Em Los Angeles, ritmos de bandas de rock viram quadros em galeria

Ritmo de bandas como Black Sabbath e Red Hot Chili Peppers vão parar na parede com preços que chegam a US$ 20 mil

Os fãs de música estão sempre em busca de maneiras de se conectar com seu artista favorito. Alguns seguem uma banda de cidade em cidade durante as turnês, outros são obcecados pelos discos, vídeos de shows, postagens no Facebook e fotos no Instagram mostrando as apresentações de um músico.

Agora, um número crescente de fãs está descobrindo e colecionando a arte “ritmo na tela”, em que bateristas de algumas bandas famosas – como Guns N’ Roses e Red Hot Chili Peppers – usam a tecnologia LED para transferir para uma tela seu ritmo e seu estilo único de percussão. A SceneFour, empresa de design e branding de Los Angeles, começou com a ideia em 2011. Ela faz parte de um movimento que usa a tecnologia para transformar mídias não visuais em arte visual.

A arte fornece uma “impressão digital musical”, tão original quanto o autógrafo de um artista.

“Cada artista tem sua própria persona, sua maneira de se mover, sua própria estatura física e sua energia própria, portanto tudo isso entra em jogo”, disse Cindy Blackman Santana, uma artista de jazz que também foi baterista de turnê de Lenny Kravitz e de Santana, e uma das bateristas capturadas pela SceneFour.

Então, como a obra é criada? O baterista se senta em um estúdio completamente escuro e usa baquetas com iluminação LED, que brilham de várias maneiras, dependendo do ritmo, da velocidade, da força e do ângulo com que são usadas. O músico usa uma variedade de baquetas iluminadas – semelhante à forma como um pintor usaria pincéis com tinta – para criar um reflexo visual de seu desempenho.

As câmeras, com o obturador aberto, seguem os movimentos. Fotos da luz abstrata são então transferidas para um computador e depois para uma tela usando impressoras Giclee, que produzem impressões de alta qualidade. As peças são nomeadas, assinadas pelo músico e vendidas como obras de edição limitada, com 5 a 100 cópias numeradas. Alguns dos artistas também desenvolvem obras únicas.

“Cada obra resultante é drasticamente diferente porque o estilo e a técnica de cada músico são únicos”, disse Cory Danziger, cofundador da SceneFour em 2004 com o design gráfico Ravi Dosaj.

“A obra de Bill Ward é escura e há uma espécie de elemento de presságio, enquanto Chad Smith dá uma sensação de luz e ar à sua performance. Ele abre os braços e o resultado final dá a ideia de uma borboleta”, disse Danziger. Ward é o baterista do Black Sabbath e Smith, do Red Hot Chili Peppers.

Steven Adler, o baterista original e membro fundador da Guns N’ Roses, gosta da forma como a arte capta seu estilo e personalidade.

“É uma impressão digital musical. Ela mostra a emoção e a paixão de quando libero minha energia, meu amor, meus sentimentos, minha alegria e minha raiva – tudo sai nessa foto”, diz ele.

E as obras agradaram os fãs.

Tom Wallace, de 55 anos, de San Diego, é fã do Black Sabbath desde o início da década de 1970. Depois de ler sobre a arte de Ward em um post no Facebook, ele imediatamente comprou quatro peças e se inscreveu para receber notificações de futuras versões. Desde então, participou de seis exposições da Galeria SceneFour em Los Angeles, onde conheceu Ward e até começou a comprar obras de outros bateristas.

Hoje, possui 45 obras de ritmo na tela, e 26 delas estão penduradas em sua casa de dois andares com quatro quartos – até mesmo no teto. Ele faz um rodízio das que são expostas, como em um museu.

O negócio de arte rítmica da SceneFour começou em 2011 e floresceu em grande parte por meio do boca a boca nas comunidades de música e em galerias. A empresa agora se dedica exclusivamente a essa arte.

Este ano, a SceneFour está criando telas para 11 músicos, em comparação com os dois de 2011. E também espera vender 1.200 peças este ano (foram 363 no primeiro ano). A empresa está expandindo seu serviço para capturar a performance de guitarristas usando uma luva com LED.

Os preços variam de US$ 200 a US$ 2 mil para as impressões de edição limitada, e entre US$ 700 e US$ 20 mil para as peças únicas mostradas em galerias. A SceneFour e os músicos dividem meio a meio os rendimentos, após as despesas.

