As tensões em preto e branco

Thiago Lavado

Um norueguês que diz admirar Donald Trump joga xadrez contra um russo apoiador de Vladimir Putin em Nova York. Quem vence?

Apesar de parecer o início de uma piada muito ruim, é a final do Campeonato Mundial de Xadrez. O evento se passa dentro de uma sala fechada e à prova de som no Edifício Fulton Market, distrito portuário de Nova York, com uma vista panorâmica da ponte do Brooklyn. Lá, o norueguês Magnus Carlsen, número 1 do ranking mundial, defende o título contra o russo Sergey Karjakin, 9º da lista, que venceu o Torneio dos Candidatos. O evento é transmitido pela internet, com pacotes que custam de 15 a 99 dólares e preveem de análises a comentários em tempo real. Para ver pessoalmente, os ingressos vão de 75 até 3.000 dólares.

Até agora, depois de seis jogos os dois seguem empatados em 3 a 3. A disputa é melhor de 12 e, se seguir no ritmo atual, deve terminar no final de novembro. No xadrez, cada vitória garante 1 ponto e cada empate meio ponto. Pelas regras do Campeonato Mundial é necessário conseguir 6,5 pontos para se consagrar campeão e é normal que empates ocorram em jogos profissionais, podendo levar a tie breaks caso ninguém alcance a pontuação necessária. Quem vencer leva, além do troféu, o prêmio de 1,1 milhão de dólares, bancado por patrocinadores.

Até agora, o resultado é positivo para Karjakin, que se beneficia com os empates. Carlsen tem jogado melhor, obrigando a defesa do russo a trabalhar. Os movimentos defensivos do russo foram tão bem realizados que surgiu a piada de que ele seria o próximo ministro da Defesa de Putin. 

Segundo Krikor Sevag Mekhitarian, um dos 12 brasileiros com o título de grande mestre, posto mais alto na hierarquia do esporte pela Federação Internacional de Xadrez (FIDE na sigla em francês), ambos os jogadores têm um estilo parecido e há uma clara diferença de nível, com Carlsen sendo um franco favorito. “Alguma vitória deve aparecer nos próximos dias, na medida que o cansaço toma conta e abre margem para erros. Eles estão jogando uma média de 6 a 7 horas por partida, tropeços devem acontecer”, afirma Mekhitarian, que teve seu próprio embate contra Carlsen em 2014.

Carlsen, que tem 25 anos, foi ensinado pelo pai aos 5 anos, que conta que o filho demonstrou inicialmente pouco interesse pelo jogo. Aos 13 se tornou grande mestre, mesma idade que começou a jogar profissionalmente. Foi campeão mundial aos 22 anos, em 2013, quando derrotou o indiano Viswanathan Anand. Carlsen se mantém com dinheiro dos patrocinadores e dos prêmios, que lhe garantem cerca de 2 milhões de dólares por ano.

Do outro lado, Karjakin, que tem 26 anos e originalmente é ucraniano, mas se tornou russo em 2009 diante de um decreto do então presidente Dmitry Medvedev, também é um prodígio. Ele é a pessoa mais jovem a conquistar o título de grande mestre da FIDE, quando tinha apenas 12 anos. Quando venceu o Torneio dos Candidatos em abril, o russo embolsou o prêmio de cerca de 100.000 dólares.

Trompowsky

No primeiro jogo, realizado no dia 11 de novembro, uma abertura de Magnus Carlsen chamou a atenção dos aficionados por xadrez e dos analistas políticos. Entre as milhares aberturas e variações listadas no jogo, Carlsen escolheu uma peculiar, chamada o Ataque Trompowsky.

Depois que Donald Trump venceu as eleições, não faltou quem associasse o movimento do norueguês ao presidente eleito. Após o jogo, o norueguês foi questionado se o movimento tinha algo a ver com Trump. Ao que respondeu que “um pouco”.

