Camisa 10 brasileiro: espécie em extinção

Se existe uma mística mundial em torno da camisa 10, o futebol brasileiro é o responsável. Foi Pelé em 1958, consagrado Rei do Futebol aos 17 anos, quem conferiu ao número uma importância especial. Só que esse artigo que tínhamos aos montes está em falta – o craque habilidoso que sabe tudo do meio-campo e decide lá na frente, que chama o jogo, dá passes perfeitos e faz gols inacreditáveis.

A escassez começou nos anos 1990. Em nossos clubes, os técnicos começaram a dar a 10 para atacantes. Até que, nos últimos anos, a mítica camisa passou a ficar com volantes e meias de contenção – por exemplo, Hernanes em seu último ano no São Paulo. Especialistas identificam a origem do problema: vem se priorizando a formação de jogadores de combate (que podem, no futuro, ser facilmente vendidos para a Europa) ou atacantes matadores e inibe-se o meia que trabalha a bola sem afobação, com inteligência e arte – tem técnico que acha que isso é firula.

Neto, comentarista da Band e camisa 10 do Corinthians campeão brasileiro de 1990, é o mais indignado: “Hoje vemos até volante usando a 10! O motivo principal é a incompetência dos treinadores da base, que não preparam os garotos para essa função. Estão preocupados em criar volantes e zagueiros para se defender”.

Mais comedido, Tostão, campeão na Copa de 1970 e atual colunista do jornal Folha de S.Paulo, aponta: “O meio-campo foi dividido entre os volantes, que quase só marcam, e os meias ofensivos, que quase só atacam. As categorias de base precisam investir no meia-armador, que desapareceu”.

Paulo Vinícius Coelho, o PVC, comentarista da ESPN, avalia que o esquema 3-5-2 (zagueiros, laterais, volantes e meias a serviço da destruição de jogadas para acionar os atacantes na velocidade) matou o jogador de enganche. Papel que Zico cumpria com maestria no Flamengo e na Seleção.

“Na minha época, eu jogava partindo de trás com a bola. Hoje o 10 nem é necessariamente ofensivo. O jogo mudou suas características, por isso é difícil encontrar jogadores com o mesmo perfil de antigamente”, analisa Zico. Mas ele acredita que a fase é passageira: “É só o jogador querer assumir a responsabilidade e o peso que a camisa exige”.

Coisa que faltou à Seleção nas últimas duas Copas. “Ronaldinho e Kaká são mais atacantes que armadores”, diz PVC. “O Kaká não conseguiu ser o 10 principalmente contra a Holanda. Deveria segurar o jogo, desacelerar quando estávamos ganhando.”

Ganso é a salvação?
Para impedir a extinção, alguns fatores já se manifestam. Primeiro: na última Copa, outras seleções recuperaram o prestígio do camisa 10 – tanto que o craque do torneio escolhido pela FIFA foi Diego Forlán, do Uruguai, um 10 à moda antiga (nas Copas anteriores, os eleitos foram um goleiro e um zagueiro). A Holanda teve Sneijder, que matou o Brasil com dois gols. E, para Zico, a campeã Espanha teve em Iniesta um 10 tradicional em tudo, menos no número ( jogou com a 6).

Forlán também ilustra que nossos vizinhos do Mercosul não pararam de cultivar a arte do 10. Nem o Uruguai, nem a Argentina. Mesmo após a aposentadoria de Maradona, os hermanos prosseguiram com Ortega, Riquelme, Verón – para não mencionar exportados como D’Alessandro (Inter) e Conca (Fluminense). “Para nós, o que vale mais é a técnica a serviço do ataque. O 10 nunca morrerá”, diz Elias Perugino, da revista argentina El Gráfico.

Mas a grande esperança para reverter o quadro no Brasil é Paulo Henrique Ganso, a revelação do Santos. Desprezado por Dunga para a Copa, ele finalmente foi para a Seleção na estreia de Mano Menezes. PVC aposta nele. “No resgate dos 10, o Ganso é o melhor exemplo: um meia-armador que funciona como ponta-de-lança.” Ainda resta a dúvida: Ganso é um último suspiro do típico camisa 10 ou a recuperação de sua estirpe? Se ele for bem, espera-se que outros garotos habilidosos sejam mais valorizados que os volantes e os meros velocistas.

OS MANDAMENTOS DO 10 CLÁSSICO

● Jogar em linhas diagonais, do meio para o ataque
● Finalizar
● Liderar a equipe, ter raça e ser responsável
● Pensar na próxima jogada antes de receber a bola
● Armar jogadas
● Saber a hora de acelerar e de cadenciar o jogo
● Jogar de cabeça erguida
● Bater bem com as duas pernas ou, pelo menos, ser fora de série com uma delas

Fonte: Paulo Vinícius Coelho, o PVC, comentarista da ESPN Brasil