Antonio Banderas — e a nova vida de um homem após um infarto

Pós-infarto e pós-divórcio, Antonio Banderas é o ator perfeito para interpretar um Pablo Picasso “cinquentão” em uma nova série de TV

LOS ANGELES — Em janeiro de 2017, Antonio Banderas, astro internacional, muso de Almodóvar, paixão de Madonna, três vezes indicado ao Globo de Ouro, uma vez indicado ao Emmy, teve um infarto. Estava se exercitando em sua casa em Londres quando foi fulminado, ele conta, por uma “dor insana, como uma nunca tinha sentido antes” no lado esquerdo de seu tórax, ombros e braço. Transportado às pressas para o hospital, Banderas ficou em observação. Liberado, viajou para a Suíça, onde se submeteu a uma cirurgia para colocação de três stents.

Banderas recuperou-se em pouco tempo – pelo menos fisicamente, ele conta. “Esse é o tipo de acontecimento que muda sua vida”, ele diz. “Sempre vivi como todos nós, nessa perfeita ilusão de que vamos viver para sempre. E, no entanto, apenas uma coisa é certa na vida: que vamos todos morrer. E não há escolha possível: a vida é uma ditadura que se impõe com todo o seu poder – e te mata no final.”

Ele estava com 56 anos quando teve o infarto. Oito meses depois, com 57 anos recém-completados, Banderas começava, na Espanha, as filmagens de um novo projeto, num papel que tinha jurado jamais interpretar: Pablo Picasso, seu conterrâneo, nascido na mesma Málaga, cidade natal de Banderas. “Tantos dos meus colegas dizem, ‘ah, finalmente fiz este papel que eu sempre desejei!’. Comigo é o contrário – eu sempre fugi do papel de Pablo Picasso. O papel me foi oferecido várias vezes ao longo da minha vida, inclusive quando eu era ainda bem jovem. E eu sempre disse não, não, não.” Ele pausa um pouco, abaixa a cabeça como quem se recolhe para pensar, e continua. “Tanta gente correndo para ser Pablo Picasso, e eu correndo dele”, Banderas diz, com uma sonora gargalhada como ponto final.

O Pablo Picasso que finalmente entrou na filmografia de Antonio Banderas – pós-infarto, pós divórcio (de sua segunda mulher, a atriz Melanie Griffith, com quem foi casado durante duas décadas, mãe de sua filha Stella del Carmen) é exatamente o Pablo Picasso cinquentão-sessentão, já famoso, rico e ainda cercado de musas muito mais jovens. O projeto começou em 2012, com uma proposta de seu amigo, o director Carlos Saura, que havia comprado os direitos do livro 33 Dias, sobre a criação da histórica obra “Guernica’. “Porque era Saura, e porque eu não era mais um garoto, eu me senti afinal pronto para interpretar Picasso”, Banderas conta.

Cinco anos, um processo de falência, e várias disputas legais depois, o projeto foi repescado pelo diretor Ron Howard, produtor da série Genius, do canal National Geographic. “A presença de Ron Howard e a marca National Geographic me deram a tranquilidade que eu precisava para me comprometer com o papel, mesmo não sendo mais o projeto inicial.”, Banderas diz.

Também não é por acaso que seu encontro com Pablo se deu depois das provações do infarto e do divórcio. “Eu não acredito em destino – do tipo de alguém dizer “você vai fazer isso, aquilo e tal e morrer com x anos, em tal lugar”. Isso eu não acredito de jeito nenhum. Mas acredito no ritmo do universo e na lei da atração. Acho que as coisas acontecem na hora em que elas devem acontecer.” Nova pausa introspectiva. “Eu tinha medo antes. Picasso é um ídolo para mim. Nascemos na mesma cidade. Cresci à sombra dele. Interpretar Picasso era como… carregar uma mochila pesada demais para mim. Eu sabia que seria julgado muito duramente, e eu tinha medo de não estar à altura, não alcançar as notas certas. Não fazer justiça a uma pessoa que eu adorava, que eu adoro. Mas perdi o medo.” Ri muito, de novo. “Perdi quase todos os medos!”

Na série Genius: Picasso (que estréia aqui dia 24 de abril no canal National Geographic), Banderas divide o papel com o ator Alex Rich, que faz o artista enquanto jovem emigrando da Espanha para Paris e dando os primeiros passos no amor e na arte. Banderas, contudo, tem a parte do leão: seu Picasso é o da metade final da vida do gênio, da Guerra Civil Espanhola (e “Guernica”) até o fim de sua vida. “É complicado. É claro que é complicado”, Banderas diz. “Sabemos o que ele fez. Sabemos o que ele disse. Mas como saber o por que do que ele fez e disse? Tentei compreender sua personalidade- depende que como foi a relação com Don Pablo, cada pessoa que escreve sobre ele conta uma história diferente. E ele mesmo não gostava de falar. Não dava entrevistas. Não se explicava. Não era como Dalí, que adorava estar na imprensa. Ele era uma pessoa misteriosa, e eu simplesmente abracei o mistério.”