Ravi Dosaj e Cory Danziger, fundadores da SceneFour, em seu escritório em Los Angeles Ravi Dosaj e Cory Danziger, fundadores da SceneFour, em seu escritório em Los Angeles

Ravi Dosaj e Cory Danziger, fundadores da SceneFour, em seu escritório em Los Angeles (Emily Berl/The New York Times)

Os cofundadores da SceneFour disseram ter iniciado a empresa sem investidores externos, sem orçamento de marketing e com apenas dois funcionários em tempo integral e três em meio período. Agora, Danziger planeja atrair investidores para expandir e ampliar a comercialização.

“Temos muitos artistas com os quais gostaríamos de trabalhar e que gostariam de fazer sua coleção conosco”, disse ele.

Danziger teve a ideia da arte rítmica ao assistir a um show de rock da banda Living Colour em Los Angeles em 2009. Ele viu Will Calhoun, o baterista da banda, usando baquetas LED, e ficou fascinado com as trilhas de luzes de cor neon seguindo cada movimento e batida do baterista.

“Ele fazia formas e padrões visuais hipnotizantes, e pensei: ‘Como podemos capturar isso e fazer peças de arte a partir do ritmo?'”, disse Danziger.

No dia seguinte, ele comprou baquetas LED, várias câmeras, um computador e cartões SD, alugou um estúdio e começou a testar o conceito. Em 2011, os dois primeiros lançamentos de arte foram feitos, com Stephen Perkins, do Jane’s Addiction, e Matt Sorum, do Guns N’ Roses e do Velvet Revolver.

Houve alguns tropeços no caminho. Às vezes, os bateristas batem mais forte do que as baquetas de LED suportam durante as sessões de gravação.

“Frankie Banali, do Quiet Riot, quebrou todas as que tínhamos – provavelmente uns 30 pares”, disse Danziger com uma risada.

Não foi preciso persuasão para convencer os bateristas; muitos viram o processo como uma extensão natural de sua música.

“Gosto da ideia de som e visão sendo capturados desse jeito”, disse Smith, do Red Hot Chili Peppers, que já fez 13 telas. Ele está planejando algumas peças únicas, na tentativa de acrescentar toques incomuns à arte – como uma peça lenticular, ou até mesmo adicionar seu DNA à tela.

“Pensei em adicionar um pouco de saliva ou de sangue – ou talvez algum outro DNA –, nunca se sabe. Vou ficar muito artístico”, disse Smith.

As pessoas compram as obras pelo site da empresa e nas exposições na galeria, que a SceneFour promove várias vezes por ano.

Alguns bateristas, como Calhoun do Living Colour, promovem suas próprias exposições, onde tocam bateria e respondem a perguntas.

“Eu queria trazer outro tipo de estética para o mundo da arte. Queria fazer minha arte”, disse ele.

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O rival mais próximo da SceneFour é a Soundwaves Art Foundation, que produziu arte musical para mais de 180 músicos nos últimos 12 anos. Sua arte é assinada pelos músicos, assim como a da SceneFour. Mas as semelhanças terminam aí. O Soundwaves usa ondas de áudio de músicas gravadas – e não os movimentos de um músico – para criar a arte. A Soundwaves também é uma organização sem fins lucrativos que doa 50 por cento de suas vendas líquidas para caridade.

A SceneFour está criando arte que vai se valorizar com o tempo?

Darren Julien, presidente e executivo-chefe da Julien’s Auctions, uma casa de leilões especializada em obras relacionadas ao entretenimento e à cultura pop, disse que acredita que as obras da SceneFour são colecionáveis. “O importante é fazer um número limitado de impressões e não sobrecarregar o mercado”, afirmou.

Ele disse que as vendas e avaliações das obras da SceneFour seriam semelhantes às da Soundwaves. Em 2011, um leilão que ele promoveu para esta última excedeu muito os lances esperados. Uma peça assinada por Paul McCartney, “Band no Run”, que ele achava que seria vendida por US$ 1.500, no máximo US$ 3 mil, saiu por US$ 11.520.

Então, quem Julien gostaria de ver no SceneFour? “O Santo Graal dos bateristas seria Ringo Starr.”