Dylan além do feijão com arroz

Tempest, seu novo disco de inéditas, é um dos melhores da safra recente do cantor septuagenário

Bob Dylan é o Woody Allen do rock. Há quase duas décadas que, para nós, um bom disco de Dylan parece obra do acaso e, para ele, é só mais um meio de manter a rotina. Ao contrário de seus pares de longevidade, Dylan não se importa em apoiar causas (Bruce Springsteen) ou demonstrar boa vontade (Paul McCartney) com o intuito de se aproximar das novas gerações e agradar aos fãs de longa data. Tudo que ele faz é só para sossegar sua inquietação criativa, no sentido mais egoísta possível: não faz a menor diferença se o público acha o resultado final insatisfatório ou impressionante.

O que faz de Tempest (Sony Music, preço a definir) o seu Meia Noite em Paris: desta vez, o esforço em entregar além do usual feijão com arroz é bem audível. A primeira metade do disco é só rock e blues sem grandes variações, mas sempre instigantes. Desanima nas baladas frias Roll On John e Scarlet Town, muito extensas e onde Dylan expõe o pior da sua voz já combalida. Tempest e Tin Angel mostram onde ele nunca erra a mão: nas narrativas extensas. Para ouvir e tentar decorar as letras.

Matéria publicada na VIP de outubro de 2012