Bandas revivem o afrobeat de Fela Kuti

Abayomy e Bixiga 70 redescobrem o suingue e o engajamento do afrobeat, gênero criado pelo nigeriano Fela Kuti, o “Presidente Negro”

São Paulo – Apresentações lotadas, disco de estreia citado em várias listas como um dos melhores de 2011, reconhecimento de artistas do naipe de Lucas Santtana e a turma da Nação Zumbi. Nada mal para um grupo instrumental formado não faz nem dois anos, cujo DNA exibe uma vertente sonora ainda pouco conhecida por aqui: o afrobeat. A ascensão da paulistana Bixiga 70 no circuito Sesc–Rua Augusta está diretamente relacionada à redescoberta do gênero que o nigeriano Fela “Anikulapo” Ransome-Kuti (1938 -1997) criou na virada da década de 1960 para a de 70.

A banda não é a única formação contemporânea a investir no ritmo – nem o único indício de que esse som está em evidência. A história do seu inventor chegou à Broadway com o premiado musical Fela! (produção dos rappers Jay-Z e Will Smith) e, em 2013, deve virar filme: à frente do projeto, o incensado diretor Steve McQueen e o ator Chiwetel Ejiofor (conhecido por Salt e Gângster Americano).

Cantor, compositor, saxofonista e tecladista, Fela Kuti teve uma trajetória incomum. Nascido numa família de professores e ativistas de Abeokuta, na Nigéria, deixou o país em 1958 para estudar medicina na Inglaterra. Mas, interessado por música desde pequeno, desviou a rota para a Trinity School of Music, em Londres, contra a vontade dos pais.

O jovem Fela logo se encantou pelo jazz de Miles Davis, pelo som de James Brown e pela onda funk que explodiu no fim dos anos 60. Uma viagem para os Estados Unidos em 1969 colocou o nigeriano em contato com as ideias do grupo radical Panteras Negras e com autores engajados em causas antirracistas, que mais tarde influenciariam suas letras – como o ativista Malcolm X.

Assim se formou em sua cabeça a equação do afrobeat: uma música que, apoiada na tradição dos polirritmos africanos, promove o casamento dos grooves dançantes do funk com os improvisos do jazz e cuja força política se apresenta nas letras que tratam de problemas sociais. Em 30 anos de carreira, Fela manteve a fórmula – composições longas, forte presença de sopros, muitos solos de piano elétrico e saxofone, guitarra repetitiva marcando o ritmo. Sem esses elementos, uma música dificilmente pode ser classificada como afrobeat.


Abaixo o conservadorismo

Auxiliado pelos talentosos instrumentistas da banda de apoio Africa 70 – entre eles, o baterista Tony Allen, que traduziu para as baquetas a levada original do afrobeat –, o nigeriano causou comoção dentro e fora do seu continente com discos formidáveis, como Shakara (1972) e Zombie (1976). Na década de 1980, já acompanhado pela Egypt 80, seguiu dando suas estocadas sonoras e se engalfinhando com as autoridades oficiais de seu país – onde sempre fez questão de morar. Suas provocações eram as mais diversas.

Ele colocou uma cerca ao redor do terreno de sua casa em Lagos e determinou que ali era uma nova nação, a República de Kalakuta. Também promoveu uma cerimônia em que se casou com 27 mulheres ao mesmo tempo, muitas cantoras e dançarinas de sua banda (mais tarde adotaria um rodízio de, no máximo, 12 esposas). A maior afronta, porém, foi tentar concorrer à presidência da Nigéria duas vezes. As candidaturas não vingaram, mas renderam ao músico a eterna alcunha de Black President (Presidente Negro).