Um aspecto interessante da série é o espaço reservado aos amores de Picasso, com especial atenção para as restrições enfrentadas pelas mulheres no primeira metade do século 20, e como esse elemento define suas escolhas, suas carreiras e seu relacionamento com Don Pablo. Olga Khokhlova, Dora Maar e, especialmente, Françoise Gilot são apresentadas como artistas com ideias e ambições próprias, e seu talento como um elemento fundamental de sedução. “Don Pablo era um vampiro, um pouco”, diz Banderas. “Ele precisava da vertigem da paixão para criar- e isso gerava uma série de consequências nefastas à sua volta, ferindo e magoando muita gente. Ele era assim também com seus amigos, não apenas com suas mulheres. Ele brigava constantemente com Braque, com Chagall, até com Matisse, que ele considerava um amigo querido. Ele usava as pessoas, mas, do ponto de vista dele, não de um modo maldoso. Era o combustível de sua arte, e sua arte era repleta de paixão.”

Depois de uma carreira de grande sucesso, primeiro na Espanha e depois em Hollywood, Banderas passou recentemente por um período morno, com projetos menos interessantes e de menor repercussão. A fase, aparentemente, acabou: além de Genius: Picasso, Banderas tem pela frente a cinebio Lamborghini (ele é Ferrucio Lamborghini, Alec Baldwin é Enzo Ferrari) o drama Life Itself, escrito e dirigido pelo criador da série This is Us, e mais um retorno a Almodóvar, com Dolor y gloria.

Na vida pessoal, está namorando a banqueira Nicole Kempel – “chega de atrizes. Adoro o fato dela viver num mundo que não tem nada a ver com cinema, adoro que posso conversar com ela e os amigos dela sobre coisas da vida real”- e acompanhando com orgulho os passos da filha Stella – “ela foi aceita pela University of Southern California, na faculdade de cinema, não sei se ela quer ser diretora ou produtora. Neste momento, tudo o que sei é que ela está em Coachella.”

“Estou num momento de grande tranquilidade”, Banderas resume. “O infarto, a cirurgia, a recuperação abriram as portas para coisas realmente mágicas. Perdi minha ansiedade, perdi a obsessão por aquela coisa especial que eu absolutamente tinha que ter para ser feliz ou bem sucedido. De certa forma recuperei o prazer de atuar. É como se a vida tivesse me dado a possibilidade de ver tudo sob uma nova perspectiva.

Antonio Banderas — e a nova vida de um homem após um infarto

Pós-infarto e pós-divórcio, Antonio Banderas é o ator perfeito para interpretar um Pablo Picasso “cinquentão” em uma nova série de TV

LOS ANGELES — Em janeiro de 2017, Antonio Banderas, astro internacional, muso de Almodóvar, paixão de Madonna, três vezes indicado ao Globo de Ouro, uma vez indicado ao Emmy, teve um infarto. Estava se exercitando em sua casa em Londres quando foi fulminado, ele conta, por uma “dor insana, como uma nunca tinha sentido antes” no lado esquerdo de seu tórax, ombros e braço. Transportado às pressas para o hospital, Banderas ficou em observação. Liberado, viajou para a Suíça, onde se submeteu a uma cirurgia para colocação de três stents.

Banderas recuperou-se em pouco tempo – pelo menos fisicamente, ele conta. “Esse é o tipo de acontecimento que muda sua vida”, ele diz. “Sempre vivi como todos nós, nessa perfeita ilusão de que vamos viver para sempre. E, no entanto, apenas uma coisa é certa na vida: que vamos todos morrer. E não há escolha possível: a vida é uma ditadura que se impõe com todo o seu poder – e te mata no final.”

Ele estava com 56 anos quando teve o infarto. Oito meses depois, com 57 anos recém-completados, Banderas começava, na Espanha, as filmagens de um novo projeto, num papel que tinha jurado jamais interpretar: Pablo Picasso, seu conterrâneo, nascido na mesma Málaga, cidade natal de Banderas. “Tantos dos meus colegas dizem, ‘ah, finalmente fiz este papel que eu sempre desejei!’. Comigo é o contrário – eu sempre fugi do papel de Pablo Picasso. O papel me foi oferecido várias vezes ao longo da minha vida, inclusive quando eu era ainda bem jovem. E eu sempre disse não, não, não.” Ele pausa um pouco, abaixa a cabeça como quem se recolhe para pensar, e continua. “Tanta gente correndo para ser Pablo Picasso, e eu correndo dele”, Banderas diz, com uma sonora gargalhada como ponto final.

O Pablo Picasso que finalmente entrou na filmografia de Antonio Banderas – pós-infarto, pós divórcio (de sua segunda mulher, a atriz Melanie Griffith, com quem foi casado durante duas décadas, mãe de sua filha Stella del Carmen) é exatamente o Pablo Picasso cinquentão-sessentão, já famoso, rico e ainda cercado de musas muito mais jovens. O projeto começou em 2012, com uma proposta de seu amigo, o director Carlos Saura, que havia comprado os direitos do livro 33 Dias, sobre a criação da histórica obra “Guernica’. “Porque era Saura, e porque eu não era mais um garoto, eu me senti afinal pronto para interpretar Picasso”, Banderas conta.

