Aos 89 anos, Stan Lee está mais pop do que nunca

Em 2011, estreou como roteirista de Thor e Capitão América no cinema e acaba de transformar Arnold Schwarzenegger no super-herói The Governator

São Paulo – Nenhum outro artista tem tanta influência sobre a cultura pop quanto Stan Lee. Esse simpático senhor passou meio século criando e administrando uma complexa mitologia de seres extraordinários — como Thor, Homem- Aranha e Homem de Ferro —, que se perpetua por meio de HQs, games e filmes.

Daí a pergunta: onde está o Nobel de Literatura de mister Lee? Pode parecer descabido para quem só se lembra do tiozinho que fala dos deuses da vida real no programa Os Super-Humanos de Stan Lee (no canal pago History Channel), em que apresenta casos reais e extraordinários — um homem imune à eletricidade, outro que controla o magnetismo —, mas, analisando o conjunto da obra, o gênio da Marvel está mais do que habilitado à comenda.

Nos próximos três anos teremos uma invasão de personagens criados por Lee no cinema. Em abril chegou Thor e, em junho, tivemos Capitão América. Depois, os longas com Os Vingadores, Nick Fury e Doutor Estranho. Também estão sendo produzidos Homem-Aranha 4, Quarteto Fantástico 3, o terceiro Homem de Ferro e o fi lme do Surfista Prateado.

Seu mais novo e comentado projeto, porém, programado para ser lançado em 2012, inclui um desenho animado para TV e uma revista em quadrinhos sobre a carreira póspolítica de um super-herói moderno chamado… Arnold Schwarzenegger. A história é a seguinte: depois de deixar o governo da Califórnia, Schwarzenegger resolve combater o crime, constrói um quartel-general debaixo de sua mansão em Los Angeles, treina um exército de crianças para ajudá-lo em sua função cívica e torna-se The Governator.

A animada vida de Stanley Martin Lieber — e das criaturas que viria a inventar — começou em 28 de dezembro de 1922, na cidade de Nova York. Seu pai, Jack, lhe ensinou duas coisas básicas: 1) nunca pare de trabalhar; e 2) leia muito. A mãe, Celia, contava que ele traçava as aventuras de Sherlock Holmes, os livros de Tarzan e até Shakespeare. Aos 17 anos, impregou-se como office boy na editora Funnies — e logo estava escrevendo roteiros de quadrinhos.


Mas Stan cansou-se logo de histórias bobas. Pensava em desistir. Até que o dono da editora, Martin Goodman, lhe mostrou o sucesso da concorrente — A Liga da Justiça da América, que reunia Superman, Batman e a Mulher-Maravilha — e propôs a Lee uma revista com um time de heróis da casa. “Queria escrever histórias que não insultassem a inteligência do leitor. Que eu mesmo tivesse prazer em ler”, lembra. Então, escreveu as frases que fariam história: “Com a repentina fúria de um trovão, um sinalizador é disparado sobre o céu de Central City! Três incríveis palavras se formam como por mágica e uma lenda nasce: O Quarteto Fantástico!” Pura profecia.

Seguiu-se um monstro verde chamado Hulk. A empresa virou uma potência e foi rebatizada: Marvel Comics. O próximo na fila seria “um adolescente que moraria com os tios, meio nerd, um perdedor no departamento romântico, sempre preocupado com dinheiro”. Com o Homem-Aranha, as vendas da Marvel bateram recordes históricos de 13 milhões de exemplares mensais. Stan Lee conheceu o sucesso internacional e lançou o bordão que até hoje finaliza qualquer uma de suas mensagens — “Excelsior!” “Para o alto e avante por uma glória maior”).

Em seguida, veio o deus nórdico Thor. Em 1963, Lee provocou o patrão: “Vamos criar um herói que não tem a menor chance de ser um sucesso e torná-lo popular. Um magnata que inventa e fabrica armas”. Nascia assim o Homem de Ferro. Em julho do mesmo ano, surgiu o místico Doutor Estranho. E, antes que 1963 acabasse, Lee criaria um grupo de seres geneticamente modificados, os X-Men. Em 1964, surgiram o herói cego Daredevil (O Demolidor, no Brasil) e o Surfista Prateado.

Em 1970, Stan já era uma estrela mundial — porém, continuava mero assalariado da Marvel. Mudou-se para Los Angeles aproveitando a ainda tosca (mas bem-sucedida) versão de Hulk para a TV. Mas as outras tentativas de levar seus personagens para as telas não deram em nada. As coisas só começaram a melhorar de verdade nos anos 90, quando James “Midas” Cameron planejou uma superprodução para seu amado Homem-Aranha.


Como o legado jurídico da editora estava uma bagunça, Stan foi aos tribunais e exigiu seus direitos como criador de alguns dos mais famosos personagens de ficção do mundo. Ganhou. Acertadas as contas, uma nova era de grandeza começou para o Universo Marvel. O cinema agora tinha todas as condições tecnológicas para concretizar o que Stan havia imaginado 40 anos antes.

Em 2000, foi lançado X-Men. O cineasta Sam Raimi soltou o Homem-Aranha em 2002. O filme já rendeu mais de 800 milhões de dólares e teve duas sequências. Hulk ganhou duas versões. O Quarteto Fantástico tem Jessica Alba. Ben Affleck é O Demolidor. Robert Downey Jr. encarnou um perfeito Homem de Ferro. Os personagens de Stan Lee dominaram Hollywood na primeira década do novo milênio. E, para deixar clara a paternidade, Stan fez uma ponta em cada um dos filmes.

Mas nem tudo são sucessos na carreira do Zeus pop. Atualmente, enfrenta dois supermicos. Um é o reality show Os Super-Humanos, reciclagem do velho Acredite Se Quiser. Outro é a ousada adaptação de Homem-Aranha para a Broadway: quatro atores foram hospitalizados tentando voar pendurados por teias sobre o palco. Decadência? Muito pelo contrário.

Stan Lee, com 89 anos, trabalha como nunca e se diverte no Twitter assinando posts em estilo shakespeariano como El Generalíssimo. Os textos poderiam ser encaixados em seu merecido discurso de agradecimento pelo futuro Nobel: “Seja qual for a missão que os ventos do destino me reservarem, a encararei com a coragem e o valor pelos quais sou justamente afamado. Excelsior!”