Em 1997, após muitas prisões e perseguição policial – que fizeram com que sua casa de shows, a Africa Shrine, mudasse de endereço algumas vezes –, Fela morreu vitimado por complicações relacionadas à aids. Sua música seguiu influente pelo mundo, de tal modo que, em 1998, surgiu a banda nova-iorquina Antibalas Afrobeat Orchestra (hoje Antibalas), prestando tributo ao mestre e também fundindo o afrobeat com outras fontes, como o pós-rock. Na montagem original do musical Fela!, o grupo foi encarregado de executar os temas do espetáculo.

Produtor do álbum da Bixiga 70 e baixista da Antibalas em algumas ocasiões, o norte-americano Victor Rice lembra que a febre afrobeat em Nova York começou durante a gestão do prefeito linha-dura Rudolph Giuliani e traça um paralelo com a capital paulista: “Faz sentido que o afrobeat esteja forte em São Paulo agora, pois a cidade passa por um momento conservador, sob o governo de Gilberto Kassab. Na tentativa de compensar o clima pesado, os artistas produzem coisas mais vibrantes. Dançar é necessário para aliviar a tensão – uma resposta natural”.


Na opinião do DJ e fotógrafo carioca Mauricio Valladares, que toca afrobeat em seus programas e festas desde os anos 80, o fato de a atual música pop brasileira ter sido influenciada por cantores com um pé na África, como Jorge Ben Jor e Gilberto Gil, permitiu que o legado de Fela se tornasse mais bem compreendido hoje. “Sem contar que o ouvinte daqui está em sintonia com japoneses, alemães e italianos, que tiveram suas atenções voltadas ao afrobeat pela incapacidade de o rock, o jazz, o blues, a eletrônica e o reggae seduzirem novas audiências”, avalia.

O cubano Carlos Moore, autor de Fela – Esta Vida Puta (Editora Nandyala), biografia do músico lançada no Brasil em 2011, acha que a crise na indústria fonográfica favoreceu o gênero. “Esses períodos de mudanças sérias permitem a aparição de músicas mais autênticas. Isso também aconteceu nos anos 70, quando o reggae virou um fenômeno mundial.” Moore acrescenta que Fela é um personagem “anti-establishment”, o que tem grande apelo sobre os jovens que se opõem às instituições financeiras. “Ele foi o maior campeão na luta contra a selvageria econômica”, afirma, em referência às letras e brigas do nigeriano.

Fela é festa

Várias cidades do mundo promovem baladas em homenagem a Fela Kuti todo 15 de outubro, data de seu aniversário. Capitaneado por abnegados devotos do afrobeat, o Fela Day chegou ao Brasil na década passada. Em 2009, numa dessas festas, surgiu a Abayomy Afrobeat Orquestra, banda carioca que vai gravar o primeiro álbum neste ano, com produção de Kassin. Suas composições em português, inglês e iorubá atraem centenas em shows no Rio de Janeiro.

Guitarrista da Abayomy e também do grupo Do Amor, Gustavo Benjão co-organiza outra festa periódica dedicada aos sons africanos, a Makula: “Nas primeiras edições, discotecávamos para 20 amigos. O boca a boca chamou gente ligada ao universo afro e hoje movimentamos 400 pessoas”.

Um ano mais nova que a Abayomy, a Bixiga 70 se diferencia da formação carioca por não ter vocal. Em seu álbum de estreia, que leva o nome do grupo, o afrobeat predomina, mas há também faixas que o fundem com o dub jamaicano e com estilos de raízes africanas mais populares no Brasil – caso do samba.

“No primeiro ensaio, definimos que não seríamos uma banda só de afrobeat”, conta o tecladista e guitarrista Mauricio Fleury. “A gente gosta de jazz, de Hermeto Pascoal, do grupo vocal Os Tincoãs e de toda a escola percussiva brasileira, basicamente afro”, justifica. Talvez resida aí o sucesso inicial da banda. Mais do que explorar a criação de Fela Kuti, a Bixiga 70 e outros jovens artistas envolvidos nesse enredo querem agregar ao estilo algo próprio. Se o inventivo Fela estivesse vivo, certamente daria a sua bênção.