Cinco anos, um processo de falência, e várias disputas legais depois, o projeto foi repescado pelo diretor Ron Howard, produtor da série Genius, do canal National Geographic. “A presença de Ron Howard e a marca National Geographic me deram a tranquilidade que eu precisava para me comprometer com o papel, mesmo não sendo mais o projeto inicial.”, Banderas diz.

Banderas como o pintor Pablo Picasso na série Genius (divulgação)

Também não é por acaso que seu encontro com Pablo se deu depois das provações do infarto e do divórcio. “Eu não acredito em destino – do tipo de alguém dizer “você vai fazer isso, aquilo e tal e morrer com x anos, em tal lugar”. Isso eu não acredito de jeito nenhum. Mas acredito no ritmo do universo e na lei da atração. Acho que as coisas acontecem na hora em que elas devem acontecer.” Nova pausa introspectiva. “Eu tinha medo antes. Picasso é um ídolo para mim. Nascemos na mesma cidade. Cresci à sombra dele. Interpretar Picasso era como… carregar uma mochila pesada demais para mim. Eu sabia que seria julgado muito duramente, e eu tinha medo de não estar à altura, não alcançar as notas certas. Não fazer justiça a uma pessoa que eu adorava, que eu adoro. Mas perdi o medo.” Ri muito, de novo. “Perdi quase todos os medos!”

Na série Genius: Picasso (que estréia aqui dia 24 de abril no canal National Geographic), Banderas divide o papel com o ator Alex Rich, que faz o artista enquanto jovem emigrando da Espanha para Paris e dando os primeiros passos no amor e na arte. Banderas, contudo, tem a parte do leão: seu Picasso é o da metade final da vida do gênio, da Guerra Civil Espanhola (e “Guernica”) até o fim de sua vida. “É complicado. É claro que é complicado”, Banderas diz. “Sabemos o que ele fez. Sabemos o que ele disse. Mas como saber o por que do que ele fez e disse? Tentei compreender sua personalidade- depende que como foi a relação com Don Pablo, cada pessoa que escreve sobre ele conta uma história diferente. E ele mesmo não gostava de falar. Não dava entrevistas. Não se explicava. Não era como Dalí, que adorava estar na imprensa. Ele era uma pessoa misteriosa, e eu simplesmente abracei o mistério.”

Um aspecto interessante da série é o espaço reservado aos amores de Picasso, com especial atenção para as restrições enfrentadas pelas mulheres no primeira metade do século 20, e como esse elemento define suas escolhas, suas carreiras e seu relacionamento com Don Pablo. Olga Khokhlova, Dora Maar e, especialmente, Françoise Gilot são apresentadas como artistas com ideias e ambições próprias, e seu talento como um elemento fundamental de sedução. “Don Pablo era um vampiro, um pouco”, diz Banderas. “Ele precisava da vertigem da paixão para criar- e isso gerava uma série de consequências nefastas à sua volta, ferindo e magoando muita gente. Ele era assim também com seus amigos, não apenas com suas mulheres. Ele brigava constantemente com Braque, com Chagall, até com Matisse, que ele considerava um amigo querido. Ele usava as pessoas, mas, do ponto de vista dele, não de um modo maldoso. Era o combustível de sua arte, e sua arte era repleta de paixão.”

Depois de uma carreira de grande sucesso, primeiro na Espanha e depois em Hollywood, Banderas passou recentemente por um período morno, com projetos menos interessantes e de menor repercussão. A fase, aparentemente, acabou: além de Genius: Picasso, Banderas tem pela frente a cinebio Lamborghini (ele é Ferrucio Lamborghini, Alec Baldwin é Enzo Ferrari) o drama Life Itself, escrito e dirigido pelo criador da série This is Us, e mais um retorno a Almodóvar, com Dolor y gloria.

Na vida pessoal, está namorando a banqueira Nicole Kempel – “chega de atrizes. Adoro o fato dela viver num mundo que não tem nada a ver com cinema, adoro que posso conversar com ela e os amigos dela sobre coisas da vida real”- e acompanhando com orgulho os passos da filha Stella – “ela foi aceita pela University of Southern California, na faculdade de cinema, não sei se ela quer ser diretora ou produtora. Neste momento, tudo o que sei é que ela está em Coachella.”

“Estou num momento de grande tranquilidade”, Banderas resume. “O infarto, a cirurgia, a recuperação abriram as portas para coisas realmente mágicas. Perdi minha ansiedade, perdi a obsessão por aquela coisa especial que eu absolutamente tinha que ter para ser feliz ou bem sucedido. De certa forma recuperei o prazer de atuar. É como se a vida tivesse me dado a possibilidade de ver tudo sob uma nova perspectiva.

Veja o trailer da série: