárias de 4×4, de caminhada e até de rapel pra chegar nas locações onde filmamos. A natureza é uma grande adversária dos nossos personagens  achar os lugares onde ela seria mais hostil (e estranha) foi fundamental pro filme funcionar.

EXAME.com: Como foi representar o Brasil no Festival de Toronto através desse filme?

Toronto é hoje mais importante que Veneza, é um dos três maiores festivais do mundo ​, e entrar em Toronto com um filme de terror nos parecia improvável, mas entramos​. Mais do que isso, fomos o único filme brasileiro selecionado. A recepção do filme foi ótima: sessões esgotadas, ótimas críticas e, lá mesmo, o filme foi vendido para quase todo o mundo. Não poderia ter sido melhor

EXAME.com: Que papel “Motorrad” tem ou poderá ter dentro da história do cinema brasileiro?

Vicente Amorim: ​Não seria prudente eu avaliar o impacto histórico que “Motorrad” pode ter. Sei que termos tido a coragem de fazer este filme quando tanta gente dizia que não faz sentido fazer filme de gênero no Brasil já valeu à pena, como Toronto e as vendas internacionais do filme provam.​ Tomara que sirva como estímulo pra que mais filmes como ele sejam feitos.

EXAME.com: Você acredita que esse filme seja um primeiro passo para a expansão do cinema de gênero no Brasil? Por que esse movimento não ocorreu antes?

Vicente Amorim: ​Pra fazer filme de gênero é necessário disposição, criatividade e tecnologia. Até alguns anos atrás não tínhamos os meios pra fazer um filme como “Motorrad” no Brasil: seria proibitivamente caro. “Motorrad” é filho da tecnologia, da computação gráfica e das câmeras digitais. Tem toda uma galera que cresceu vendo filme gringo de gênero que está despertando pra possibilidade de filmar, de fazer filme de gênero.

EXAME.com: Quais fatores encareciam essas produções no passado?

Vicente Amorim: A maioria dos efeitos especiais no passado tinha que ser realizada de forma mecânica com equipamentos grandes e caros, quase nunca disponíveis no Brasil. Hoje muita coisa pode ser feita digitalmente. Continua sendo caro e demandando mão-de-obra especializada, além de muita criatividade, mas é algo possível dentro de um orçamento brasileiro. A própria forma de filmar mudou: grande parte dos planos com motos do “Motorrad” simplesmente não teria sido feito há poucos anos, pois as câmeras simplesmente não caberiam nos locais onde as colocamos. O que mudou, em essência, foi a digitalização da atividade. Claro que técnica sem garra e criatividade não bastam, mas ajuda bastante.

EXAME.com: Como você analisa o cenário atual do cinema no Brasil?

Vicente Amorim: Espero que as recentes mudanças na política brasileira não atinjam nosso setor, pois ele vive um ciclo virtuoso. O audiovisual brasileiro​ é das poucas atividades que cresce em meio a essa recessão. Há 15 ou 20 anos um cineasta se perguntava se poderia filmar, hoje ele faz a pergunta certa: o que deve filmar? Se as políticas que existem forem mantidas e aprimoradas, teremos muitos “Motorrads” (e comédias e dramas!) por aí em breve. Hoje, no Brasil, há mais produções acontecendo ao mesmo tempo que em qualquer período do passado.

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