Em março, Carlsen afirmou à rede de televisão norueguesa TV2 que era fã de Donald Trump. “Trump é ótimo em apontar as principais falhas de seus adversários. Ele sempre fala como seus oponentes são estúpidos. Deveríamos ter mais disso no xadrez ”, afirmou. Segundo Mekhitarian, Carlsen é conhecido por algumas piadas e é difícil saber se essa admiração a Trump não é mais uma delas. “Certa vez ele jogou uma abertura por conta de uma aposta. É possível que tenha feito o Ataque Trompowsky como uma brincadeira, mas é improvável em um campeonato tão importante”.

Curiosamente, o Ataque Trompowsky é a única das aberturas mais usuais do xadrez dada em homenagem a um enxadrista brasileiro, Octavio Trompowsky, que nasceu no Rio de Janeiro e foi campeão brasileiro em 1939.

Tempos digitais

Além de todas as peculiaridades que guarda, o torneio deste ano tem ainda outra questão interessante: é a primeira vez que ambos os competidores nasceram nos anos 90. Ou seja, foram criados na época digital, com acesso a computadores e a programas que ajudam os competidores profissionais a se preparar melhor.

Nos anos 80, o campeão do mundo Garry Kasparov venceu diversas vezes os computadores, inclusive em uma partida contra 32 máquinas ao mesmo tempo. Com o avanço da tecnologia, as coisas foram se complicando para os enxadristas, até que em 1997 Kasparov perdeu para uma atualização do computador Deep Blue, da fabricante IBM, o primeiro software a derrotar um campeão do mundo.

Embora Carlsen com os olhos vendados já tenha derrotado, simultaneamente, 10 bons jogadores de xadrez — demonstração que é até comum entre grandes jogadores — é consenso que ele não consiga derrotar um computador atual. As máquinas realizam cálculos e análises de maneira mais rápida e eficiente que um ser humano, por isso Carlsen já afirmou que jogar contra o computador é um treino frustrante. “É nocivo para a autoestima porque geralmente não há como vencer. O computador é estúpido e perder para alguém estúpido é irritante”, disse ele para o jornal Financial Times em outubro.

Os computadores tornaram-se presença comum no xadrez na última década. Jogadores tendem a usá-los para definir que tipo de abertura é melhor e menos suscetível a erros. Isso tornou o jogo, principalmente o início de cada partida, cada vez mais analítico. Antigamente esse conhecimento era limitado ao aprendizado do jogador e ao que havia em livros.

Carlsen quebrou com esse padrão ao discordar das máquinas. Uma das características que destacam o norueguês é sua habilidade em fazer aberturas pouco usuais, que questionam os programas de computador, pegando jogadores que se preparam utilizando modelos computacionais desprevenidos.

Xadrez e política

Analogias entre a política internacional e o jogo de xadrez são bastante comuns. Há dezenas de artigos, livros e análises sobre como, muitas vezes, líderes e chefes de estado se comportam nas relações exteriores como se estivessem movendo peças no tabuleiro do mundo real.

Mas houve vezes em que a situação se inverteu e o xadrez passou a ser o foco nas relações internacionais. Um dos casos mais emblemáticos foi a partida entre o americano Bobby Fischer e o russo Boris Spassky realizada em Reykjavik, capital da Islândia, em 1972. O jogo foi importante no contexto da Guerra Fria como um embate estratégico entre os Estados Unidos e a Rússia, que dominavam o esporte há décadas. Os russos acreditavam que manter o título era essencial para demonstrar superioridade sobre os países do ocidente.

Depois de perder o primeiro jogo, Fischer começou a fazer demandas aos organizadores do torneio, para que retirassem todas as câmeras de vídeo. Quando suas exigências não foram atendidas, ele não compareceu ao segundo jogo, dando a vitória a Spassky. Muitos observadores, à época, consideraram a partida terminada e especulavam que Fischer deixaria a Islândia. A história conta que ele de fato procurou voos para sair da ilha, mas foi dissuadido por seus assistentes.

