Vantagens e desvantagens de correr em companhia

Há vantagens em correr sozinho e com amigos.Veja como ter o melhor dos dois mundos

São Paulo – Como corredor, você sabe que um programa que inclui distâncias, ritmos e terrenos variados ajuda a alavancar o rendimento. O que você talvez não saiba é que o mesmo vale para sua companhia — ou falta dela — na corrida. Não importa se você prefere percorrer seus quilômetros com os colegas ou ficar sozinho com seus pensamentos, o fato é que corredores que são sempre rodeados de gente ou eternos lobos solitários estão em desvantagem.

“Estabelecer um padrão de corrida introvertido ou extrovertido pode limitar suas experiências e impedi-lo de evoluir como corredor”, diz Michelle Maidenberg, psicoterapeuta que trabalha com atletas em Nova York (EUA). Misturar as coisas e procurar — ou dispensar — companhia pode torná-lo um corredor mais equilibrado.

Prática solo

Entre celulares tocando, e-mails chegando, colegas de trabalho tagarelando e crianças pulando no sofá, pode ser difícil encontrar um momento de paz e tranquilidade no seu dia. Correr sozinho pode ajudá-lo a apertar o botão “mudo” do mundo (principalmente se você esquecer os gadgets) e aproveitar esse momento para realmente relaxar. “Correr sozinho pode ser uma experiência meditativa, em que você consegue pensar e se concentrar ou limpar sua mente e abstrair”, diz Michelle.

Também há benefícios para a performance. Quando você está sozinho, consegue prestar mais atenção em sua postura, respiração e ritmo, explica Brendan Cournane, técnico de corrida de Chicago (EUA). “É fácil se acostumar a correr com uma turma num ritmo leve, mas fazer isso toda vez impede que você atinja seu potencial máximo na corrida”, diz.

“E, se você sempre corre com um grupo que é rápido demais, pode acabar se esforçando mais do que deveria.” Correr sozinho é importante principalmente se estiver retornando de uma lesão e precisar escutar seu corpo para evitar outro período de “molho”.


Além disso, treinar sozinho o deixa autossuficiente para o dia da prova: você se sente seguro para encontrar — e manter — um ritmo próprio, sem se influenciar pelo colega, e adquire a habilidade de reconhecer quando o corpo precisa de hidratação e combustível.

Amor de turma

Um dos maiores presentes que seus colegas de corrida dão é responsabilidade: é duro levantar às 5 da manhã para treinar, principalmente se está chovendo e você ficou até tarde assistindo TV. Mas, se sabe que tem um amigo esperando você, vai ter mais motivação para pular da cama, segundo Cournane. Esse princípio também funciona durante o treino: um parceiro pode evitar que você faça corpo mole ou pegue um atalho.

Essa pressão positiva também funciona no nível subconsciente — graças a um conceito chamado “facilitação social”, explica a americana Cindra Kamphoff, consultora em psicologia do esporte. Isso foi comprovado com ciclistas: eles faziam tempos menores quando competiam contra alguém do que quando pedalavam sozinhos. Mas o mesmo vale para corredores. “Quando você corre com outra pessoa, tende a se esforçar mais. Entra no ritmo e não percebe quão rápido está indo.”

Correr acompanhado também o incentiva a ir além. “Você aprende mais sobre como outras pessoas treinam e o que estão fazendo, o que pode inspirá-lo a fazer alguma coisa diferente”, diz ela. “Isso ajuda a abrir sua cabeça para experimentar novas distâncias, provas ou tipos de treino e percurso.”


Segundo Cournane, muitos iniciantes são corredores solitários porque se sentem pressionados ou intimidados ao correr com outras pessoas. Para eles, uma saída pode ser começar a correr com apenas uma pessoa. 

Antes de recrutar um colega, porém, converse com ele sobre suas metas, principalmente de velocidade. Se ele é mais rápido, combinem de treinar juntos num dia em que ele fará um treino fácil, de recuperação. Assim, você aproveita a corrida sem se preocupar em acompanhá-lo ou atrasá-lo.

Equilíbrio certo

Com tantas vantagens de correr sozinho e acompanhado, o mais inteligente é fazer os dois. Um solitário pode querer se juntar a um amigo um pouco mais rápido para os treinos de velocidade ou a outros para fazer companhia nos longões. E um corredor mais sociável pode se separar do grupo para fazer um treino de qualidade (tiros, fartleks ou tempo run), de olho em suas metas individuais.

Foi isso que Cindra Kamphoff fez quando se preparava para a Maratona de Omaha, em setembro de 2012. Embora prefira treinar com o grupo de corrida, ela fez sessões solitárias para trabalhar a parte mental.

“Você tem que praticar para se livrar do tagarela interior que pode atrapalhar seus objetivos”, afirma Cindra. No dia da prova, ela pôde reprogramar seus pensamentos negativos e venceu a maratona feminina com o tempo de 3h05min12.