Como o estilo surfwear dos anos 80 influenciou a moda atual

Desvendamos de que forma a moda praiana de três décadas passadas tornou-se uma indústria lucrativa e determinante na moda brasileira da atualidade

 

 (Reprodução/Divulgação)

Um país tropical se desafogando de uma ditadura truculenta em meio a uma tendência pós-punk preta e cinza.

Era esse o cenário dos anos 80.

Até que a união do movimento new wave e de uma tribo de surfistas marginais na sociedade fez o jogo mudar. A turma da praia despontou como a representação de um espírito livre e aventureiro – e liberdade, naqueles tempos, era novidade no Brasil.

Ali nascia um negócio novo e rentável, com desdobramentos bastante lucrativos até hoje.

“Imagine você, no meio de um monte de moleques com roupas sombrias, aparecer todo colorido”, diz Alfio Lagnado, 56 anos, fundador da Hang Loose, uma das marcas pioneiras em surfwear no Brasil.

“Era uma maneira de mostrar que você pertencia a uma tribo saudável e conectada à natureza. Um lifestyle sem regras rígidas, ensolarado, com mulheres bronzeadas e gente feliz.”

Lifestyle que influenciou a moda brasileira como um todo, a maneira como nos vestimos até hoje.

Basta ver a 42ª edição da Casa de Criadores, que celebrou 20 anos em novembro de 2017 reunindo alguns dos estilistas mais conectados a uma forma nova de fazer moda.

Foi no evento que a Fico, tradicional marca de surfwear oitentista, anunciou um reposicionamento e, em parceria com a Der Metropol, do designer paulistano Mario Francisco, apresentou uma coleção inspirada em seu legado.

“Fiz a coleção cápsula pensando em homenagear a Fico, que está tão presente no imaginário das pessoas”, conta Mario.

“Das cores aos logos, tudo tem essa pegada.” A label, licenciada do Grupo Lunelli, foi criada em 1983 por Raphael Levy, 57 anos.

Início pirata

 (Bruno Alves/Divulgação)

As primeiras marcas de surfe nacionais nasceram de um grupo de amigos que se juntou para viver do esporte e para ele.

O negócio cresceu a ponto de a cultura de praia tornar-se uma das maiores traduções do espírito brasileiro na moda.

“Hoje é um negócio em que os maiores players são empresas cotadas na Bolsa de Nova York ou pessoas que se utilizam da imagem do esporte para vender qualquer coisa”, diz Lagnado, da Hang Loose.

Com faturamento de 50 milhões de reais em 2016 e mais de mil pontos de venda em todo o país, a empresa vende 1 milhão de peças por ano.

É um dos maiores cases de sucesso entre as marcas que nasceram nesse boom oitentista da cultura e dos festivais de surfe – e que sobreviveram firmes até os dias de hoje.

O caminho se abriu quando, em meados da década de 80, as marcas estrangeiras que existiam de forma pirateada no Brasil passaram a se expor internacionalmente com os eventos de surfe

A legislação permitia o uso de nomes que não estavam registrados, independentemente se existiam ou não no exterior.

Sem a licença para usar o nome dos patrocinadores nas competições e com atletas passando aperto ao viajar estampando roupas piratas, as marcas legitimamente nacionais conquistaram o protagonismo do mercado.

Diante desse cenário, em 1986, a Hang Loose organizou a maior e mais emblemática competição daquela época, o Hang Loose Pro ‘86, na Praia da Joaquina, em Florianópolis.

Ondas perfeitas, grandes nomes da elite do surfe na disputa e um público de 2 mil pessoas espalhadas pelas areias e dunas da Joaca.

Foi o estopim para a popularidade do esporte e sua moda no Brasil. E a Hang Loose, com apenas quatro anos, conseguiu um torneio de altíssimo nível e com grande retorno financeiro e midiático.

“O que aconteceu lá atrás deixou a moda brasileira mais leve e irreverente, o que combina muito mais com o nosso espirito”, diz o proprietário.

“Vestir-se fugindo de padrões tradicionais europeus combina muito mais com um país tropical que tem um litoral do tamanho do nosso.”

Profissionais da praia

 (B. Issa/Divulgação)

Se os anos 70 foram para o surfe uma década de desbunde e descobertas, os 80 trouxeram a profissionalização em todas as suas esferas – na técnica, na moda e na cultura.

O Brasil era a bola da vez, um mercado emergente diante de Estados Unidos, Austrália e África do Sul, países então tradicionais do esporte e com marcas consolidadas.

Ao lado da Hang Loose surgiram outras que até hoje ditam tendências de moda praia aqui e lá fora, como Redley, Osklen e Mormaii.