Dizem que por espírito esportivo e por uma certa admiração que tinha por Fischer, Spassky aceitou jogar o terceiro jogo em uma sala isolada, longe dos espectadores. Outros mestres de xadrez afirmam que este foi um dos principais erros psicológicos do russo naquele torneio. Fischer, de fato, venceu o terceiro jogo, que foi determinante para mudar o rumo do campeonato. Até a décima partida, Fischer conseguiu virar a mesa sobre Spassky, vencendo 4 jogos e empatando os outros 3. O americano terminou a disputa no 21º jogo (tratava-se de uma melhor de 24) e se consagrou como o primeiro norte-americano a tornar-se campeão mundial, encerrando o ciclo russo em uma vitória por 12 ½ a 8 ½.

Depois da Islândia, Fischer sumiu no mundo, abrindo mão da fama e até da defesa do título de campeão contra o desafiante russo Anatoly Karpov, em 1975. Fischer impôs regras ao torneio que não foram aceitos pela federação. Karpov chegou a afirmar em entrevistas que sentia não ter tido a oportunidade de enfrentar Fischer.

Acredita-se que Fischer tenha passado o restante da vida entre a Hungria, as Filipinas e a Islândia, além de uma curta temporada na Califórnia. Ele fez aparições esporádicas em rádios destes países, falando contra uma suposta conspiração judaica contra ele — Fischer ficou conhecido por seu interesse em literatura nazista.

O rebelde americano voltou aos holofotes em 1992, em uma revanche contra Spassky na Iugoslávia. Ele impôs suas próprias regras ao torneio e venceu a competição por 10 vitórias a 5, apenas para levar o prêmio de 3,35 milhões de dólares e sumir novamente no mundo. Em 2008, ele morreu aos 64 anos em Reykjavik, no apartamento que dividia com um amigo, por complicações renais de uma doença que nunca foi esclarecida. Spassky, que mora em Moscou, é atualmente o campeão mais velho ainda vivo.

Mais recentemente, o russo Garry Kasparov, campeão do mundo entre 85 e 93, se tornou notável após a aposentadoria do xadrez por razões políticas. Ele anunciou candidatura à presidência da Rússia em 2007, quando também foi preso em um protesto contra o sistema eleitoral do país, que alega ser responsável por diversos entraves a sua campanha.

Kasparov é um dos maiores opositores ao governo de Vladimir Putin, tendo em 2010 sido um dos organizadores do protesto “Putin tem que ir embora”, uma petição que chegou a reunir 90.000 assinaturas — ele chegou a comparar o governo Putin com o de Adolf Hitler. Em 2012, Kasparov também foi preso durante um protesto em favor da banda feminina punk Pussy Riot.

Krikor Mekhitarian, o grande mestre brasileiro, também teve sua dose de posicionamento político em 2016. Ele, que é descendente de armênios, escolheu não comparecer à Olimpíada de Xadrez, evento mais importante do esporte, que seria realizada em Baku, capital do Azerbaijão. Lá, a violência e o ódio contra armênios são disseminado até pelo presidente azeri, Ilham Aliyev. “É uma questão política contra essa violência que eu não compactuo. A equipe armênia também deixou de comparecer, mesmo tendo vencido três das últimas cinco edições dos jogos”, explica.

Enquanto isso, às margens do Rio Hudson, Karjakin tem altas expectativas nos ombros. Ele é apoiado pelo governo russo, que tem muito interesse no título. Desde que Kasparov se retirou do xadrez profissional, a equipe russa não venceu nenhuma Olimpíada e há dez anos não emplaca um campeão mundial no esporte, que é um dos maiores símbolos nacionais. Diante de Magnus Carlsen, cabe a Sergey Karjakin mudar essa história. O sétimo jogo é neste domingo.