Daniel Radcliffe vive amigo apaixonado em “Será Que?”

No rastro da última comédia romântica cult, novo trabalho do diretor Michael Dowse subverte alguns clichês do gênero

São Paulo – Apaixonar-se pelo melhor amigo (a) é uma droga. Como é quase certo que todos algum dia já passaram – ou passarão por isso – não é difícil para o público se identificar com Wallace, protagonista interpretado por Daniel Radcliffe em Será Que? (2013).

No filme de Michael Dowse, o ator dá vida a um jovem inglês que abandonou a faculdade de Medicina e ainda sofre com o rompimento de seu namoro quando conhece a animadora Chantry (Zoe Kazan) em uma festa, em Toronto.

A sintonia entre os dois é instantânea e eles passam a noite conversando. Até que, ao levá-la para casa, o rapaz é surpreendido: a garota já tem namorado – e de longa data – e propõe que sejam amigos.

Wallace desiste dela no início, mas, ao encontrá-la ocasionalmente no cinema, não resiste e engata uma amizade com Chantry.

Na ocasião, o personagem foi assistir a seu filme preferido, A Princesa Prometida (1987), de Rob Reiner, diretor de outro longa que é, claramente, uma referência para este: Harry & Sally – Feitos um Para o Outro (1989).

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Alçado à categoria de clássico, a comédia romântica protagonizada por Meg Ryan e Billy Crystal foi seguida desde então por uma série de outras produções voltadas à questão da (im)possibilidade de homens e mulheres serem apenas amigos.

E, nos últimos tempos, é notável a variação do tema em Amizade Colorida (2010) e Sexo Sem Compromisso (2010), quando também há envolvimento sexual na relação.

Apesar de ser um assunto tão recorrente nas telas, Será Que? tem como vantagem revisitá-lo de uma maneira bem agradável para o espectador.

O roteiro de Elan Mastai, que adapta a peça Toothpaste and Cigars, de T.J. Dawe e Michale Rinaldi, apela para o humor físico em raros momentos, já que o foco de sua comicidade está no próprio texto.

Os diálogos rápidos, sarcásticos e precisamente em sintonia do casal de protagonistas é envolvente, mesmo que fujam um pouco da realidade.

Somados à animação dos desenhos da protagonista, que trabalha na área, e à trilha sonora indie, com direito a Edward Sharpe and Magnetic Zeros e Palma Violets, é impossível não vir à memória o clima de (500) Dias com Ela (2009).

No rastro da última comédia romântica cult, o novo trabalho de Michael Dowse, diretor de Uma Noite Mais que Louca (2011) e Os Brutamontes (2011), subverte alguns clichês do gênero.

A sequência clássica do aeroporto é uma delas, assim como o cuidado em não personificar o antagonista como um canalha; Ben (Rafe Spall) pode até não ser um noivo totalmente interessante, mas está sempre preocupado com sua relação, mesmo estando distante de Chantry, quando viaja a trabalho para Dublin.

Embora ceda um pouco em seu desfecho mais otimista, o filme ainda mantém um frescor ao dar a sua personagem feminina a chance de não desprezar sua própria carreira.

Zoe Kazan – neta do grande cineasta Elia Kazan –, aliás, é certeira no tom cômico de sua Chantry, como fez também em Ruby Sparks: A Namorada Perfeita (2012), firmando seu talento para comédias leves.

Também conta a boa química entre ela e seu companheiro em cena, que não chega a atingir o mesmo nível dela aqui.

Ainda assim, Daniel Radcliffe entrega uma performance carismática o suficiente para distrair o público de seu passado como Harry Potter.

Porém, é Adam Driver na pele de Allan, amigo de Wallace, o dono de algumas das melhores gags do longa. Uma prova do futuro promissor que aguarda o ator da série Girls (2012-) e de Frances Ha (2012), que estará no próximo episódio da saga Star Wars, previsto para 2015.