Da seleção ao picadeiro: quem é o brasileiro do Cirque du Soleil

O ex-atleta profissional Gabriel Christo volta ao país para o espetáculo Amaluna, que estreia nesta quinta-feira no país

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Quando tinha 18 anos, o então ginasta da seleção brasileira de trampolim Gabriel Christo, hoje com 29, estava com seus companheiros de equipe em uma competição no Canadá quando foi abordado por um olheiro.

O sujeito trabalhava no Cirque du Soleil e fez uma proposta para o mineiro de Belo Horizonte integrar a famosa trupe. Ele negou – naquele momento, seu foco eram os Jogos Olímpicos de 2008. “O grande sonho da minha vida era ir para a Olimpíada”, ele conta.

A equipe, no entanto, não conseguiu a classificação e, mais tarde, recebeu a notícia de que o projeto da seleção capengava. “Os salários estavam baixos, os patrocinadores não investiam tanto e íamos ficar um período sem treinar”, diz.

 (Bianca Tatamiya/Reprodução)

“No trampolim, só vão para a Olimpíada 16 atletas do mundo todo – na ginástica olímpica, como comparação, são 200. Era uma aposta muito alta eu ficar esperando mais quatro anos. Não dava. Resolvi então aceitar o convite do circo e mandei um e-mail. Era uma oportunidade incrível, para viajar o mundo, mas muito desafiadora.”

Um mês depois, ele foi chamado para ir para o Canadá, onde fica a sede do circo, para um período de treinamento. “Esse tempo não é garantia nenhuma de você passar a integrar o show. Por isso, era tudo ou nada. Eu tinha que dar o melhor de mim”, lembra Gabriel.

“Cheguei lá e vi aquele mundo maravilhoso, aquela sede incrível, colorida, com obras de arte por todas as paredes, fotografias, esculturas… Não tem cara de trabalho. As pessoas são felizes. É tão descontraído, tem gente de todo lugar do mundo. É excepcional. Foi uma das melhores fases da minha vida, mas também muito difícil.”

Deu tudo certo e Gabriel foi contratado. Nesse período, aprendeu a dançar, cantar e atuar. “Eles têm todos os professores e o esquema necessário para transformar um atleta em artista.”

 

Mortal

Gabriel Christo começou na ginástica por um motivo bem prosaico: amava acrobacias e queria saber dar um mortal. Insistiu tanto que a mãe o colocou, aos 8 anos, para treinar. “Não tinha motivação esportiva. Treinava só para aprender mesmo”, conta.

“Mas fui vendo que levava jeito. Comecei então a competir com 11 anos e a perceber que aquilo era o que eu queria fazer.” Quando fez 15, foi chamado para a seleção de trampolim. Participou de diversas competições nacionais e internacionais – tem mais de 150 medalhas. Mas nada disso garantia o sucesso dele no Cirque du Soleil.

“Estou muito acostumado aos equipamentos e às técnicas, mas, quando vi uma cama elástica de frente para uma parede de 7 metros e me falaram que o objetivo era saltar lá de cima, cair na cama, fazer uma acrobacia e voltar lá para cima… Era uma coisa que eu nunca tinha imaginado fazer na vida. Eu sempre fui um atleta medroso. Era bom, mas tinha medo.”

Gabriel aprendeu então a trabalhar seu lado mental. Enquanto os colegas se jogam nos exercícios novos, ele tem que sentar, mentalizar o exercício, imaginar o que deve fazer e se convencer de que consegue antes de tentar novas acrobacias. “O circo me ajudou a aprender a controlar o medo e a lidar com as minhas emoções.”

Hoje, ele já passou por 40 países e morou na China por dois anos. “Você pode ser convidado para um espetáculo residente, e daí fica morando na cidade em que ele está, ou para um itinerante, e tem que ficar viajando e morando em hotel”, explica.

Amaluna é itinerante – Gabriel deu esta entrevista quando estava no Paraguai, antes de vir para o Brasil (o circo não se apresenta aqui há quatro anos).

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“Eu adoro viajar assim, mas tem lado desafiador, difícil, porque você está longe da família nas datas especiais, removido de sua turma. É diferente da ‘vida real’. Não me preocupo com nada, não pago transporte, comida, o circo cuida de tudo. Mas não dá para ficar no tour por 10 anos, por exemplo. Por isso que fico entre o tour e o fixo. Gosto de poder ter um cachorro, cozinhar minha própria comida.”

O artista aprendeu que, não importa onde esteja, tem que manter uma rotina. “Onde quer que eu vá, carrego ela comigo”, diz. “Comecei a meditar faz 10 meses e faço isso toda manhã. Tenho que cuidar do aspecto mental. Não dá para atingir meu potencial físico máximo se ele estiver abalado. A meditação foi uma das maiores surpresas da minha vida. É tão simples: preciso só de uma cadeira e um lugar tranquilo em que possa fechar os olhos e respirar. Foi ótimo para controlar minha ansiedade.”

Ele ainda faz musculação cinco ou seis vezes por semana, seguida por treinos de flexibilidade. E, três vezes toda semana, faz os treinamentos acrobáticos, com cerca de uma hora e meia de duração.

Em Amaluna, Gabriel é um marinheiro que, depois de uma tempestade, desembarca em uma ilha governada por mulheres. Seu número, feito na prancha (ou báscula), é descrito na página do Facebook do espetáculo como “um dos atos mais impressionantes e caóticos da história do circo”.

Os saltos que ele e os colegas dão chegam a 6 metros de altura. “Se caio de mau jeito, posso ter uma lesão grave. Poucas pessoas no mundo fazem”, ele conta. “No circo, não há limites. Tudo o que você vai fazer é diferente do que já tinha tentado. Tenho que trabalhar fora da minha zona de conforto todos os dias. Quem sabe lidar com pressão se dá bem aqui.”

 

Serviço: Amaluna Brasil

SÃO PAULO

Local: Parque Villa Lobos
Endereço: Av. Professor Fonseca Rodrigues, 2001, Alto de Pinheiros
Entre 5 de outubro e 17 de dezembro de 2017

Preços: a partir de R$ 250 (R$ 125 meia-entrada)

RIO DE JANEIRO

Local: Parque Olímpico
Endereço: Av. Embaixador Abelardo Bueno, s/n, Barra da Tijuca (altura do nº 5001).
Entre 28 de dezembro de 2017 e 21 de janeiro 2018

Preços: a partir de R$ 250 (R$ 125 meia-entrada)

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