Diretor do 1º filme brasileiro da Netflix conta como chegou lá

Ao site EXAME, o diretor Marcelo Galvão conta por que a Netflix escolheu o seu filme e por que os longas brasileiros ainda sofrem com um estigma

São Paulo – Poderia ser mais um filme igual aos outros já feitos sobre o sertão nordestino. Ou mais um título apagado entre os milhares do catálogo da Netflix. “O Matador”, porém, chegou com a promessa de não entrar em nenhuma das duas classificações.

O filme é o primeiro longa-metragem de ficção produzido pela plataforma queridinha dos brasileiros no país. O que já seria suficiente para chamar a atenção, porém, tem um toque a mais.

A produção, que se passa no sertão de Pernambuco e conta a história do matador Cabeleira, também gerou curiosidade por trazer o clássico formato western (ou faroeste) a um contexto brasileiro.

O diretor Marcelo Galvão, que hoje mora em Los Angeles, nos Estados Unidos, ressalta que o roteiro é o mérito para que o filme tenha brilhado aos olhos da Netflix. Há também o fato de ele não ser nenhum novato, uma vez que trabalhou com outras produções, como “Colegas” (2013) e “A Despedida” (2016).

Em entrevista ao site EXAME, Galvão conta como foi o processo de construção do longa e explica, ainda, por que acha que os filmes brasileiros ainda são, muitas vezes, vistos com maus olhos pelo público local. Confira os principais trechos do bate-papo.

Site EXAME:  afinal, como o roteiro chegou à Netflix?

Eu fui ao LABRFF, que é um festival brasileiro de cinema aqui de Los Angeles, e fiz um pitch porque eu precisava complementar um dinheiro que eu já tinha. Lá, havia alguns players e uma era da Netflix. Ela adorou o projeto e pediu para eu mandar o roteiro. Leu, adorou e falou “a gente quer produzir. A gente mesmo, sozinhos”. E começamos a produzir.

E por que você acha que o filme foi escolhido para ser o primeiro longa brasileiro da Netflix?

Eu submeti o filme em um festival de roteiros em Nova York, o New York Screenplay Festival, e, nessa época em que a Netflix pegou para ler, o roteiro ficou entre os dez melhores entre mais de mil do mundo todo. Então, eu acreditava muito no potencial do roteiro e acho que ele foi o que mais atraiu. Além disso, fiz vários filmes que ganharam muitos prêmios e nunca tive problemas em termos de não entregá-los.

Por que retratar o sertão e o cangaço?

Eu já fiz filmes de diversos gêneros, como comédia, road movie, drama, terror e queria fazer um filme de ação. Mas não queria fazer uma coisa de favela, algo que já foi feito no Brasil. Queria um tema novo e bem brasileiro. Eu sempre gostei de western, assistia com meu avô e meu pai, e acho que a gente tem um contexto histórico que se aplica muito bem a um filme desse tipo. O cangaço, a caatinga, uma coisa bem diferente e bem brasileira.

Mas, como carioca, qual era seu contato com essa história até então?

Eu conheço um pouco do Nordeste, já viajei bastante filmando, fazendo comerciais e documentários. Então, eu conheço bem esse universo. Meu avô é baiano. E eu viajei um ano antes de começar as filmagens, antes mesmo de ter o dinheiro, durante 15 dias por todo o interior do sertão nordestino para escolher os lugares que eu imaginava filmar. Então, eu conheci ainda mais a cultura local.

Eu estudei bastante referências de filmes já feitos no Brasil sobre esse contexto histórico e universo nordestino, me aprofundei bastante antes de começar a produzir o filme e para afinar o roteiro. Então, apesar de eu já conhecer um pouco mais que os brasileiros – claro, com exceção de quem mora lá –, eu estudei bastante. Estudei Lampião, Corisco, Dadá… Assisti aos filmes do Glauber Rocha, vários filmes nacionais, e li bastante sobre o cangaço. E foi assim que eu criei um repertório suficiente para poder escrever o filme com um pouco de propriedade.

E você considera que essa representação foi bem-sucedida?

Eu gosto bastante da forma como foi feito, porque foi tudo real. A maior parte do elenco, não os principais, mas a maior parte é de lá, e as locações são reais. Lógico que existe uma alegoria, principalmente na história do francês. Ele é bem exagerado em algumas partes, propositalmente, para poder ter esse caráter de um contar de história, de uma literatura de cordel. É isso o que eu queria trazer um pouco para o filme, não deixar só a coisa pesada e forte, apesar de ele ser bem violento. Eu quis dar um pouco de humor, tirar um pouco do universo real, para dar uma leveza ao filme e para ser um pouco coerente com várias coisas, tendo sempre como fundo a literatura de cordel, aquela história contada que, apesar de violenta, tem essas alegorias e é uma coisa característica da região onde eu estava filmando.

Quais as influências e as diferenças em relação ao faroeste norte-americano?

