Em Londres, uma livraria singular

A Persephone Books se dedica, especialmente, a divulgar as excelentes obras de autoras renegadas do século 20

A Lamb’s Conduit Street é agradável demais para ser real, como se a velha Inglaterra dos seus sonhos, aquela que existe em sua cabeça, de repente criasse vida. Mas parece adequado que essa rua de paralelepípedos em Bloomsbury, com lojas idiossincráticas que vendem queijo artesanal, bolos caseiros e outros artigos raros, também seja o lar da Persephone Books, uma joia de lugar, dedicado principalmente a obras negligenciadas de escritoras de meados do século XX.

Ao entrar na livraria, por um momento parecemos voltar no tempo. Há pôsteres vintage pedindo às mulheres do tempo da guerra que, por exemplo, se juntem ao serviço naval feminino britânico. Mas o presente também está aqui. Na vitrine há uma imagem ampliada das observações desagradáveis que o senador americano Mitch McConnell fez sobre a senadora Elizabeth Warren em 2017, usando uma linguagem no estilo “Jane Eyre”: “Ela foi advertida. Ouviu a explicação. No entanto, persistiu.”

A persistência é uma maneira de descrever a filosofia da loja em si, que começou há 20 anos reimprimindo sob encomenda títulos esquecidos de uma época da ficção feminina amada por sua fundadora, Nicola Beauman. Ao receber uma pequena herança de seu pai, ela abriu o negócio com uma lista de 12 livros no primeiro ano.

Aqui você vai encontrar livros de mulheres de que provavelmente nunca ouviu falar, como Oriel Malet e Isobel English, e outras que podem ser mais familiares, como Katherine Mansfield e Frances Hodgson Burnett. (Há alguns homens nas prateleiras.)

Também vai encontrar, em um lugar de destaque, “Miss Pettigrew Lives for a Day”, obra de 1938 escrita por Winifred Watson, que veio para a Persephone depois que uma cliente mencionou que este havia sido o livro favorito de sua mãe. Publicado pela Persephone em 2000, o livro – a história de uma governanta pobre e simples que é enviada erroneamente por sua agência de emprego para trabalhar para um cantora glamourosa – tornou-se um hit inesperado, foi transformado em filme e tem venda constante desde então.

O que há em um livro da Persephone?

“Sou consideravelmente alérgica à ideia egocêntrica de que tudo está de acordo com meu gosto, mas tenho de confessar que sempre tive esse grande interesse pela ficção feminina do início do século XX – o que os acadêmicos chamariam de um gosto mediano e eu chamaria de uma boa leitura”, disse Beauman.

“O que os une é que eles foram esquecidos e que são muito bem escritos. Gosto muito de histórias que prendem a atenção. Quando termino de ler um livro, gosto de me sentir absolutamente perturbada pelo que li, de estar em um mundo diferente.”

Persephone Books, em Londres Persephone Books, em Londres

Persephone Books, em Londres (Charlotte Hadden/The New York Times)

A cada ano, cerca de seis obras se juntam à lista, de modo que agora há 132 ao todo. Todas ainda são impressas, e ainda estão à venda, por 13 libras cada; sempre que os novos títulos chegam, os livros antigos são movidos um pouco e as prateleiras são reorganizadas para dar espaço.

Depois de algumas temporadas apenas como editora, a Persephone se tornou uma livraria, deixando seu antigo escritório em Clerkenwell e vindo para seu espaço atual. O local é escritório e loja, dividido em duas salas que parecem se misturar.

A autora mais popular da loja se chama Dorothy Whipple, que tem impressionantes dez livros na lista, Persephones nº 3, 19, 40, 56, 74, 85, 95, 110, 118 e 127. Suas histórias são engraçadas, espirituosas e cheias de ponderações sobre a vida de pessoas reais.

“Gosto de livros que me contam como vivíamos. Eu me interesso muito pelo livro como história social.” E acrescentou: “A boa escrita é importante para mim, e é por isso que só temos 132 títulos.”

Os livros são elegantes, encadernados com papel cinza-claro e sem adornos, exceto pelo título em um retângulo branco na capa. Beauman se inspirou nas capas simples dos livros da Penguin de 1930 e no costume francês de publicar livros com capas brancas e letras vermelhas, disse ela, enquanto que as cores são um tipo de homenagem às velhas canecas de café Dean & Deluca.

“Pensei: ‘Por que um livro não pode ser parecido com isso?'”, disse ela.

Ou, como diz o site da empresa: “Os livros Persephone são todos cinza porque – bem –realmente gostamos de cinza. Imaginamos também uma mulher que chega em casa cansada do trabalho, e há um livro esperando por ela, e não importa sua aparência, porque ela sabe que vai gostar dele.”

No interior, porém, os livros são coloridos. Cada um tem uma contracapa diferente, inspirada em estampas ou tecidos associados ao ano de sua publicação original. Alguns vêm do Museu Victoria & Albert; outros podem ser tecidos cedidos por clientes. “Uma vez, uma pessoa trouxe um lenço do tempo da guerra, e você podia literalmente sentir o cheiro do pó de arroz da mãe dela”, disse Beauman.

Persephone Books, em Londres Persephone Books, em Londres

Persephone Books, em Londres (Charlotte Hadden/The New York Times)

A Persephone tem seguidores dedicados e apaixonados. Cerca de 30 mil pessoas assinam sua revista gratuita, a “Persephone Biannually”, que inclui artigos sobre os livros mais novos e outros assuntos. Seu site contém reflexões espirituosamente eruditas de Beauman, que ultimamente assumiram um tom preocupado por causa da incerteza sobre o destino das pequenas empresas com o Brexit, ou a saída do Reino Unido da União Europeia.

Em março, a empresa comemorou seu 20º aniversário com sanduíches de salmão defumado, chá, champanhe e bolo em uma festa que durou o dia todo, com o fluxo constante de visitantes dando lugar a um grupo maior à noite.

Beauman disse: “A ideia no início era que, se você gosta de um de nossos livros, vai gostar de todos eles, Isso funcionou quase totalmente. É muito raro alguém não gostar de um dos livros. Não gosto de usar a palavra ‘marca’, mas somos um tipo de marca.”

Nicola Beauman, fundadora da Persephone Books Nicola Beauman, fundadora da Persephone Books

Nicola Beauman, fundadora da Persephone Books (Charlotte Hadden/The New York Times)