Em busca de um País de Maravilhas em “Dois Rios”

Duas mulheres fascinantes – e um homem que é um chato de galochas – são os personagens centrais de “Dois Rios”, um bom romance de Tatiana Salem Levy

São Paulo – Nossos olhares se cruzaram, e num único segundo senti aflorar a minha intimidade mais secreta. Se me perguntassem, eu saberia precisar o exato momento em que tudo se definiu, só não saberia especificar o que nela me despertou a transformação: o olhar de esguelha? A forma meio atabalhoada de andar? Os dentes querendo escapulir da boca? A maneira como jogou a bolsa no chão? O olhar doce e grave? A longa cicatriz unindo os seios ao pescoço?” Desde que o francês Gustave Flaubert (1821-1880) colocou o sarrafo lá no alto em sua obra-prima A Educação Sentimental, ficou difícil para qualquer autor descrever o momento capital em que um ser humano entra na vida de outro para modificá-la de forma avassaladora. Em seu romance Dois Rios, a carioca Tatiana Salem Levy se sai muito bem do desafio – e uma amostra é a frase que abre esta crítica.

A primeira parte do livro começa quando a brasileira Joana encontra a francesa Marie-Ange na praia de Copacabana. Até esse momento, Joana é uma mulher de 30 e poucos anos que mora com a mãe num apartamento atulhado de objetos – e das memórias que a eles correspondem. Aparecida, a mãe de Joana, sofre de transtorno obsessivo-compulsivo, e a filha, responsável por cuidar dela, acaba acorrentada a um mundo de pequenas manias e nenhuma perspectiva. Marie-Ange vem romper esse ciclo aparentemente sem saída. O leitor cai no campo gravitacional armado por Tatiana de forma irresistível – como a Alice de Lewis Carrol no momento em que, ao seguir o coelho, lhe falta o chão – e entende por que a escritora é considerada uma das melhores da nova geração (Tatiana venceu em 2008 a primeira edição do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Autor Estreante com o romance A Chave de Casa).

Fincar bandeirinha

A segunda parte de Dois Rios coloca em destaque o personagem Antônio, irmão gêmeo de Joana – e que assombra, de maneira discreta, a primeira parte do romance. A simetria entre os dois é bem construída, e a expectativa que a presença do irmão cria em relação ao desfecho é bastante interessante. O próprio Antônio, no entanto, é o maior senão do livro. Joana e Marie-Ange são personagens pelas quais o leitor se apaixona, seguindo fascinado o caminho das duas em busca de um país de maravilhas particular. Já Antônio é aquele chato de galochas que qualquer um de nós enxotaria de uma mesa de bar. Sua presença instaura o tédio em vários pontos da segunda parte do livro, que resultam pontuadas de lamúrias românticas – num forte contraste com a relação sensual e vibrante entre Joana e Marie-Ange. Num romance que, feitas as contas, é bastante bom, Antônio não está à altura do talento de Tatiana – uma narradora vertiginosa e criativa, capaz de invadir e fincar bandeirinha num terreno colonizado por Flaubert.