A Osklen, criada em 1989, tem atualmente quatro lojas fora do país (duas em Tóquio, uma em Nova York e outra em Miami), 53 lojas próprias no Brasil e mais de 20 franquias.

O desdobramento daquela onda de surfistas dos anos 80 rendeu a Oskar Metsavaht, dono da grife, um império envolvido no surfwear e no lifestyle praiano, com um apelo extremamente forte no mercado brasileiro.

Uma das lendas do surfe nacional, Carlos Burle, 50 anos, campeão mundial de ondas grandes, conta que foi exatamente esse lifestyle que o influenciou a começar a pegar onda.

“Não comecei a surfar por causa do esporte”, ele conta.

“Um dia estava na Avenida Boa Viagem, em Recife, e e vi quatro garotos passando naquele fundo de coqueiros e praia, com a pele bronzeada, cabelos queimados e pranchas e calções coloridos.

Pensei: ‘Cara, essa turma é saudável, essa turma é livre’.

Foi isso que realmente fez com que eu me tornasse surfista.”

Segundo Burle, vestir aquelas roupas confortáveis, de tecidos leves, flexíveis e cores cítricas fluorescentes nos anos 80 era quase um manifesto, a declaração de pertencer a uma contracultura unida em torno de um esporte que tinha tudo a ver com as rupturas vividas no país.

Hoje, esse estilo é um padrão entre jovens e adultos.

O próprio Burle se lembra de que, no Brasil daquela época, ninguém usava bermuda de praia.

“Todo mundo tinha uma sunga ou short careta. Hoje qualquer coroa veste um boardshort porque é confortável e funcional”, afirma.

“Marcas que não nasceram no surfwear englobaram esse tipo de vestimenta porque deu certo e faz sentido”.

Para o cineasta Rafael Mellin, 38 anos, diretor dos filmes 70 e Tal e 80 e Tal, que contam a história do surfe brasileiro nas respectivas décadas, os anos 80 viram a produção de roupas ficar acessível e massificada.

“Você não dependia mais daquela tia que vinha dos EUA para trazer uma bermuda colorida”, diz.

Além das competições, outra ferramenta de disseminação dessa moda foram os programas de TV, como Armação Ilimitada e Realce, e as revistas especializadas, como Fluir e Trip.

Com esse empurrãozinho, criou-se um registro impressionante de uma tribo que conquistava o mainstream dia após dia.

Nascia ali um ecossistema de produção que envolvia atletas, entusiastas, ação, moda, arte, estilo de vida, eventos e mídia.

“Foi uma conjunção de fatores”, diz Mellin.

“Com o final da ditadura e a abertura do mercado era possível falar sobre tudo, colocar meninas de topless nas revistas e ser o cara da contracultura.

Aquele momento foi o primeiro contato do surfe com o grande público.

Hoje, o esporte bomba nas mídias sociais, tem campeonato na TV aberta, dois campeões mundiais e qualquer um sabe quem é Gabriel Medina ou Adriano de Souza.”

Além do surfe

 (Marcelo Soubhia/Divulgação)

Com a disseminação desse estilo de vida que reflete bem o espírito do brasileiro, diversas marcas de moda masculina apostaram de uma forma ou de outra no surfwear.

É o caso da Reserva, label carioca que não é ligada ao surfe, mas começou vendendo bermudas.

Sua “moda manifesto” agrega, entre outras peças, itens relacionados à praia para diferentes idades.

São 42 lojas espalhadas pelo país e um faturamento que cresceu 700% entre 2010 e 2016 – de 40 milhões de reais para 280 milhões.

Segundo Carlos Sarli, 57 anos, cofundador da revista Trip, o que torna o esporte e sua cultura ainda mais sedutores é a vida ao ar livre, saudável, repleta de viagens e aventura.

“As roupas e acessórios no entorno desse ambiente fazem com que aqueles que não praticam o surfe e não podem estar na praia com frequência se aproximem desse clima”.

“As roupas vendem mais para os que desejam fazer parte desse universo do que para os praticantes. No início, o que os donos das marcas queriam era ganhar algum dinheiro para viajar, estar perto do esporte e da praia”, afirma.

“Na medida em que a atividade ganhou corpo e exigiu profissionalização, poucos conseguiram manter a operação eficiente e as marcas originais da Austrália e EUA também vieram para ocupar o espaço.”

 (Fotosite/)

Com isso, muitas labels entraram no jogo e dividiram o bolo daqueles amigos surfistas nos anos 80.

Ao lado da Reserva, outras ganham muito dinheiro vendendo o estilo praiano. A liberdade realmente nunca sai de moda.