“Passeios na Ilha” ganha reedição no mês que Drummond completaria 109 anos

No terceiro livro de prosa de Drummond, o poeta carrega o leitor por cidades mineiras, críticas literárias e aforismos

Na ilha com que sonha Carlos Drummond de Andrade, “nenhuma central elétrica de milhões de quilowatts será capaz de produzir aquilo de que precisamente cada um de nós carece na cidade excessivamente iluminada: certa penumbra”. O que talvez Drummond não sonhasse, dedicado que estava a imaginar sua ilha, é que a ilha eram ele e sua escrita e que a penumbra de que todos carecemos, se quisermos, é em sua obra que podemos encontrar. É assim Passeios na Ilha, coleção de ensaios/crônicas/poemas em prosa, ou outra coisa cujo nome escapa às classificações normativas, que foi lançada em 1952 e ganha reedição neste mês.

Esses textos, que, segundo o próprio Drummond, não foram escritos, mas se foram escrevendo pelos domingos e publicados no Correio da Manhã, mantêm o leitor nesse estado nunca muito iluminado nem escuro demais e sempre em condição de passeante: textos que erram (na dupla acepção da palavra) e que carregam consigo o leitor em sua errância tanto formal quanto temática.

Passeia-se por Ouro Preto, pela literatura contemporânea de sua época, pela história do Brasil, pela crítica ideológica e burguesa e por aforismos sobre o ofício literário, sempre numa atmosfera de elegância melancólica, em que a palavra parece se equilibrar entre a ironia e a sabedoria e o desencanto habitual do poeta parece suspenso, sem descambar para a derrota, mas sem também acenar com soluções.

Gravata ou Chinelos 

É a penumbra necessária. Os profetas de Congonhas do Campo, esculpidos por Aleijadinho, por exemplo, confabulam entre si sobre seus destinos para perceberem, no final da conversa, que, na verdade, são mesmo mineiros e poderiam ter terminado ali, onde exercem “taciturnos, crepusculares, messiânicos e melancólicos” seu lugar na história. Que melhor definição do passeio drummondiano do que esse messianismo sem objetivo nem cura, mas que de alguma forma nos redime?

Na série fascinante de “Apontamentos literários”, para dar outro exemplo, deparamos com um “Como escreve bem! Sua língua, de tão perfeita, chega a aborrecer. Procura sempre a palavra mais cintilante. Eu, a mais pobre”. Certamente, não há que se passear de gravata e chapéu. Não é também o caso de que o poeta use chinelos, porque não era esse seu feitio. Mas é de uma forma misteriosamente casual que se fazem a ilha e o passeio, sem apelo nenhum ao espetacular ou a alguma verdade reveladora. Em edição cuidadosa, com temas bem selecionados e posfácio de Sergio Alcides, essa reedição de Passeios na Ilha vem mesmo a calhar em tempos de luz excessiva.