Dorothea Lange ganha retrospectiva no MoMA em Nova York

Fotojornalista marcou história da fotografia com série feita com o governo americano que registrou a miséria após a Grande Depressão

São Paulo – A fotógrafa americana Dorothea Lange (1895-1965) colocou seu nome na história do fotojornalismo durante um trabalho encomendado pelo governo americano. Como fotógrafa da agência federal Ressettlement Administration (depois rebatizada como Farm Security Administration), criada pelo governo americano em 1935 como parte do plano do “New Deal” na era pós-Grande Depressão para lidar com as famílias em situação de risco nas zonas rurais e urbana, Lange encontrou na Califórnia, em 1936, a imagem que todo fotógrafo espera durante décadas em sua carreira.

Lange, que abandonara a vida de fotógrafa de estúdio em San Francisco para sair a campo e buscar uma nova forma de fotografar, fotografou Florence Owens Thompson, uma mulher de 32 anos e mãe de sete filhos, vivendo na pobreza e sem teto em um campo de colhedores de vagens. A fotografia eternizou o olhar desolado e a expressão série de Florence, ficando conhecida como “Migrant Mother”. A imagem, poderosa, com certo ar de “Madonna”, acabou virando um dos ícones do fotojornalismo.

Ao lado de outras dezenas de imagens, “Migrant Mother” ajudou a humanizar a grave crise econômica que assolava os EUA, dando nomes e rostos às famílias que enfrentavam uma vida sem casa e comida. Se alguém nos EUA ainda não estava ciente da gravidade da situação, acabou ficando. O efeito, aliás, não foi meramente estético. Em 10 e 11 de março de 1936, ao fotos de Lange de Florence e de outros trabalhadores foram publicadas na imprensa, o que resultou no governo americano enviando imediatamente alimentos para a região.

A fotojornalista acaba de ganhar uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), em exibição que vai até 9 de maio. É a primeira grande retrospectiva de Lange no MoMA em 50 anos. O museu exibiu a fotografia de Florence primeiro em 1940 com o título de “Pea Picker Family, California”. Em 1966, logo após a morte de Lange, ele comprou a foto e deu seu nome definitivo: “Migrant Mother, Nipomo, California”.

A mostra traz as imagens mais famosas de Lange, mas também as mais desconhecidas. Não estão apenas na mostra o trabalho de Lange com a FSA. Há também os seus trabalhos na Segunda Guerra Mundial, em San Francisco, na Ásia, e também aqueles que focaram a população negra americana. A ideia é trabalhar com a dupla “imagem + palavra”. Lange disse sobre a junção destes dois elementos: “Toda fotografias – não só aquelas que chamamos de ‘documentais’ – podem ser fortalecidas pelas palavras”.

O fotolivro de 1939, “An American Exodus”, ajudou a pavimentar o caminho da fotografia documental e social nos Estados Unidos e no mundo. A força do trabalho de Lange mostrava como a fotografia poderia jogar luz em temas urgentes. O livro trazia o relato ocular do que ficou conhecido como “Dust Bowl Imigration”: o êxodo em massa, após a Grande Depressão, da população do Meio-Oeste e de estados como Oklahoma e Arkansas para a Califórnia.

Além das imagens poderosas, o livro mostrou o papel poderoso da palavra. Concebido por Lange em parceria com seu marido, o economista especializado em agricultura Paul Taylor, “An American Exodus” trazia notas de campo, letras de canções populares colhidas na viagem, pedaços de notícias de jornal e notas de sociólogos. Além disso, havia o relato dos próprios fotografados. 

A exibição do MoMA, organizada por Sarah Meister, faz jus a essa combinação, dando contexto ao trabalho de Lange com fotolivros, reportagens da época da Grande Depressão, jornais, revistas e poemas.

“Dorothea Lange – Words & Pictures”

Museum of Modern Art  – 11 W 53rd St, New York, NY

Até 9 de maio

US$ 25