Nosso Nordeste é bem diferente da geografia dos westerns americanos. Acho que a nossa história também é um pouco mais visceral. O povo sofrido, a forma como eles se alimentam, matando os bichos para comer. Isso é difícil de se ver. Acho que esse é mais verdadeiro em muitas coisas. É muito cru e real. Acho que também se diferencia um pouco por essa questão política que é um pouco retratada, essa exploração de um povo local por um gringo que chega para extrair tudo o que há de melhor da terra e deixar o povo sofrido. Então, acho que existe uma preocupação também política e social no roteiro, enquanto muitas vezes o western americano fica só preso em uma boa história com muita ação e muito tiro. Meu filme tem um pouco mais de profundidade em várias coisas. A relação entre pai e filho que existe, que acho que é o tema central, essa busca pelo pai, por saber quem você é. É uma coisa que eu sinto falta, já que muitas vezes o faroeste americano é muito motivado apenas pela vingança, sem ter uma coisa mais profunda. Eu acho que nosso filme tem algo a mais.

Você viu diferenças entre produzir um filme para o cinema e um para o streaming?

Não, nenhuma. De toda forma você sempre vai querer fazer o melhor, seja para o celular, seja para qualquer coisa. Você não vai pensar “ah, esse filme vai para o streaming, vou fazer diferente”. Há exemplos de produções gigantes que mostram que estão preocupadas com uma super estética e vão para o streaming, não para uma tela grande.

Então, você acha que essa nova plataforma não vai mudar a forma como se faz cinema.

Uma pergunta que sempre fazem é se eu acho que as produções streaming vão acabar com o cinema. Eu acho que não. O cinema é um processo catártico e totalmente diferente de assistir a um filme em casa. Então, há filmes que você vai querer ir ver no cinema. Se você olha os números, vai ver que os das plataformas streaming estão aumentando muito. Mas, se comparar com os das produções de cinema, também estão aumentando. Então, acho que uma coisa ajuda a outra, e não anula a outra.

Houve um diálogo entre você e a Netflix para adaptar o roteiro ou fazer alguma mudança no filme?

Não. Para ter uma ideia, você faz três filmes: o filme que você escreve, o que você produz e o que você edita. E a edição é a parte mais importante, porque é a última e a que vai sair. E essa é a parte em que geralmente o distribuidor, o “produtorzão”, entra e mete o dedo, fala “não, vamos deixar desse jeito, corta isso, corta aquilo”. E a Netflix não. Me deu uma liberdade total para poder mexer.

Qual a impressão que o seu filme passa para o público de outros países?

Eu acho que é um universo que, apesar de ter um tema já conhecido, o western, é um western brasileiro. É totalmente diferente do que já foi feito. Ele se passa em uma região diferente, tem uma fauna, flora e povo diferentes. Então acho que isso intriga as pessoas e faz com que elas queiram saber e ver. Quando você fala em um western brasileiro, as pessoas já ficam “wow”. Então, acho que as pessoas estão recebendo super bem pela inovação que existe dentro do tema.

E em relação ao público brasileiro?

É um filme feito para o público. Meus filmes geralmente têm os críticos que não gostam, então eu faço, geralmente, filme para público. E eu acho que ele tem recebido super bem. Eu vejo pelo feedback que tenho recebido nas redes sociais. Eu acho que é um filme que dialoga com vários tipos de pessoas e é bem profundo se você assistir com um olhar mais para as relações humanas e menos para as mortes. E uma coisa que eu tenho visto é que, por ser um filme rico em detalhes, cada vez que você assiste a ele você pega uma coisa diferente que não entendeu, e isso se torna mais gostoso. Então, pelo feedback que tenho tido, o público brasileiro está gostando bastante, principalmente quando assiste ao filme de novo.

Você acredita que existe uma tendência de desvalorização das produções nacionais por parte do público?

Acho que isso já existiu e o que falta, na verdade, são roteiros bons. A gente culpa muito o público por não gostar de filmes nacionais, mas é porque muitas coisas não são bem feitas. Às vezes o diretor escreve o roteiro para ele, não é um roteiro feito para o público. O que não quer dizer que adianta fazer um roteiro para o público, mas com um time ruim. Há vários exemplos em Hollywood de filmes de sucesso, super bacanas, com uma história maravilhosa, e feitos para o público. Se você pega o “Cidade de Deus” ( Fernando Meirelles e Katia Lund, 2002), você vê que a preocupação estética do filme é maravilhosa, tem um roteiro maravilhoso e uma preocupação com a atuação maravilhosa. Por isso, o filme fez o sucesso que fez e, para mim, é o melhor filme já feito no Brasil. Então, acho que esse preconceito se resume à má qualidade dos roteiros que existem.

O fato de a Netflix estar investindo nisso deve mudar algo?

Com certeza. A gente não tem uma indústria. A Netflix vai pegar coisas que interessam, com roteiros legais. Não vai pegar um dinheiro de incentivo fiscal e fazer o filme que ela quer. O produtor às vezes tem na cabeça que quer fazer um filme e vai correr atrás, vai ficar por anos captando dinheiro de incentivos fiscais. Muitas vezes o dinheiro vem não pelo roteiro em si, mas pelo ator que está ligado ao projeto ou pela relação que o diretor tem com o diretor de marketing da empresa que ele está captando. E eu acho que na Netflix não. Existe um crivo mais seletivo, ela vai pegar boas histórias. E, a partir do momento em que se pega boas histórias, a gente melhora a nossa produção de filmes.